Capítulo vinte e oito

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Ele assente, pensativo.

  — Conta sobre a sua. - digo a ele.

  — Você não contou sobre a sua, só disse que transa. - ele rebate.

  — Você quer detalhes? Certo.

  — Eu disse sem perguntas.

  — Foi uma pergunta retórica.

  — O pior tipo possível de pergunta.

  — ENFIM. - interrompo ele. — Eu tinha uns quinze, sei lá. Ele era meu colega de quarto, eu gostava bastante dele. Um dia estávamos fazendo uma trilha muito, muito longa, e no meio dela precisávamos acampar. Eu e ele dividimos a barraca. - rio, lembrando. — O resto você já sabe.

  — Imagino que você não saiba onde ele está agora. - Cole diz perguntando sem perguntar.

  — Ótimo jeito de perguntar indiretamente. - respondo. — Bom, na verdade, nunca mais o vi. Ele foi transferido pro outro lado do país. O mais triste é que ninguém nunca mais me tratou como ele, sabe? Ele me tratava como uma princesa mesmo quando o mundo todo me via como um garoto. Ele me ajudou a conquistar a confiança dos outros, eles passaram a ser bem mais gentis comigo.

  — Você estava apaixonada.

  — Não, não estava.

  — Sim, estava.

  — Não. Eu gostava da forma como ele me tratava, não da pessoa dele. Nós éramos bons amigos, só isso.

  — Amigos se apaixonam.

  — Apaixonam?

  — Sim, tenho uma história sobre isso. Inclusive, é a história sobre como perdi a minha.

  — Então me conte. - dou a última tragada. O cigarro está no fim, então o apago na pedra em que estamos sentados.

  — Um belo dia... - Cole começa a narrar sua história enquanto olha para o nada. — Eu decidi sair daqui. Eu tinha sei lá, doze? Enfim. Sai daqui, não me pergunte como porquê eu não faço ideia, só sei que queria ir ver a rua e fui. Nisso, conheci uma garotinha, ela era um pouco mais nova que eu, achou que eu estava perdido.

  — Prossiga. - digo, após ele fazer uma pausa em sua fala.

  — Eu não lembro o quê aconteceu depois, desculpe, sou péssimo contando histórias. - ele ri.

  — A minha foi simples e objetiva.

  — Eu pedi detalhes e você não me deu. Estou fazendo a contextualização antes da história oficial. - ele desdenha.

  — Então essa nem é a história? Ahhh Cole me poupe. - me jogo para trás, deitando na pedra.

  — Você vai ouvir sim, assim quem sabe aprende a contar uma história decentemente. Enfim, como eu estava dizendo antes de ser interrompido, não sei como, mas cheguei até um local onde moravam MUITAS pessoas. Ela me levou até a mãe dela e disse que eu estava perdido. - ele faz outra pausa. — Bom, no fim disso tudo acabei vendo por acidente uma reunião deles, que eram um grupo rebelde que pretendiam derrubar o sistema e decidi me aliar a eles, eu meio que também queria derrubar o sistema.

  — E você queria derrubar por...?

  — Por que mataram a minha mãe e colocaram outra mulher no lugar. Bronwyn você não está prestando atenção na história?

  — Esse cigarro que você me deu tava meio esquisito. - rio. — Mas continua sua história.

  — Eu continuei frequentando essa reunião deles, mais e mais fiquei envolvido nas causas. Eu doava bastante dinheiro para fortalece-los e alimenta-los, já que viviam a margem.

  — Dinheiro público?

  — Não, eu recebia um dinheiro do meu pai. Eu vinha juntando já que não precisava gastar com nada. - ele esclarece.

  — Como a história de como você perdeu seu cabaço acabou em como você se tornou membro de um grupo rebelde e traiu sua família? - pergunto.

  — Ainda é a história da virgindade, calma. Retomando, aquela garotinha e eu fomos nos aproximando e, depois, nos apaixonamos. - ele suspira.

  — Com doze anos?

  — Não, nessa época eu já tinha uns dezoito. Transamos na traseira do carro do pai dela.

  — Com ele dentro?

  — Claro que não. - ele ri, mas parece triste.

  — E cadê ela?

  — Ainda está lá, no mesmo lugar. Ainda está lutando.

  — E porquê não estão juntos? - digo esperando o momento em que ele vai jogar uma pedra em mim para que eu pare de perguntar.

 

A GuerreiraOnde histórias criam vida. Descubra agora