"Eu matei seus pais Ella e eu sinto muito por isso."
Essa frase se repetia na minha cabeça e eu só sabia ouvi-la e ouvi-la. Mais e mais. Eu não tinha um botão de desligar os pensamentos e eu não queria fazer isso, mas tinha horas que minha mente pensava tanto que eu tinha vontade de cortar minha cabeça.
Suspiro novamente. Essa deve ter sido a décima vez que eu fiz isso na noite. Olho para o urso que Gwen me entregou na noite em que eu fui embora. Ele tem sido meu companheiro na última noite. O sono não chega e os olhos não querem fechar. Eles querem ficar abertos, pensando e pensando. Eu já não aguentava mais. Porque nós temos mente mesmo? Porque a gente pensa? Isso deveria ser proibido. Deveríamos ser iguais a um computador. Quando mais quente ficássemos, mais probabilidade de desligar teríamos. Mas, infelizmente, não era desse jeito.
As palavras de Martin se repetiam na minha cabeça. Ele matou meus pais. Ele matou os meus pais. Ele matou os meus pais. De alguma forma, uma voz me avisou que entrar na onda de Martin era furada e eu acabaria saindo muito machucada, mas eu estava pensando em nível amoroso e não em nível familiar e catastrófico desse jeito. Todas as suas palavras viam e iam na minha mente. Às vezes, eram cheias de escárnio, e às vezes eram amorosas e cheias de carinho. Eu não sabia dizer se minha mente tinha criado essas vozes ou se ele havia falado, pois eu pensei muito e eu repeti as frases tanto na minha cabeça que eu não saberia diferenciar a fantasia do que é real.
Eu só sabia de uma coisa. Eu só me perguntava uma coisa: eu perdoaria Martin do que ele fez algum dia? Eu o olharia com o mesmo desejo e eu teria a mesma atração? Depois de ouvir que ele matou meus pais, eu iria olhá-lo do mesmo jeito?
Eu duvido que algum dia eu consiga.
Minha mente só sabia reprimir meus sentimentos e falar que tudo o que ele havia feito era errado. Mas uma outra parte da minha mente falava que quando Alastor disse que era melhor que meus pais estivessem mortos do que torturados e foi uma pessoa da STO que deu essa libertação a eles, eu concordei. Mas agora, vendo dessa forma os fatos, eu sabia que Martin tinha matado muitas pessoas e sabia que ele não se arrependia fácil, mas porra, ele tinha apenas 14 anos! Ele fez o que mandaram ele fazer. E eu odeio essa pessoa, porque ela agiu em função de uma criança. Ela agiu colocando uma criança na frente para resolver os problemas. Não foi ela que fez isso, mas sim uma criança. Não foi Martin que fez, mas sim uma criança com o desejo de vingança da morte da sua mãe. Com o desejo de ser reconhecido por alguém. Com desejo de até poder ter alguém em que ele confiasse e pudesse chamar de pai.
Eu já tive esse sentimento. Eu já confiei em muitas pessoas buscando ver nelas a mãe e o pai que eu nunca tive, mas eu sempre fracassei nesse sentido. Eu sempre vi, no final, que eu não podia confiar em ninguém que fosse eu mesma, ou até mesmo minhas amigas. Eu comecei a amizade com Bárbara, Jade e Marian achando que eu não as veria mais depois de um ano ou dois. Mas elas não, elas continuaram comigo e estão comigo até hoje. É por isso que eu tenho tanto medo de perdê-las. Elas são tudo pra mim e são pessoas que eu realmente posso confiar. Elas são minha família e eu sou a família delas, apesar de cada uma ter um pai ou uma mãe, ou ainda, os dois.
Vendo as coisas dessa forma, eu não culpava Martin pelo que ele fez, eu não poderia. Porque apesar de ele ter uma parcela de culpa por ter apontado a arma e atirado nos meus pais, ele era apenas uma criança. Não se pode julgá-lo por isso, mas ele claramente carrega toda essa culpa sozinho. Eu não posso deixar que ele faça isso, porque ele está sendo injusto com ele próprio.
Talvez eu estivesse apenas arrumando uma desculpa para voltar a vê-lo, porque eu estava viciada nele, mas no fundo, eu sabia que a verdade era que eu o desculpava. A verdade era que, eu confiaria nele se ele me pedisse, porque a dor que eu vi em seus olhos no instante em que ele falou que tinha matado meus pais, foi a mesma dor que eu estava sentindo. Ele sentia aquilo tanto quanto eu.
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Atrás do Perigo
RomantizmElla está cercada. Alguém está atrás dela e de suas amigas e ela precisa correr. Ela não sabe de absolutamente nada e só o passado conturbado de um homem misterioso pode lhe dar algumas respostas. Um tiro e uma fuga. "Que merda está acontecendo?" va...
