Capítulo 53

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Heitor Muniz

Aquele dia foi o pior da minha vida: o dia do divórcio. Ver Lia chegando acompanhada do amante, e eu não poder fazer nada, foi o mesmo que enfiar uma faca no meu peito. Ela estava tensa, eu podia sentir, e ele, possessivo segurando a cintura dela. Senti uma raiva naquele momento, que por pouco não coloco tudo a perder. Lia era mesmo muito petulante em me deixar.

Ela estava mais linda que nunca. Estava leve, parecia feliz, como eu a vi quando menina. Não me lembro de vê-la assim tão leve nos anos em que estivemos juntos. É difícil para mim admitir, mas ela não havia sido feliz ao meu lado. Mas não me importo com isso. Lia foi ingrata comigo, eu salvei seu pai de perder tudo e ela sequer se preocupou em agradecer. Me enganou e me humilhou quando fugiu. Preferiu se prostituir a ficar ao meu lado! E agora, tudo o que eu sentia por ela era desprezo e uma vontade enorme de me vingar, de fazê-la pagar por toda a humilhação que me fez passar.

Já haviam se passado alguns meses depois da assinatura do divórcio, mas aquela angústia, aquela raiva e ressentimento não abrandavam em meu peito. Pelo contrário, pareciam aumentar toda vez que eu pensava em como ia me vingar dela. Eu já estava com uma namorada nova, mas só para que as pessoas não pensassem que eu fiquei para trás. Ela era muito bonita e famosa na cidade. Era modelo e viu em mim, uma escada para seus anseios profissionais. Eu não era burro. É claro que havia muito sexo, ela me usava e eu fazia o mesmo com ela. Era uma mulher gostosa e me distraía em alguns momentos, mas não o suficiente para me fazer esquecer da mágoa que Lia havia deixado dentro de mim. Vivemos vários anos juntos e ela quis se livrar de mim como um cão sarnento.

Durante todo aquele tempo depois que assinei o maldito divórcio, fiquei imaginando o que poderia fazer para que ela se arrependesse de tudo o que tinha me feito passar. Lia estava morando com o jogador em Milão e viviam rodeados de seguranças e de repórteres, e já anunciavam o casamento. Vi os dois em uma festa dando uma entrevista num desses sites de fofocas. O moleque dizia feliz que se casariam em breve, numa cerimônia íntima só para os amigos e a família. Estavam só esperando os jogos de um campeonato qualquer que o time dele estava disputando. Já fazia muito tempo que tinha passado a odiar futebol, por isso não acompanhava nada. Eles estavam felizes e eu não. O sentimento de humilhação por ela ter me deixado era muito forte dentro de mim. Poucas pessoas na verdade, é que sabiam que ela havia fugido. A maioria das pessoas da cidade, acreditavam que havia sido um divórcio amigável, mas eu sabia que não. Ela quis me deixar, não me queria. Recordei das muitas vezes que eu a tocava e a via incomodada. Na cama, eu não dava espaço para que reclamasse de nada. Eu a pegava de jeito e ponto final. Não ficava esperando para saber o que achou, se foi bom ou ruim, mas no fundo, eu sentia que estava longe. No início, eu achei que fosse passar. Mas não passou. Ela foi ficando cada vez mais rebelde, me desafiando, até que pediu o divórcio pela primeira vez. Achei engraçado, não considerei suas palavras e seguimos nossa vida. Se eu imaginasse que havia a possibilidade de Lia fugir, eu teria feito alguma coisa naquela época. Não permitiria, sequer que pensasse nisso. Teria sido mais firme, não sei. Se soubesse que um dia, ela e o jogador poderiam se encontrar novamente, eu teria dado um fim nele.

Pensava todos os dias, em possibilidades de me vingar. Eu já não me preocupava mais tanto com os negócios, só pensava em Lia feliz nos braços de outro homem, rindo pelas minhas costas. Deviam pensar que tinham conseguido enrolar o babaca do marido, mas isso não ia ficar assim. Eu ouvia comentários na cidade sobre o amor deles dois, que havia sobrevivido ao tempo, e isso me deixava com mais raiva ainda. Esse sentimento aliado a frustração estavam me enlouquecendo. Não conseguia me concentrar nos negócios, na política e em mulheres. Jeremias, meu homem de confiança, continuava ao meu lado e eu sabia, que se preocupava comigo. Tentava me poupar dos assuntos da fazenda e do escritório, o máximo que era possível, mas eu só conseguia pensar em Lia feliz, rindo nas minhas costas.

Não era para ser assimOnde histórias criam vida. Descubra agora