Acordei assustada com o toque do meu celular. Ajoelhei-me para olhar o nome na chamada. Minha mãe, sempre a minha querida e preocupada mãe. Mas no mesmo instante uma dor latejante atinge a minha cabeça e eu decido retornar a ligação mais tarde, voltando a me jogar na cama. Nossa, que cama desconfortável. Encarei o teto com uma cara de dor e tentando imaginar o que diabos aconteceu ontem.
As imagens me atingiram como a dor de cabeça havia atingido. Primeiro da fogueira gigante, formando cores entre o amarelo, vermelho e laranja, tão bonito e tão pouco apreciada. Logo em seguida surgiu a imagem de Gustavo, Leticia e Douglas e eu ri. Calma, eu ri? Sim, foi isso mesmo. Agora lembrei da vodka, do suco, dos abraços, da maconha... Calma, eu fumei? Oh meu Deus, fumei sim. Mas foi apenas uma vez, lembro-me que engasguei também.
De repente todos as minhas memórias sumiram e eu conseguia visualizar apenas um rosto na minha cabeça. Gabriel. Maldição. Levantei minha coberta e me dei conta pela primeira vez que eu estava sem roupa. Os flashes surgiram de uma vez agora. Pequenas cenas embaralhadas, um beijo, minha blusa jogada ao meu lado, uma dança, seu sorriso, suas palavras, seu calor junto ao meu. Droga, droga, droga.
Coloquei as mãos na cabeça, sentindo-me nauseada e derrotada. E não conseguia acreditar nisso, mas era a pura realidade, era a noite de ontem sem muitos detalhes, contada pelas minhas poucas lembranças. E o beijei e fui para a cama com ele, sem hesitar. Era isso, eu não poderia voltar atrás
Quando a gente terminou eu prometi que não iria procura-lo mais, que não iria deixar a dor do término me vencer, prometi que eu ficaria mais focada no meu blog e que andaria pelas ruas com a cabeça erguida. Nada de filmes de romance e chocolate, isso seria um rebaixamento absurdo. A minha vida toda eu lutei contra o preconceito, contra as piadinhas de mal gosto, quando a sociedade... Eu não poderia me deixar abater por um homem, seria muita demonstração de fraqueza da minha parte.
E agora, olha a merda que aconteceu. Que raiva, que raiva, que raiva. Ele se aproveitou que eu estava bêbada. Pelo menos ele prometera conversar comigo. Droga, ele também estava bêbado, nem deve se lembrar disso, mas eu precisava procura-lo mesmo assim, o que aconteceu não poderia ser ignorado. Se ele acha que era apenas se aproveitar da minha fragilidade e acabou, estava muito enganado.
Vesti um vestido curto qualquer, peguei minhas coisas e corri para o banheiro para tomar um banho e me livrar do cheiro dele, misturado ao cheiro do meu suor e de vodka. Entrei no banheiro público feminino e tomei uma longa e poderosa ducha. Vesti uma saia rodada rosa claro e uma blusa branca de seda, algo bem leve para enfrentar o calor. Encarei a minha imagem no espelho e soltei um pesado suspiro, era sempre um desanimo desembaraçar esse cabelo, mas mesmo assim eu gostava muito dele. Meu cabelo é bem crespo, descendente de africano mesmo, por isso eu nunca o deixava crescer abaixo do ombro, para não dar tanto trabalho. Eu sempre o jogava para trás e colocava uma faixa de pano até o meio da cabeça, para afastar todos os cachos do meu rosto, já era uma marca minha, eu tinha dezenas de faixas no meu guarda roupa. Passei um perfume e sai pronta para enfrentar o que o dia tivesse a me oferecer.
Ao sair do banheiro, deparei-me com Leonardo, o melhor amigo da faculdade de Gabriel.
- Leonardo- gritei, correndo em direção a ele.
- Oi Olívia- ele disse, parecendo surpreso ao me ver- André está lá dentro almoçando.
Ele apontou para o prédio, fazendo menção de se virar e seguir o caminho dele.
- Espera!- pedi- Não estou procurando por ele. Quero saber onde Gabriel está.
- Hmmm
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Negra
Historical FictionOlívia Ambrose Barros é uma estudante de Arquitetura que enfrenta com garra o dia a dia como qualquer outra garota de vinte e dois anos. Mas no dia 20 de Julho o inesperado acontece: ela volta no tempo e para no ano de 1871. E o maior problema nem f...
