Capítulo nove

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Estou andando pelos corredores com Luna, um dia após o ocorrido.

— Ainda bem que ninguém se machucou. - ela diz.

— É, ninguém... - lembro do hematoma no rosto do príncipe e rio internamente.

— Você foi incrível ontem, quer dizer, quando nos guiou para o abrigo. Inclusive, como você sabia disso? - ela me olha curiosa.

— Instinto...

— Você só pode estar brincando. - ela para e me encara.

— E estou, tem um manual de segurança na gaveta da escrivaninha, parece que alguém aqui não leu. - rio dela.

Ela faz uma careta de frustração.

— Mas e o príncipe? O que acha dele?

— Bom, um garoto mimado que sabe que é bonito e se aproveita disso. Além de tudo, tenho desconfianças com ele. - cerro os olhos.

— Que tipo de desconfianças? - ela me pergunta.

— Não sei, ele parece o tipo de pessoa que a qualquer momento vai dar um golpe na monarquia. - dou risada. — Estou apenas brincando, não se preocupe. Mas o quê você acha dele?

— Nada de mais, sinceramente. Ele é legal e tudo, mas não faz meu tipo. Estou aqui pela coroa além do mais, meu coração já pertence a alguém.

— Uh, sincera, gostei. - bato palmas. — Quem seria o sortudo?

— Bom, na verdade... - ela é interrompida.

— Oh, estava procurando vocês! - o príncipe Cole fala animado, entrando no corredor por uma das portas.

Lua e eu fazemos reverências sincronizadas.

— Meu príncipe! Como está? - ela pergunta.

— Ótimo, e a senhorita? - ele faz reverência também. — Bronwyn?

— Oh, sim príncipe. - respondo meio perdida.

— Lua, poderia nos dar licença? Preciso roubar Bronwyn por um minuto.

— Oh... - ela me olha com olhar de "espero que não esteja encrencada" , pede licença e faz reverência ao sair.

Quando ela sai o príncipe assume uma postura totalmente diferente, voltando a ser o galanteador que vi ontem durante o atentado.

— Espero que não tenha contado sobre ontem. - ele sorri de lado. — Ela ficaria muito decepcionada. - diz debochando.

— Não, eu não contei sobre o seu segredinho nojento. - respondo da mesma forma. — E mesmo se tivesse, tenho certeza que não mudaria muito para ela.

  — Você acha? - ele ri. — Sinceramente, eu sei. Ela até finge me amar, mas claramente só está aqui pela coroa.

— Além de príncipe, rebelde e galanteador também é decifrador de pessoas. - Aplaudo de forma irônica. — Pacote completo.

— Haha, engraçadinha. Vem, vamos sair daqui. É ridículo dizer isso, mas as paredes tem ouvidos por aqui. - ele me guia sutilmente para o lado de fora do castelo, próximo ao estábulo.

...

— Mas então, porquê rebelde? - pergunto a ele.

— Me dê um bom motivo pra te responder isso.

— Bom, agora compartilhamos um segredo. Se aprofundar no segredo não vai aumentar a gravidade da situação em que você se meteu.

Ele suspira por um momento.

— Bom, eu odeio isso aqui. Odeio a forma com que fui criado, odeio meu título, odeio minha vida e odeio a monarquia.

— Garotinho cheio de ódio. - dou risada. — Mas por quê? Você tem de tudo aqui.

— De tudo, menos liberdade, menos autonomia. Sou um espírito livre, queria ser mochileiro. Nunca permitiram com que eu seguisse meu sonho. Eu era uma criança ridícula, pior do que meu irmão. Nunca me deixaram brincar com oquê eu queria, muito menos ouvir as músicas que eu gostava. - ele suspira.

— Então você se aliou contra um grupo rebelde que quer tirar o poder da sua família por quê não te deixaram fazer oquê você queria? Você é um bebê chorão. - rio dele.

— Não. - ele se irrita um pouco. — Me aliei a um grupo rebelde pois não suporto a falsidade que existe dentro da família real. Fingimos que somos perfeitos, mas quem convive sabe que a realidade é outra. Ninguém se importa realmente com o povo e sim com conseguir cada vez mais poder. Eu não sou hipócrita Bronwyn, não vou fingir ser oquê não sou. Muito menos proteger um ideal que qualquer um diria que é errado. Além do mais, não nasci pra ficar sentado no trono governando o país.

— Oh, aparentemente o buraco é mais embaixo... - fico surpresa com a sinceridade dele.

— Sim. A coisa que mais me revolta é que nunca me deram o direito de escolher se eu queria ou não participar disso. Desde criança me educaram para ser o herdeiro e eu sempre achei tudo isso um saco.

— E você disse isso para os seus pais? - pergunto a ele.

— Não é porquê você tem um pai compreensivo que todo mundo também tem. - ele vira a cara.

— Eu? Pai compreensivo? - dou risada, mas por dentro a vontade é de chorar. — Eu amo matar pessoas na guerra sim, confia.

— Como assim?

— Da mesma forma que você foi criado desde pequeno para ser o herdeiro, eu fui criada para ser um tanque de guerra. Meu pai nem se quer aceita que eu sou uma garota, na maioria das vezes me trata com o substantivo masculino. Eu inclusive dormia em um quarto com outros 5 garotos.

— Ambos somos capacitados para fazer coisas que não gostamos. - ele ri. — Não dou a mínima para quem governa esse país.

— E eu nunca daria minha vida pela pátria. Já vi cada coisa absurda. Não abraço a bandeira de Ilhéa, muito menos luto com o coração. - rio também.

— Que ótimo então. - rio. — Hoje vou te mostrar um dos privilégios de não ser leal a coroa. Me encontra no portão a meia noite?

— Vai me sequestrar?

— Com certeza.

— Então eu topo. - rio.

— Vou deixar uma roupa pra você no seu quarto. Não se atrasa.

Continuamos conversando até o fim do dia.

A GuerreiraOnde histórias criam vida. Descubra agora