Capitulo 76

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Aparecida

Eu enterrei meu neto como quem enterra um filho. Porque foi isso que ele foi pra mim. Não saiu de mim, mas cresceu no meu colo, dormiu na minha cama, aprendeu a andar segurando no meu dedo.

Quando dizem que ele não tinha mãe, falam a verdade pela metade. Ele teve. Fui eu.

Meses já passaram desde o enterro, mas a favela não deixa a gente esquecer. Aqui nada morre de verdade. O nome dele ainda anda pelas vielas, escorrega nas conversas, aparece em cochicho e em acusação.

Uns falam bem. Dizem que ajudava, que nunca deixava faltar nada. Outros falam mal. Chamam de bandido, de caso perdido. Eu escuto tudo. Engulo tudo. Porque quem criou foi eu. Quem chorou fui eu. Quem lavou o corpo dele na lembrança toda noite sou eu.

O enterro foi rápido demais. Caixão fechado. Gente demais em volta. Eu lembro do peso da pá, mesmo sem ter pego nela. Lembro do buraco fundo demais pra alguém tão novo.

Lembro de pensar que não era justo. Que eu já tinha enterrado gente demais na vida, mas nunca achei que fosse enterrar ele.

Nunca apoiei essa vida que ele escolheu. Nunca. Briguei, rezei, ameacei, chorei. Disse mil vezes que aquilo não ia dar futuro, que dinheiro fácil cobra caro depois.

Ele abaixava a cabeça, me beijava na testa e dizia que era só por um tempo. Sempre por um tempo. Até não ter mais tempo nenhum.

Agora sou eu e o irmão mais novo dele. Pequeno ainda. Olho praquele menino e vejo tudo de novo começando. E isso me dá medo. Um medo que aperta o peito e não solta.

Por isso eu decidi: a gente vai embora. Vai sair daqui. Essa favela virou um álbum de lembrança que eu não consigo mais folhear.

Cada esquina me devolve ele. Cada barulho de moto. Cada rapaz da idade dele. E o pior é passar com o menorzinho do meu lado e ouvir comentário atravessado.

Uns elogiam o irmão. Outros condenam. Nenhum pensa que tem uma criança ouvindo. Nenhum pensa que tem uma velha tentando salvar o que sobrou.

Eu ensino todo dia pro Victor que o caminho não é aquele. Que não existe glamour nenhum em morrer cedo. Que respeito de verdade é viver, estudar, voltar pra casa.

Às vezes ele pergunta do irmão. Às vezes fica em silêncio. Eu respondo como posso. Não minto, mas também não romantizo. Não criei um pra perder e criar outro pra repetir a história.

A casa já não é a mesma. Tirei as coisas dele aos poucos. Não por falta de amor, mas por sobrevivência. Cada objeto machuca. Cada lembrança pesa. Eu não quero que o menino cresça achando normal esse destino.

Eu sigo cansada, mas firme. Não tenho luxo de desmoronar. Luto virou rotina. Saudade virou companhia. Mas enquanto eu respirar, esse outro neto vai ter chance. E se eu tiver que sair daqui só com a roupa do corpo pra garantir isso, eu vou.

Porque eu já perdi um como filho.
E não vou enterrar o segundo como promessa quebrada.

Victor

Depois que meu irmão morreu, eu fiquei com uma coisa atravessada dentro de mim. Não era só tristeza. Era um peso estranho, como se todo mundo esperasse que eu fosse o próximo.

Aqui na favela é assim: quando um cai, já ficam olhando pro outro, medindo, apostando. Eu sinto esses olhos em mim o tempo todo.

Eu sinto falta dele. Muita. Mesmo quando eu finjo que não. Ele era tudo aqui em casa. O que resolvia, o que trazia, o que segurava as pontas. Mas ao mesmo tempo... eu não quero ser ele.

Não quero essa vida. Nunca quis. E depois que vi ele virar nome em boca alheia, história mal contada, eu tive certeza.

Minha vó é a única pessoa que me escuta de verdade. A gente conversa muito à noite, quando a casa fica quieta. Eu falo que a gente precisa ir embora, que esse lugar não deixa a gente respirar, que cada esquina parece armadilha. Ela concorda.

Dá pra ver nos olhos dela que ficar aqui é morrer aos poucos. Ela criou meu irmão como filho e agora tá criando a mim com medo dobrado.

O luto aqui não é silencioso. É barulhento, invasivo. Todo dia alguém lembra dele. Uns falam como se fosse herói.

Outros falam como se ele fosse lixo. Nenhum deles sabe quem ele era dentro de casa. Nenhum deles limpa o prato vazio que ele não volta mais pra usar.

E ainda tem a ex-mulher dele. Aquilo ali nunca me desceu. Sempre achei interesseira, colada no dinheiro, no status, no que ele representava aqui dentro. Não demorou nada pra ela aparecer com outro.

O pior é que foi com um amigo dele. O Barata. Amigo de infância, parceiro de rolê. Agora anda de mão dada com ela pela rua. Isso me embrulha o estômago de um jeito que nem sei explicar.

Eu não falo muito sobre isso, mas vejo tudo. Vejo como as pessoas mudam rápido quando o dinheiro muda de mão. Vejo como o luto aqui tem prazo de validade. Passou o enterro, passou o choro, a vida segue, menos pra quem fica.

Por isso eu insisti tanto pra gente se mudar. Falei mil vezes pra minha vó que eu não me via crescendo aqui. Que eu não queria carregar esse rótulo. Que eu queria estudar, trabalhar, andar sem medo de ser confundido. Ela me ouviu. Demorou, mas ouviu.

A mudança foi simples. Pouca coisa. Duas malas, uns móveis velhos e muita coragem. Fomos pro centro do Rio, num lugar mais calmo, rua sem boca, sem moto cortando de madrugada, sem gente armada na esquina. No começo estranha. O silêncio incomoda. Mas depois vira alívio.

Aqui ninguém me chama pelo sobrenome do meu irmão. Ninguém me pergunta se vou "seguir os passos". Aqui eu sou só eu. Um moleque tentando entender a própria dor e construir alguma coisa que não termine em caixão fechado.

Eu ainda sinto falta dele. Sempre vou sentir. Mas sentir falta não significa repetir. Minha história não precisa acabar igual. E se depender de mim e da minha vó, vai acabar diferente.

Sabrina (M) Onde histórias criam vida. Descubra agora