Capítulo 24

109 11 2
                                        

Kiraz caminhava pela varanda como quem tenta lembrar onde o silêncio termina

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Kiraz caminhava pela varanda como quem tenta lembrar onde o silêncio termina. Seus pés descalços riscavam a madeira como uma caneta fraca sobre uma folha molhada, e os olhos, embora vivos, carregavam uma pergunta que ela nunca teve coragem de fazer.

Serkan observava de longe, encostado na moldura da porta. Ele não sabia se devia chamá-la pelo nome ou esperar que o tempo fizesse isso por ele. Ao lado, Eda dobrava lençóis como se cada dobra fosse um dia perdido tentando juntar a família.

Dentro daquela casa, tudo estava limpo — menos os cantos onde a memória se acumulava.

A pulseira de Kiraz escorregou pelo pulso e caiu no chão com um som pequeno, mas o impacto reverberou como trovão no peito de Eda. Era a mesma pulseira que ela colocara no pulso da filha antes de desaparecer. Aquele objeto parecia gritar: "Nem todo retorno é alívio."

Kiraz se abaixou e, ao pegar o acessório, olhou para Serkan pela primeira vez desde que voltara. Um olhar breve. Um olhar que dizia: "Sou sua filha, mas não sou mais aquela." E ele entendeu. Não por palavras — palavras são frágeis. Mas porque há dores que se reconhecem por afinidade.

Eda aproximou-se e tocou o ombro da menina. "Você está com fome?" perguntou, como quem oferece abrigo sem exigir gratidão. Kiraz hesitou, então assentiu. Àquela altura, comer parecia menos ameaçador do que conversar.

Eles entraram juntos. A porta fechou-se atrás deles com o som exato de um novo começo — o tipo que exige coragem de todos os lados.

A noite caiu sem pedir licença. No quarto de Kiraz, o abajur em forma de lua lançava sombras suaves nas paredes, como se tentasse suavizar a verdade que nenhuma criança deveria conhecer.

Ela girava entre os lençóis, sem conseguir dormir. A casa lhe parecia segura, mas a segurança não tinha cheiro. E Kiraz ainda sentia o perfume ácido da tinta vermelha — a mesma usada por Alpitikin para marcar os limites do quarto onde ela havia sido mantida.

Eda, do lado de fora, escutava. Escutar tornou-se hábito desde que a filha voltara. E ouvir o silêncio de Kiraz era mais doloroso do que ouvir seus gritos.

Na sala, Serkan lia a carta que Eda havia escrito anos atrás. Uma palavra se repetia: ADEUS.

Serkan engoliu seco. Preferiu mantê-la dobrada, como se o papel fosse menos verdadeiro se não fosse desdobrado.

Foi então que Sinan chegou. Suas mãos estavam sujas de terra e cansaço. "Encontrei algo," disse ele, colocando sobre a mesa um envelope velho com fotos. Em uma delas, Selin sorria diante de um mural pintado com tinta vermelha.

Eda pegou a foto com mãos trêmulas.
"Ela estava lá..." murmurou.
Serkan se aproximou, reconhecendo na imagem o reflexo distorcido do passado. Selin, a amiga que se tornara sombra. A mulher cuja obsessão por ele havia criado uma ponte entre carinho e crueldade.

REVIVEOnde histórias criam vida. Descubra agora