Capítulo 13: A necessidade de um adeus

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A semana passou quase em câmera lenta. O ar pesado do enterro permaneceu durante alguns dias, dias em que nenhum sorriso conseguia aparecer nos meus lábios. A rotina era árdua, nem ao menos Amélia, com suas constantes e incansáveis tentativas de me animar foi suficiente para me alegrar. Para completar, era a semana da fuga e eu não sabia se estava preparada. Encontrei Diego repetidas vezes para conversarmos sobre o plano ou acrescentar alguns detalhes de extrema importância. E hoje, era o grande dia, sábado.

Eu estava deitada na palha, sem conseguir dormir, aguardando a hora marcada. Os sinos da capela tocariam duas horas da manhã e eu precisava ficar bem atenta, já que a capela ficava muito distante e o barulho era praticamente inaudível.

Mas eu os escutei, é claro que escutaria. Levantei-me devagar, peguei minha sacola que continha um vestido muito parecido com o que eu estava usando e algumas frutas, como mangas e bananas. Cautelosamente, desviei dos corpos das mulheres estiradas no chão e caminhei até a saída. O primeiro cuidado a ser tomado seria não ser pega pelo feitor, que vigiava a senzala todas as noites. Seria muito azar não conseguir nem chegar ao rio, o que eu mais precisava no momento era de sorte, de muita sorte.

Prendi meu cabelo, já comprido, em um coque no topo da cabeça. Esses cachos rebeldes adoram me atrapalhar nos momentos mais inoportunos. Olhei pela fresta da porta. Nada de feitor.

Sai furtivamente, olhando para todos os lados e andei devagar até o fundo da senzala, passando pela porta da ala masculina. Agora, eu deveria caminhar reto até encontrar o rio, bem devagar, como Diego ordenara. Lá, nos encontraríamos.

Caminhei sempre me escondendo atrás das árvores. Seria mais fácil quando eu alcançasse a floresta mais densa. Depois da terceira árvore, avistei um vulto movimentando-se na penumbra da noite. Prendi instantaneamente a respiração, tentando me camuflar com os troncos. O vulto aproximara-se, tornando-se finalmente reconhecível, era o feitor. Reconheci sua barba rala e sua maneira de andar desengonçada. Ele possuía uma estatura bem pequena, mas conseguia ser extremamente assustador.

Por favor, vá embora. Eu estava tão nervosa que meu corpo tremia mesmo não estando frio. Felizmente, ele estava apenas fazendo sua ronda diária, pois afastou-se em poucos instantes. Esperei antes de voltar a andar em direção ao rio.

Assim que ouvi o barulho da água sendo levada pela correnteza, não consegui segurar a adrenalina que subia pelo meu corpo e corri para encontrar Diego. Eu estava apavorada andando sozinha pela mata. Agachei-me com brutalidade na margem e bebi a água doce e límpida, jogando-a no meu rosto e braços. Em seguida olhei ao redor, mas não havia ninguém e aquele era o local marcado, perto do monjolo. Sentei-me escondida entre duas moitas, aguardando.

Meus pensamentos repentinamente deixaram aquela paisagem. Um rosto com traços fortes, com a barba rala e belíssimos olhos azuis projetou-se sem permissão na minha cabeça. Para o meu azar, aquilo não acontecera somente essa vez nessa semana. Mas como todas as outras vezes, vieram também as grosserias, veio a irmã de Álvaro, seus apelidos, suas críticas... Ele era melhor que isso, eu acreditava que era. Mas agora pouco me importava, eu nunca mais veria aquele homem, nunca mais veria Amélia e nunca mais veria Dante. Senti uma pontada no coração ao lembrar-me de Dante, já que ele sempre fizera tudo por mim e foi a pessoa que mais me ajudou a enfrentar aquela rotina completamente diferente de tudo o que eu já presenciara. É muito difícil dizer adeus, mas é ainda mais difícil ficar afastada daqueles que conviveram comigo e que me fizeram o que eu sou hoje.

De repente uma mão suada tocou meu ombro esquerdo e eu pulei assustada.

– Olívia– Sussurrou Diego– Faça silêncio.

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