Capítulo 25 (Parte 2)

2.3K 254 49
                                        

Continuando...

***


Mais tarde naquela mesma manhã, Melina me ligou para almoçar com ela. Eu não queria, não estava de bom humor depois de ser demitido, fora é claro, tudo que vem acontecendo nas últimas semanas.

Mas ela insistiu, com muitos argumentos que eu não quis refutar. Durante o caminho, fiquei pensando sobre como eu conseguiria encarar a garota que foi abusada pelo meu pai, e fingir que ele continua morto como ela acha. Sinto um nó no estomago, e uma vontade enorme de girar os calcanhares e descer do ônibus. Sumir da vida daquela garota que só me fez bem desde que eu a conheci. Sumir da vida da minha família a quem eu só causo perigo, mesmo que eles não façam ideia. Na verdade, eu deveria morrer, que contribuição eu estou fazendo para o mundo com minha existência fracassada? Pensado bem, eu não deveria ter nascido, os genes daquele psicopata nunca deveriam ter sido passados a diante...

O ônibus coletivo para próximo ao restaurante que eu marquei de encontrá-la, e eu tento passar pelo monte de gente que tenta descer do ônibus ao mesmo tempo. Paro em frente ao restaurante e não consigo entrar. Não é um lugar desses de grã-finos, é meio simples até, considerando a condição financeira da Melie, mas ela é assim, ela é simples, boa, por mais que tente se mostrar ao contrário com aquelas roupas em preto e branco. Ela irradia cor.

Entro no restaurante, e a observo sem que ela me note. Eu adoro esse uniforme da empresa, pelo menos a obriga a usar vermelho, e ela fica linda assim. Eu tô parecendo um idiota apaixonado não é? Mas não, não é assim que eu me sinto. Eu só a admiro.

Imagino tudo que ela passou e ainda conseguir ser do jeito que é. Foi mais do que eu estou passando agora, e ainda assim, ela achou um jeito de sobreviver. Será que eu vou ser como ela um dia? Será que vou conseguir encarar as pessoas de frente, me achar mais do que apenas um ladrão, filho de um monstro assassino? Duvido muito, eu não sou como ela, e talvez nunca seja. Vejo-a erguer o pescoço e procurar alguém, provavelmente me procurar e chamar o garçom, o que obviamente me dá a dica de que ela não me viu. Talvez seja melhor ir embora, ela está melhor sem um ladrão mentiroso e provavelmente futuro psicopata na sua vida. Mas não consigo, me vejo caminhando em direção a sua mesa, por que no fim, eu quero estar com ela, na esperança de quem sabe assim, aprender como sobreviver depois de uma situação traumática.

Mas obviamente o almoço não vai tão bem.

Primeiro eu a ofendo, depois eu acabo chorando em seus braços. Vou de um estremo a outro. Da indignação à ao desespero. Por que é como tenho me sentido ultimamente.

Sou uma gangorra, oscilando entre muitos sentimentos conflitantes, sem nunca parar em um só.

Onde é que eu vou parar assim?

***

Estou tremendo, meu coração está espancando meu peito e eu não sei como agir. Passou duas semanas sem que ele aparecesse para pedir dinheiro, e eu fico pensando como ele está se virando. Lógico que ele não vai descansar e se contentar com dez mil reais não é? Olhei para a tela do celular, um pirata que eu tinha no fundo da gaveta e fui obrigado a usar, já que vendi o meu para dar dinheiro ao Denis, e olhei às horas (Vendi meu relógio também). Ainda era quatro horas da manhã. Eu não estava aguentando ficar parado. Tomei uma ducha fria, que durou mais de meia hora, meu corpo estava tão elétrico, por conta da minha ansiedade que mal senti frio.

Vesti calças de moletom e camiseta, calcei um tênis e pus fones de ouvidos. Ainda estava escuro lá fora, mas eu precisava correr. Meu padrasto já tinha acordado e estava tomando café na cozinha, não era nem cinco da manhã, mas ele precisava acordar a essa hora nos sábados. A obra em que ele trabalhava era do outro lado da cidade, e ele deveria estar lá às sete. Passei por ele sem falar e fui em direção a porta, mas ele não me deixou escapar tão fácil.

Agora & SempreOnde histórias criam vida. Descubra agora