- Você parece distante. – Um cara chegou se sentando ao meu lado e ofereceu seu coco. – Aceita?
- Não aceito bebida de estranhos. – Disse sem o olhar e ele riu abertamente, que abusado. – Não tem motivos para estar rindo.
- Você é uma Power Girl. Gostei. – Me virei e ele continuava com o sorriso abestado nos lábios. – Eu sou do grupo. Meu nome é Bryan, eu vi que você chegou hoje e não conversou com quase ninguém.
- Eu gosto de ficar na minha. – Ele concordou assentindo e parou de falar. Ele tem problema? – Lauren, meu nome é Lauren Jauregui.
- O que você veio procurar no hawai? – Voltou a perguntar.
- Precisava dar uma pausa em tudo. Me reencontrar e saber qual caminho seguir daqui para frente. – Fui sincera e ele concordou.
- Qual o nome dela? – Perguntou e eu me virei mais um pouco deixando claro a confusão no meu rosto. – O nome da sua ex.
- Porque você acha que eu tenho uma ex? – Ele me olhou e riu negando com a cabeça. – Não entendi essa sua risada.
- Desculpe, mas você não parece ser a pessoa mais hetero que eu já vi. – Abri a boca incrédula e ele comemorou. – Eu sabia. Não se ofenda por favor.
- A gente pode não falar da minha ex? Esse assunto não é o melhor para mim nesse momento. – Sai de Miami para que as pessoas parassem de me olhar como a ex da Camila a que foi abandonada, não quero que isso aconteça também, então acho melhor não falar sobre meu passado.
- Eu vou te levar em um lugar incrível você vai adorar, todos os dias medito lá, você pode me acompanhar se quiser.
Bryan disparou a falar, e ao contrário do que eu achei que seria, ele não foi um cara chato, me arrancou diversas gargalhadas nos primeiros minutos, contando como já havia entrado em furadas na sua viagem pelo mundo.
Ele é um cara incrível, me contou que decidiu largar tudo de material quando sua mãe morreu com câncer, seu pai sempre tenta fazer ele ficar em algum lugar e criar raízes, mas sempre que ele percebe isso cai na estrada mais uma vez.
Ficamos conversamos por algumas horas, até quando achei melhor entrar e tomar um banho, precisa descansar, pelo que parece amanhã vai ser um dia bastante longo.
(...)
Uma coisa que aprendi nesses últimos dias é que não importa quanto dinheiro temos, quantos amigos ao nosso lado ou família nos dando amor, a maioria das pessoas são infelizes, Bryan me levou depois do café da manhã em um centro de apoio.
Quando decidi embarcar para o hawaii estava com medo do que poderia encontrar aqui, afinal estava tomando diversos medicamentos antidepressivos e ao embarcar eu já tinha decidi não tomar, e me focar totalmente em me reencontrar.
Mas algo hoje me fez mudar de ideia, talvez tenha sido o fato que pela nossa conversa, finalmente consegui entender que não adianta nada eu tentar esconder isso ou ignorar a dor, preciso enfrentar ela e bater de frente, ficar no controle, com certeza isso não vai acabar de um dia para noite mas eu sei que conseguindo entender isso pode ser um começo.
Conversei com algumas pessoas que tinham tudo, e estão aqui também tentando entender onde se perderam e como vão se encontrar. Pessoas que lutam com depressão por anos, que sempre receberam diversos olhares tortos por fazerem terapia. Por buscarem ajuda e mesmo assim, mesmo assim, a depressão ainda é encarada como frescura por milhares de pessoas no mundo, não adianta você tentar buscar ajuda, muitas pessoas não vão entender sua dor, e tudo bem, não vai adiantar nada você bater de frente com esse tipo de pessoa apenas ignore e fique distante.
Para muitos depressão é simples pessimismo ou até mesmo falta de caráter. É encarada como uma doença de poucos, ou nem mesmo como doença, o que faz com que muitas pessoas por aí sofram com ela sozinhas, sem nenhum tipo de ajuda ou tratamento.
Agradeço pela família e amigos que tenho mas consigo perceber agora que em muitos momentos eles não entendiam minha dor, mas o lado bom disso tudo é que mesmo sem entender eles ficavam ali por mim, em silencio ou falando, estavam ali.
As pessoas precisam entender que quem vive com depressão não está com frescura ou querendo chamar até, talvez ela apenas precisa de sua companhia em silencio.
- Porque você parece uma velha com esse caderninho? – Bryan me provocou, depois de um tempo em silencio. – O que você está anotando?
- Estou fazendo algumas anotações, como eu não tenho meu computador ou celular, preciso escrever para entender melhor as coisas. – Expliquei e ele arqueou as sobrancelhas. – Você quer que eu leia o que eu escrevi? – Perguntei e ele concordou.
- As pessoas podem ter diversos níveis de depressão, seu julgamento pela sua dor não vai ajudar em nada, então fique cale a boca. – li a primeira frase e ele começou a rir, talvez pela última palavra. – Estimule a pessoa a procurar ajuda psicológica. Encoraje o desabafo. Falar sobre os pensamentos e sentimentos que estão soterrando a pessoa fazem bem, ajuda a aliviar a sensação opressiva que a acompanha. Seja um bom ouvinte. Uma pessoa com depressão precisa se sentir ouvida e acolhida, e não receber mil conselhos e dicas do que ela deve ou não fazer. Nada disso vai dar certo porque a depressão mina a vontade e a energia e a pessoa acaba não conseguindo fazer nada. E isso é encarado por ela como um fracasso, além do medo de desapontar você. Só vai fazê-la se sentir pior. Ajude a pessoa a visualizar suas qualidades e a relembrar suas conquistas. Um aspecto da depressão é a tendência a meio que "esquecer" das coisas boas que já aconteceram, é como se houvesse uma cortina nublando essas memórias. Então ajude-a a lembrar que ela é uma pessoa ótima e capaz de fazer coisas boas.
- Você escreveu esse tanto de tópicos nesses cinco minutos que fiquei pensando? – Perguntou horrorizado e dei os ombros. – Agora eu entendo porque você é jornalista.
- Minha cabeça fica uma loucura, então eu preciso esvaziar. Então foi uma ótima ideia trazer um caderno comigo. – Uma das minhas maiores preocupações era ficar sem nenhum tipo de meio de comunicação mas com o tempo eu percebi que eu precisava apenas de algo para escrever.
- Deixa eu escrever um recadinho nesse caderno igual aquelas adolescentes de colegial. – Falou puxando meu caderno fazendo algo cair. – O que é isso?
Arquei as sobrancelhas estranhando, não era para ter nada ali, afinal esse caderno de anotações é antigo e .... merda.
Peguei a imagem em minhas mãos e fiquei em silencio analisando. Bryan não estava entendendo minha cara até se aproximar é olhar a fotografia.
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
- Essa é ... sua ex? – Perguntou um pouco receoso e me limitei a assentir. – Muito bonita.
Não era para essa foto estar aqui, mas me lembrei do exato momento quando coloquei, a imagem foi tirada de uma das minhas polaroids, eu estava no aeroporto me despedindo de Camila fiquei apertando a cintura dela por alguns minutos, estava triste por ela não poder viajar por causa das aulas então pedi para Karla tirar a imagem antes de ir para o Canadá com Lucy, estamos indo fazer algumas fotos do inverno canadense para um cliente.
Essa imagem me trouxe alguns sentimentos estranhos, é incrível que Camila aparece no meu dia mesmo quando eu tento de todas as formas evitar pensar.