Perceba

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Ver Rafaella saindo de sua casa deveria fazê-la se sentir melhor, deveria prover o encerramento dolorido que faltou naquele hotel. Porém, a única coisa que gerou foi um vazio infinito em seu peito, pois quem o preenhia já não pertencia mais ali.

O sofrimento de Gizelly era úmido, silencioso e solitário, como ela. As lágrimas que escorriam por seu rosto deixavam rastros marcantes. Os soluços mudos tentavam esconder do mundo ao redor que naquela casa uma mulher estava a beira do abismo, e o que lhe mantia em pé eram seus pensamentos confusos e um tanto raivosos. Não conseguia aceitar que sequer uma das palavras pela loira fora verdadeira, que nem para dar um fim na relação iniciante delas ela tenha se empenhado, arranjando uma justificativa convincente.

Como ela poderia acreditar em uma história tão absurda? Seria mais fácil ter adaptado a história da gata borralheira de uma vez, essa pelo menos seria possível, afinal era mais coerente ratinhos falarem do que Deuses Gregos (e Romanos) existirem no universo, não seria? Até porque, se Cupidos realmente existissem, por qual motivos seria ELA a escolhida para receber seus serviços tão nobres?

- Só pensar que a história estapafúrdia da Rafa possa ser verdade, já é o suficiente pra me internar. ACORDA, GIZELLY! ACORDA! - Com uma raiva impulsiva e urgente, jogou a caixa deixada por Rafaella no chão antes de correr até seu quarto, com a pressa de quem havia deixado o cheiro e a presença oculta de seu amor para trás.

*
24 horas, foi o tempo que dera a Gizelly como "cortesia", pois sabia melhor que ninguém a bagunça que a cabeça de alguém fica ao perceber que se apaixonou por um cupido, ainda mais para uma humana, que acreditava que as histórias eram fictícias. Acreditar na existência de Cupidos já seria demais para Gizelly, imagine aceitar que a mulher por quem você se apaixonou é uma cupido?

Porém, ao final das 24 horas, viu-se na porta da engenheira, aguardando ser respondida. Chegou até a pensar que não seria atendida mas, após alguns toques na campainha, viu olhos castanhos tortuosos espiá-la pela pequena abertura da porta.

- Eu conheço você - Não foi dito com questionamento ou acusação, era apenas um fato falado.

- Sim, conhece.

- Você é a moça do espelho - Era difícil não lembrar daquele rosto, pois carregava um tipo de beleza muito diferente de tudo que já vira. Agora, vendo a dona dele bem a sua frente, sentia-se um pouco acuada com a presença imponente dela. Era muito assertivo, sem nenhum sinal de insegurança, mas também não passava nenhum sinal de hostilidade., apenas impunha respeito.

- Sim, sou - Acreditava que a melhor escolha seria deixar Bicalho desenrolar seus pensamentos sobre sua presença antes de enchê-la de informações que seriam complicadas de assimilar.

- Eu não...entendo. Como você estava lá? - A expressão da engenheira entregava as engrenagens girando em sua mente, em uma tentativa de entender o que se passava - E se estava lá, como está aqui agora?

- Eu estive lá, para acompanhar você, Gizelly.

- Acompanhar por que? E como? Aquele espelho é uma tela? Mas como ele ainda reflete? - Os pensamentos eram tantos que estava difícil da humana raciocinar sem se perder neles. Acreditara fielmente que alucinara aquele rosto angelical em seu espelho (que ainda não sabia de onde havia surgido), e a presença da mulher em sua frente havia a tirado de órbita completamente.

- Vou começar pelo início, ok, Gizelly? - Percebera que, se não começasse a explicar sua presença logo, os pensamentos da humana só iriam confundi-la mais ainda, então não teve escolha senão começar a explicar tudo. Mesmo a parte que lhe doía.

- Até porque se começar do final vou continuar não entendendo nada, não é? - A frustração se somava a incredulidade sobre a situação e aos poucos deixava a humana sem paciência.

- Você sabe quem é Cupido, Gizelly? - Ignorou a irritação da outra e começou a explicar a história de suas vidas

- Claro que sim.

- Ótimo, e a história dele com a mãe, você conhece? - Bicalho tentava puxar informações em sua mente, que não fosse "Ele é filho de Vênus" ou "Ele é um bebê que usa arco e flecha para fazer as pessoas se apaixonarem". No final, optou pela sinceridade.

- Conheço o básico: Ele é filho da Deusa do Amor, Vênus, e tinha como missão fazer pessoas se apaixonarem.

- É um resumo raso da relação deles, mas creio que isso você aprenderá em outro momento. O importante é que você saiba que, até Cupido se apaixonar por sua esposa, ele era proibido pela mãe de ter qualquer sentimento romântico que fosse, independentemente de por quem eles fossem.

- Sim, e ele só se apaixonou por ela porque se espetou com a própria flecha! - A engenheira ria enquanto lembra-se do livro que lera alguns anos antes, no qual a história do casal protagonista era inspirado na do Deus e sua amada.

- ISSO É MENTIRA! - Até então, a visitante havia demonstrado ser paciente e acolhedora, mas ao ouvir a história de seu amado resumida a uma chacota fraca, perdeu brevemente a calma - Cupido se apaixonou por ela NO MOMENTO EM QUE A VIU!

- Mas você mesma disse que ele era proibido de amar, como ele poderia simplesmente se apaixonar assim, por uma mortal ainda por cima - Algum tempo depois, estes questionamentos seriam lembrados como uma pista clara sobre qual era o verdadeiro lugar de Bicalho.

- E desde quando o amor obedece à proibições, menina? NINGUÉM é imune ao amor, nem mesmo os Deuses do amor...

- Deuses? No plural?

- Sim, no plural. Veja bem, o que os mitos, hoje já muito distorcidos, contam, é apenas uma fração da realidade. Quando Vênus viu seu filho tomado pelo amor de uma maneira tão avassaladora, que sobrevivia até mesmo a fúria de uma Deusa como ela, amou o amor mais uma vez - A linha de raciocínio da morena misteriosa estava começando a ficar confusa, mas Gizelly prestava a máxima atenção - Imagine ser a personificação de um sentimento tão potente que nem a proibição divina era capaz de bani-lo do peito de quem era tomado por ele. Você também não iria querer espalhar essa sensação para o máximo de pessoas possível? Você não desejaria que todos experimentassem essa chama turbulenta na calmaria de sua alma, Gizelly?

Bicalho sentia um calor carinhoso no peito ao ouvir aquelas palavras, pois era como se, pela primeira vez, pensasse no amor como algo acima de qualquer coisa, como se finalmente percebesse que nunca o sentira de verdade, pois um sentimento assim não traria tanta dor para quem o carregasse. Mas nunca sentira mesmo? Ou era só sua mente tentando apagar uma certa loira de sua mente?

- Eu ainda não entendi o que isso tudo tem a ver com a Rafaella - Em uma tentativa de redirecionar o assunto, de afastá-lo de tópicos que a forçariam a encarar uma verdade absurda e boa demais para ser verdade.

- Sabe, essa mentira até enganaria os outros, mas não engana alguém que passou pelo mesmo que você, querida.

- O mesmo que eu? Quem é você para dizer como me sinto? Quem é você que me persegue pelos espelhos, até se materializar na minha sala? QUEM É VOCÊ?? - Era aceitável que uma humana se exaltasse ao se deparar com a verdade divina, e era ainda mais aceitável que uma que havia sido envolvida nessa realidade através de uma situação tão atípica o fizera.

- Eu sou você, Gizelly. EU sou VOCÊ sem estudo, sem tecnologia, sem energia elétrica e sem água encanada. EU sou VOCÊ com vida, com bênçãos e uma família. EU sou VOCÊ com o amor ao lado. EU SOU PSIQUÊ!

***

Então..... voltei?

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⏰ Última atualização: May 09 ⏰

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