Sonhos

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— Me fale sobre sua infância.

A pergunta veio como um sussurro carregado de peso. A Dra. Eve ajeitou-se na poltrona, cruzou as pernas com precisão estudada e abriu sua caderneta de capa dura. O relógio marcava 15h47. O som dos ponteiros parecia mais alto do que o normal. Quase como um aviso.

Minhas mãos estavam encharcadas de suor. Fazia calor, mas não era só o clima. Era o corpo respondendo à mente — o medo, a confusão, o velho hábito de esconder o que gritava dentro de mim.

— O que isso tem a ver com meus surtos? — perguntei, como quem tenta abrir uma porta pela maçaneta errada.

Ela não respondeu. Apenas inclinou a cabeça levemente, como quem diz "siga". A neutralidade da expressão dela me incomodava. Como se não houvesse espaço para emoção. Como se minha dor fosse apenas uma variável em sua estatística clínica.

Atrás dela, na prateleira, a maldita coruja de olhos graúdos me encarava. Ela sempre me encarava. Eu já tinha sonhado com aquela coruja — só que no sonho, os olhos dela sangravam.

— Você está bem, querida? — perguntou a Dra. Eve, com um sorriso que não alcançava os olhos.

— Claro que não estou bem... — minha voz falhou por um instante. — Se eu contar sobre minha infância... isso vai mesmo ajudar?

Ela assentiu com calma. E foi ali que algo em mim cedeu.

Minha mente abriu as comportas. Primeiro vieram os flashes. Depois, a dor.

— Tenho uma lembrança... ela não está completa. Como se tivesse sido arrancada de mim. Mas eu sinto — tenho certeza — que algo foi escondido. Minha família finge que nada aconteceu. Mas eu sonho com isso. E não sei mais o que é sonho e o que é real.

Eu evitei o olhar dela. Preferia focar no som do papel sendo riscado por sua caneta. Ela escrevia com força. Como se quisesse prender cada palavra antes que escapasse.

— Que tipo de sonhos? — perguntou, com a mesma voz fria de sempre.

Engoli em seco. Quis mentir. Mas mentir não adiantava mais. As vozes não deixavam.

— Eu tenho surtos... Não são só desmaios. É como se eu saísse do meu corpo. Como se eu me tornasse outra pessoa. E antes disso... eu escuto coisas. Vozes. Sussurros. Às vezes risos. Às vezes gritos. E nem sempre sei se vêm de fora... ou de dentro da minha cabeça.

Minhas mãos tremiam. Continuei, como se desabafar fosse a única forma de continuar viva.

— Tudo começa igual. Eu sou pequena, talvez cinco anos. Estou em um cemitério. Seguro uma flor — uma rosa, acho. Caminho até um túmulo. Deixo a flor. Não consigo ler o nome todo, mas uma palavra se destaca como se brilhasse: Christopher.

Ao pronunciar o nome, senti um arrepio subir pela espinha. O ar ao meu redor pareceu pesar.

— Eu chorava. Estava sozinha. E então... as sombras. No meio das árvores. Elas se mexiam. Cochichavam entre si. E quando eu repetia "Christopher"... elas sumiam. Surgia uma silhueta alta, vindo em minha direção. Sempre o mesmo vulto. Nunca consigo ver o rosto. E toda vez, acordo com a sensação de que algo me observa. Algo... antigo.

Meus dedos se enterraram no tecido do sofá. Minha respiração estava descompassada.

— Às vezes, as vozes voltam quando estou acordada. Elas dizem que estou lembrando errado. Dizem que minha mente criou mentiras para me proteger. Mas e se não for mentira? E se tudo isso realmente aconteceu?

A Dra. Eve fechou a caderneta com um leve estalo. Levantou-se com calma.

— Calma, querida. Quer um copo d'água?

Assenti, quase sem voz. A garganta seca queimava.

Ela trouxe a água, colocou em minhas mãos. O líquido estava frio. Mas não o suficiente para acalmar o incêndio dentro de mim.

— Acho que por hoje é o suficiente — disse ela, forçando um sorriso. — Avançamos muito. Estamos chegando perto da raiz do problema. Vá para casa. Tente descansar.

Ela estendeu a mão. Eu hesitei antes de segurar. Sua pele era áspera, estranhamente rígida. Como se ela tivesse vivido outra vida que não me foi contada. Ou talvez... eu estivesse apenas projetando.

— Espero que tudo se resolva — murmurei, soltando sua mão. — Adeus, Dra. Eve.

Ao sair do consultório, a última coisa que ouvi foi o tilintar do relógio da parede. Marcava 15h59. Mas o som parecia um riso distante.

Ou talvez fosse só mais uma voz.

Venha Até Mim (Concluído)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora