2010, Fevereiro - Quarta

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Peleiro

Cristovão foi contrariado, mas levou Bia em uma tenda menor, onde o peleiro estava fazendo sua "arte", transformando pele humana em objetos.

Logo que entrou, viu que ele tinha dois ajudantes, ambos esticavam as peles retiradas e as preparavam, o Peleiro se dedicava a transformar um pedaço de pele com tatuagem de Fenix em uma carteira.

_ Está na moda agora, as partes tatuadas, faz um enorme sucesso.

_ Imagino.

Beatriz olhou para trás, esticada perto da mesa estava uma grande parte de pele, com uma tatuagem tribal. Ela reconheceu a tatuagem, estava no coquix de uma das gemeas levadas pouco depois dela, era quase a unica coisa que as diferenciava.

_ Bonito desenho não é ? Vai ficar um porta documentos lindo. O resto vira um arreio, talvez até parte vá num estribo.

_ Não vim aqui apreciar sua arte.

_ Devia, não quer que eu faça algo pra você ? Eu vou dar de presente.

_ Se quizer me dar mesmo um presente, existe um eu gostaria bem mais.

_ E o que seria minha Senhora ?

_ Um garoto que está com o homem do saco.

_ Eu não posso fazer isso.

_ Porque ?

Beatriz puxou um banco e sentou-se de frente a ele, sem se importar com as peles, sobre a mesa ou o cheiro de sangue no local.

_ Eu nunca trairia ele, ele é meu mentor.

_ Não pedi uma traição. Pedi um presente. Você sabe quem eu sou, qual o meu poder?

_ Me desculpe Senhora, eu sou bem informado pelos meus amigos. Sei que a senhora pode ter muito poder... Algum dia. Mas hoje, quem tem poder é o homem do saco, ele é meu amigo, ele me descobriu.

_ Descobriu ?

_ Eu vim do Chile pro Brasil tem uns anos, fabricava bolsas lá no sul. Só que não resisti ao cheiro da filha do meu patrão, ela passava para lá e para cá no nosso meio, tão nova, pele tão macia... Uma alma de outro mundo, doce, meiga...

_ Você tirou a pele dela?

_ Só tirei a pele das costas, Queria fazer uma bolsa, eu fiz a bolsa e fugi. Nem toquei nela senhora! Eu já fiz muita maldade com as mulheres que tirei a pele, mas com ela não, foi só uma bolsa... Mas tive de fugir, virei um paria, morava na rua, andava com medo...

_ Encontrou o Homem do Saco na rua.

_ Encontrei ! Ele me colocou no caminho, disse que eu tinha de seguir meus desejos, de não ter medo de assumir quem eu sou, do que gostava, e eu assumi.

_ Ele te arranjou esse lugar aqui.

_ Não ! Aqui é só trabalho. Eu gosto mesmo é de tirar a pele com calma, parte a parte, preparar a peça e mostrar a pessoa o que a pele dela se tornou, transformar a pessoa pedaço por pedaço... Aqui é serviço, tudo tem de ficar pronto rápido, eu hoje tirei a pele de doze pessoas, tenho quarenta encomendas pra terminar, preciso de ajudantes, lá em casa eu trabalho só uma pessoa de cada vez, uma só, mesmo quando pego duas ou três, trabalho com uma só, tem uma comigo a quinze dias e vai viver pelo menos mais um mês. Já fiz uma bolsa, uma carteira, e até um chicote. Quando voltar, vou tirar delicamente a pele dos seus seios, vou fazer deles um cantil. Ela vai beber agua dele ainda. A gente faz amor assim, amor puro, a pessoa nua, sem nenhuma pele...

Beatriz o encarava, sabia que ele a estava intimidando.

_ Não tem nada que eu faça que possa fazer pra você me ajudar a convencer o seu amigo ?

_ Eu posso dar pra ele luvas, ele gosta dos meus presentes. Mas tem que ser um presente meu e seu, garanto que ele entrega o garoto.

_ Meu ?

_ Me deixe tirar a pele de suas costas, eu faço luvas, você não vai morrer, não se eu fizer com calma, retirar a pele bem devagar... Eu garanto que será inesquecível pra nos dois. Só vou tirar a pele, não faço mais nada, juro.

Beatriz se levanta, vira para ele e fala :

_ Um dia você vai querer ter me ajudado.

_ Talvez esse dia chegue, quem sabe do futuro senhora ? Eu não sei. Sou um homem simples. Mas uma coisa eu sei, eu acredito bem mais no Homem do Saco e no amigo dele, o Sr.Cordial, que em toda a Ordem da senhora.

Beatriz foi embora, não adiantava, ele não ia ceder, o melhor era tentar um acordo com o Cordial, ele pelo menos parecia alguém razoável. Cristovão a esperava do lado de fora, em meia hora estava helicóptero, mal cumprimentou Peter e foi dormindo quase a viajem inteira, só acordou quando pousaram no Santos Dumont, um aeroporto bem no centro da cidade. Estava muito cansada, sabia que seria bom conversar com Peter mas não conseguiu. Já no centro do Rio, Beatriz pegou um taxi e saltou bem próximo a Manon.

A Ordem NegraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora