Ele assente, pensativo.
— Conta sobre a sua. - digo a ele.
— Você não contou sobre a sua, só disse que transa. - ele rebate.
— Você quer detalhes? Certo.
— Eu disse sem perguntas.
— Foi uma pergunta retórica.
— O pior tipo possível de pergunta.
— ENFIM. - interrompo ele. — Eu tinha uns quinze, sei lá. Ele era meu colega de quarto, eu gostava bastante dele. Um dia estávamos fazendo uma trilha muito, muito longa, e no meio dela precisávamos acampar. Eu e ele dividimos a barraca. - rio, lembrando. — O resto você já sabe.
— Imagino que você não saiba onde ele está agora. - Cole diz perguntando sem perguntar.
— Ótimo jeito de perguntar indiretamente. - respondo. — Bom, na verdade, nunca mais o vi. Ele foi transferido pro outro lado do país. O mais triste é que ninguém nunca mais me tratou como ele, sabe? Ele me tratava como uma princesa mesmo quando o mundo todo me via como um garoto. Ele me ajudou a conquistar a confiança dos outros, eles passaram a ser bem mais gentis comigo.
— Você estava apaixonada.
— Não, não estava.
— Sim, estava.
— Não. Eu gostava da forma como ele me tratava, não da pessoa dele. Nós éramos bons amigos, só isso.
— Amigos se apaixonam.
— Apaixonam?
— Sim, tenho uma história sobre isso. Inclusive, é a história sobre como perdi a minha.
— Então me conte. - dou a última tragada. O cigarro está no fim, então o apago na pedra em que estamos sentados.
— Um belo dia... - Cole começa a narrar sua história enquanto olha para o nada. — Eu decidi sair daqui. Eu tinha sei lá, doze? Enfim. Sai daqui, não me pergunte como porquê eu não faço ideia, só sei que queria ir ver a rua e fui. Nisso, conheci uma garotinha, ela era um pouco mais nova que eu, achou que eu estava perdido.
— Prossiga. - digo, após ele fazer uma pausa em sua fala.
— Eu não lembro o quê aconteceu depois, desculpe, sou péssimo contando histórias. - ele ri.
— A minha foi simples e objetiva.
— Eu pedi detalhes e você não me deu. Estou fazendo a contextualização antes da história oficial. - ele desdenha.
— Então essa nem é a história? Ahhh Cole me poupe. - me jogo para trás, deitando na pedra.
— Você vai ouvir sim, assim quem sabe aprende a contar uma história decentemente. Enfim, como eu estava dizendo antes de ser interrompido, não sei como, mas cheguei até um local onde moravam MUITAS pessoas. Ela me levou até a mãe dela e disse que eu estava perdido. - ele faz outra pausa. — Bom, no fim disso tudo acabei vendo por acidente uma reunião deles, que eram um grupo rebelde que pretendiam derrubar o sistema e decidi me aliar a eles, eu meio que também queria derrubar o sistema.
— E você queria derrubar por...?
— Por que mataram a minha mãe e colocaram outra mulher no lugar. Bronwyn você não está prestando atenção na história?
— Esse cigarro que você me deu tava meio esquisito. - rio. — Mas continua sua história.
— Eu continuei frequentando essa reunião deles, mais e mais fiquei envolvido nas causas. Eu doava bastante dinheiro para fortalece-los e alimenta-los, já que viviam a margem.
— Dinheiro público?
— Não, eu recebia um dinheiro do meu pai. Eu vinha juntando já que não precisava gastar com nada. - ele esclarece.
— Como a história de como você perdeu seu cabaço acabou em como você se tornou membro de um grupo rebelde e traiu sua família? - pergunto.
— Ainda é a história da virgindade, calma. Retomando, aquela garotinha e eu fomos nos aproximando e, depois, nos apaixonamos. - ele suspira.
— Com doze anos?
— Não, nessa época eu já tinha uns dezoito. Transamos na traseira do carro do pai dela.
— Com ele dentro?
— Claro que não. - ele ri, mas parece triste.
— E cadê ela?
— Ainda está lá, no mesmo lugar. Ainda está lutando.
— E porquê não estão juntos? - digo esperando o momento em que ele vai jogar uma pedra em mim para que eu pare de perguntar.
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A Guerreira
Fiksi PenggemarMesmo sendo uma garota, meu pai nunca me enxergou dessa forma. Assim, me vestiu de homem e me mandou para a guerra. Meu nome é Bronwyn, tenho 18 anos e fui obrigada a agir como uma selecionada.
