Uma espiã atrapalhada

86 17 12
                                        

Os sons do irritante relógio ecoavam por toda casa.

Lilian encarou seu estúpido, empoeirado e desarrumado quarto. Não conseguia admitir seus sentimentos por Eric. Sim, era verdade que ele havia se tornado essencial no seu dia a dia, mas aquilo não era amor. Ele era apenas um amigo do qual Lilian não podia abrir mão.

Entediada, Lilian começou a se arrumar para sair um pouco. Pensava em fazer uma visita aos gêmeos.

Assim que pôs os pés para fora sentiu o imenso calor do sol a atingir. Seria um dia difícil.

Lilian voltou para dentro para buscar um boné, não suportava quando o sol estava forte demais.

As cores estavam mais vívidas do que o habitual. Os pássaros cantavam em um coro entusiasmado. As flores, pobrezinhas, estavam tristonhas e murchinhas, gostavam bem mais dos dias de chuva.

Depois de alguns minutos de caminhada, a jovem se deparou com a belíssima casa de Eric. Um sorriso travesso começou a brotar em seu rosto. Não era um dia perdido afinal.

Lilian pulou o muro de Eric com destreza, tomou cuidado para não ser vista no processo.

Havia uma gigantesca árvore no quintal de Eric, ela seria perfeita.

Fazia muito tempo que Lilian não escalava uma árvore, então fazê-lo fora demasiado difícil, mesmo assim, após alguns minutos, a jovem conseguiu subir no galho mais alto daquela árvore do tamanho de uma casa de dois andares, e como a árvore tinha uma imensidão de folhas a disposição ela não seria vista por alguém que estivesse dentro da casa. Procurou com os olhos em cada janela por Eric e achou-o na sala. Tinha um livro em sua mão e um caderno na outra. Ora lia, ora anotava. Provavelmente um livro de receitas.

Apesar do garoto ter ficado assim pelo que pareceu uma eternidade, Lilian não sentiu qualquer tédio, pelo contrário, se divertia muito o observando.

- Ei, tia! - uma vozinha fina chamou-a. - O que está fazendo?

Lilian se deparou com Luíz, ele a encarava com curiosidade. O pobre garoto estava apenas de passagem e se deparou com essa cena.

- Shhhh! Você vai me entregar! - cochichou alto o suficiente para ele ouvir e tomando cuidado para não ser descoberta.

- Você é xereta a esse ponto? - perguntou meio desapontado.

- Sou! - respondeu sem um pingo de remorso. - Agora sai!

Luíz a obedeceu para o alívio de Lilian, seria um problema se o garoto a entregasse.

Quando ela voltou a espiona-lo, Eric não estava mais na sala. A garota procurou-o com os olhos, mas não o encontrou em canto algum da casa.

"Onde ele se enfiou?" perguntou-se em pensamentos.

- Você é assustadora... - disse-lhe uma voz suave que Lilian conhecia bem.

Eric a encarava de uma janela antes escondida pelas folhas da árvore, ele não parecia estar bravo, mas também não parecia feliz.

- Quando você notou que eu estava aqui? - perguntou um pouco constrangida.

- Quando você começou a escalar minha árvore - respondeu indiferente.

- Tão rápido assim? - indagou surpresa. - Então carreira de espiã está fora de cogitação?

- Entre! - ordenou autoritário.

Lilian comemorou mentalmente, pensou que ia ser expulsa, não convidada a entrar.

Ela se equilibrou e devagar escalou até o galho mais próximo da janela, do qual pulou aos tropeços.

Lilian olhou para Eric, ainda pensando que era impossível gostar desse tipo de garoto.

Se deparou com um escritório cheio de estantes com livros empoeirados e uma escrivaninha bagunçada. O chão estava cheio de livros, papéis amassados e embalagens vazias de comida instantânea. Aquele lugar era um chiqueiro se comparado com o restante da casa.

- Esse é...? - perguntou com a curiosidade a flor da pele.

- O escritório do meu pai - respondeu indiferente.

Eric parecia com pressa, mas Lilian ainda não tinha terminado de xeretar.

Tal como qualquer cômodo da casa aquele também não tinha quadros, fotos ou enfeites, apenas paredes impecavelmente brancas e um chão perfeitamente polido.

Apesar de ter descoberto mais um pedaço daquela casa, Lilian não estava satisfeita:

- Posso xeretar os outros quartos? - implorou como se sua vida dependesse disto.

Eric pensou por alguns segundos, então suspirou:

- Só não toque em nada.

***

Mais um capítulo aí.

Peço desculpas pela demora, eu enfrentei uns probleminhas.

Obrigado a todos, nossa história tem crescido bastante e é tudo graças a vocês que vem me acompanhando.

Espero que gostem do capítulo. Não se esqueçam da estrelinha e do comentário.

Bjs <3

O oposto do inversoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora