— Não se esqueça do que conversamos ontem. Nada de sair sem seu segurança e em
nenhuma hipótese, saia à noite. Entendeu?
— Entendi – respondo e Adrian caminha até sua pequena mala e a pega saindo em direção
ao seu carro e abre a porta.
— Eu volto assim que puder. Vou te ligar todos os dias, tudo bem? – diz esbanjando charme
vestido em seu terno cinza escuro e uma gravata verde. — Deixe sempre seu celular ligado.
Assim, podemos nos falar a qualquer hora – ele sorri.
— Vou deixar. Eu vou sentir sua falta – digo jogando os braços em torno de seu pescoço e
ele sorri para mim como um menino bobo e apaixonado.
— E eu, já estou sentindo – ele me abraça e me dá um beijo doce e demorado. — Cuide
dela pra mim, maninha – diz sorrindo para Terry que nos assiste entediada.
— Vá embora logo – ela ri. — Oito da manhã. Ninguém merece. Vou voltar pra cama – ela
resmunga.
Ele buzina só para irritá-la e vai embora.
— Vamos. Estou morrendo de sono também.
Entramos em casa e esbarramos com Maria cantando uma versão desafinada de Pássaro de
Fogo – Paula Fernandes. Terry a olha com sua cara sonolenta e dispara:
— Jesus! Depois dessa, só um café bem forte – revira os olhos.
— Até que ela canta bem – digo e Terry me dá uma cotovelada.
— Ai! Isso dói.
— As madames vão querer o café agora? – ela ri.
— Humm... Está fazendo pão de queijo? – digo ao sentir o cheirinho que exala pela
cozinha.
— Estou sim. É uma pena que Adrian teve que sair às pressas. Ele adora meu pão de
queijo.
— Ele adora tudo o que você faz Maria. E, não é só ele – falo e ela sorri.
Nos sentamos à mesa para tomar o café. Maria nos serve enquanto Terry segue bocejando.
Para ela, deve ser difícil estar acordada a essa hora. Geralmente, meio dia ainda é cedo.
— Que tal irmos ao cinema hoje após o almoço? Tem um filme em cartaz que estou louca
para ver.
— Ah é? Qual – digo entusiasmada.
— Uma comédia com aquela atriz, Cameron Diaz.
— Legal. Vamos sim – digo dando um gole em meu café e saboreando o maravilhoso pão
de queijo. — Mas temos que ir com o Paulão. Prometi para o seu irmão que não sairia sem
ele.
— Meu irmão... Protetor até demais. Isso me irrita – resmunga. — Como vocês dois
ficaram depois daquele papo de ontem à noite?
— Nem me fale. Ainda estou em pânico com a possibilidade daquela defunta aparecer do
nada – digo.
— Olha, se ela estiver viva, eu aposto que tinha um caso com o Michel.
— Será? Mas pelo que sei, ela não morria de ciúmes do Adrian?
— Vai saber? Talvez ela tenha o enganado todo esse tempo. Ou, Talvez esteja morta mesmo. Sei lá.
— Eu prefiro a segunda opção – digo sendo um pouco cruel. Não que eu deseje a morte das
pessoas, mas, no caso dela, é melhor que não saia de onde está para ficar assombrando minha
vida. Para isso, já tem aquela vaca velha da mãe dele, agora que já consegui me livrar da
Alana.
— Vocês já pensaram num nome para o bebê? – ela pergunta curiosa.
— Não. Ainda é muito cedo. Pra falar a verdade, estou preocupada com o rumo das
investigações. Sabe se Jonas virá aqui hoje? Quero conversar com ele sobre isso.
— Não sei. Ele ficou de encontrar o amigo que passou essas informações pra ele.
— Então, só nos resta esperar – digo. — Vou fazer meus exercícios e depois tomar um
banho. Por que não almoçamos no shopping? Assim já fazemos algumas compras antes do
filme. O que acha?
— Acho ótimo. Vou terminar meu café e arrumar a zona do meu quarto. Não vou conseguir
dormir mesmo – ela diz e bufa.
— Então vamos.
***
Enquanto caminho pelo jardim, eu vejo Paulão encostado na Range Rover com seus
grandes músculos evidentes por detrás de seu terno preto e cara de poucos amigos. Me
aproximo, mas só de pensar em ficar a centímetros desse homem, me dá medo. Ele é no
mínimo, três vezes o meu tamanho.
— Boa tarde, Paulo – digo tentando ser simpática.
— Sra. Miller – ele responde e meneia com a cabeça.
— Pode nos levar até o shopping? Eu e Terry vamos almoçar e ficar por lá algumas horas.
— Sim senhora – ele responde com sua voz grossa e assustadora. Dou um meio sorriso e
volto. Entro em casa e grito por Terry que já está se arrumando à horas.
— Terry, vamos nos atrasar – grito da escada.
Ouço passos no corredor e em segundos, ela aparece.
— Está ótima! – elogio ao ver que pelo menos uma vez, ela não colocou suas roupas
rasgadas e customizadas, como ela costuma dizer.
— O que achou do vestido verde? – ela gira devagar para que eu olhe.
— Linda – sorrio.
— Você também não está nada mal, cunhadinha. Estou até tentada em tirar uma foto desta
sua saia minúscula e mandar para meu irmão – ela ri.
— Só se você quiser que ele tenha um troço – digo e caímos na gargalhada. Meu celular
vibra. Tento localizá-lo em minha bolsa. É quase impossível achar algo no meio de tantas
bugigangas que levo nela. Quando o encontro, eu vejo no visor uma mensagem, é de Adrian.
“Minha linda, acabei de sair de uma reunião entediante, mas deu tudo certo. Não
consigo parar de pensar em você. Eu estava errado, você me desconcentra mesmo estando
longe... Te amo. ”
— Mensagem do seu irmão – digo para Terry que me olha de um jeito esquisito.
— Humm. Não deixe ele pegar no seu pé não hein. Adrian é um grude. Se der corda, irá
receber mensagens de hora em hora – ela ri e caminha elegantemente em seus saltos prateados.
Digito uma mensagem de volta:
“Já estou com saudades. Adoro desconcentrar você, significa que estará sempre pensando em mim... Eu também te amo”.
Clico em enviar e vejo que ele lê no mesmo instante e me retorna com outra mensagem:
O que está fazendo? Eu sempre estou pensando em você”
“Estou de saída. Vou almoçar com sua irmã no shopping e, depois iremos ao cinema ”. – clico em enviar e fico esperando por resposta.
“Não entra na onda da minha irmã, rs. Depois volte pra casa. Não quero você andando
por aí à noite”.
“Ainda vai dar uma da tarde, Adrian. Pare de ser tão mandão, hunf”.
“Só estou tentando te manter segura... Você e nosso bebezinho”.
“Ao lado do Paulão? Acho que nem terremoto me pega kkkkkk”.
“Muito engraçadinha. Te ligo à noite. Se cuida. Te amoooo!”
— Verônica! – Terry me chama impaciente. — Largue esse telefone e vamos.
— Okay! Já estou indo – digo rindo. Definitivamente, Terry é igualzinha ao irmão. Nenhum
dos dois tem muita paciência.
Entro no carro e seguimos para o shopping.
***
... Horas depois...
Saímos do cinema e caminhamos para a praça de alimentação. Apesar de ter feito uma boa
refeição, continuo faminta. Desse jeito, vou ficar gorda e horrorosa antes mesmo de minha
barriga começar a aparecer. Terry caminha engraçado tentando se equilibrar em seus saltos
carregando umas sete sacolas nos braços. Quase uma compradora compulsiva.
— Vamos nos sentar ali – diz apontando para uma mesa em frente a um casal de idosos. O
lugar não está muito cheio. Nos sentamos e, Terry coloca suas sacolas com cuidado sobre a
cadeira ao lado e diz:
— O que vamos comer?
— Não sei. Pensei em pedir uma batata recheada. Faz tanto tempo que estou com vontade –
digo e minha boca enche de água.
— Então você come esse troço que eu vou pedir algo mais light pra mim, sem tantos
carboidratos – ela ri.
— Só você mesmo – digo rindo.
— Verônica? – ouço uma voz feminina atrás de mim e me assusto. Olho para trás e me
espanto com que vejo.
— Sônia? – exclamo. Ela está ainda mais magra e abatida do que a última vez que nos
encontramos.
— Tudo bem? Como você está? – pergunta com meio sorriso.
— Eu estou bem – digo. — Essa é Terry, irmã do Adrian.
— Nós já nos conhecemos – Terry diz sem muito entusiasmo.
— Se conhecem? De onde? – pergunto curiosa. Sônia não é do tipo que faz amizades com
garotas como Terry.
— Nos conhecemos do Red – ela responde e Sônia assente com um leve meneio de cabeça.
— Mas... O que faz por aqui? – Terry pergunta com a voz fria.
— Fazendo compras – ela sorri. — Eu não tenho seu telefone, Verônica. Sinto falta de
quando conversávamos e de você também – diz sentando-se ao meu lado sem nem mesmo ser
convidada.
— Não tenho tido muito tempo. Desculpe por não ir visitá-la.
— E sua mãe? Ainda na mesma?
— Sim. Está se recuperando aos poucos.
— Me passe seu telefone. Quem sabe poderíamos marcar de sair algum dia – ela diz
tirando seu telefone da bolsa e vejo que digita algo.
— Ah, claro – digo e passo meu número para ela, não que eu fosse ligar ou até mesmo
aceitar a proposta de uma saída amigável. Adrian jamais aceitaria e, para falar a verdade, fico
feliz por estar longe dela. Longe de suas influências.
Sônia anota meu número em seu celular e se levanta devagar.
— Bom... Preciso ir. Ainda tenho algumas coisas para fazer antes de voltar pra casa. Foi
bom ver você. Está linda – ela diz e me dá um beijo no rosto o qual eu retribuo um pouco a
contragosto.
— Foi bom ver você também, Sônia – digo.
— Tchau! – Terry diz seca.
Sônia se afasta e Terry me olha de forma gélida.
— Não deveria ter dado a ela seu telefone – resmunga.
— É só um número de telefone Terry – digo tentando conter o riso. — Também não gosto
muito dela. Mas ela nunca fez nenhum mal a mim.
— Tirando o dia em que te drogou no Red? – ela rebate.
— Adrian te contou isso? – arregalo os olhos.
— Sim. E essa mulher é barra pesada. Eu sei bem porque eu também era assim como ela.
Conheço o tipo de gente que ela anda. Se Adrian descobrir, vai ficar uma fera – ela diz e fico
calada. — Vamos pedir nossa comida. Daqui a pouco, Paulão nos deixa e teremos que ir a pé
pra casa – ela ri fazendo com que a tensão se dissipe.
***
Coloco um filme para assistir, pego um cobertor e me enfio debaixo dele. Está frio e sinto
meus pés congelarem. É impressionante essa queda de temperatura. Se ao menos Adrian
estivesse aqui...
O telefone toca. Levanto-me rapidamente e atendo.
— Alô!
— Oi amor. Como você está? – a voz dele parece cansada.
— Estou bem. Sentindo sua falta – respondo e sorrio para mim mesma.
— Já estou indo dormir. O que está fazendo?
— Assistindo um filme. Está tão fria nossa cama sem você – sussurro e o ouço rir baixinho.
— Aqui também está. Já me arrependi de não tê-la trazido comigo – ele diz com sua voz
rouca.
— Deu tudo certo nas reuniões?
— Sim. Ainda tem alguns contratos para fechar amanhã. Se não fosse por isso, eu pegaria o
carro e correria pra casa – ele diz e meu coração vibra com a possibilidade.
— Obteve mais alguma informação sobre o piloto? – pergunto e a linha fica muda. Após
alguns segundos, ouço suspirar.
— Não. Jonas ainda não retornou minhas ligações. Não quero que se preocupe com isso,
tudo bem?
— É impossível – resmungo.
— Vou desligar. Procure descansar. Quando eu chegar em casa, não te darei essa
oportunidade – ele sorri e entendo bem o que ele quer dizer.
— Estou te esperando, Sr. Miller – digo rindo. — Eu te amo!
— Eu te amo mais – diz e nós desligamos.
A noite será longa sem ele ao meu lado.
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Somente Seu
ChickLitHoje faz uma semana que Adrian e eu nos separamos. Desde que saiu do meu apartamento, não voltou a me procurar. Acho que ele realmente desistiu de mim. Fiquei trancada em casa todos esses dias, procurando uma forma de resolver minha vida. Eu precisa...