10. Toque de almas

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21 horas se passaram, chegou o segundo dia de ensaio.

Eu vou arrumado para escola, minha autoestima está alta. Estou fingindo que isso é somente por mim, mas ter uma pessoa que a gente se atraia em um determinado lugar, nos faz querer ser mais atraentes também. 

Chegando na escola, após o fim das aulas, acabei me encontrando com o Estevão em frente ao refeitório mais cedo como havíamos combinado.

- Pietro! - ele chega com um sorriso no rosto. Seu semblante está mais leve também.

- Oi, Estevão! - nos cumprimentamos com um aperto de mão.

- Como você tá, Pietro? Seu dia está bom, Pietro? - ele fala em um tom engraçado.

- O meu dia está ótimo, Estevão. E eu estou muito bem também. E você, Estevão? - dou risada da conversa aleatória.

- Está perfeito, meu caro Pietro! Meu pai acordou bem hoje, como nunca antes em anos. Eu estou feliz por ele. Passamos no hospital e a médica disse que os remédios novos podem já estar fazendo efeito e está ajudando muito ele. E sabe o que é mais legal? É que... - ele respirou fundo e me olhou meio envergonhado. - Nossa, me perdoa, eu estou falando muito, eu sei. Desculpa - ele abaixa a cabeça.

- Não, não! Pode falar a vontade. Não tem problema nenhum.

- Me deixar falar muito pode ser um problema.

Eu dou risada e continuo:

- Diz aí, o que é mais legal?

- Ah, sim. Bom, o mais legal é que agora vou ter meu pai de volta, vivo e feliz, finalmente! É meio louco dizer isso, mas toda essa situação é cansativa às vezes. Tanto eu, quanto os médicos, estamos lutando por isso há anos. Me preocupo porque sem ele eu não sou nada, literalmente - ele ri.

Naquele momento meu coração apertou muito. Eu estava feliz pelo Estevão, claro. Mas eu pensei nos meus pais, porque o que eu mais percebo é a infelicidade da minha mãe, ela não sente mais a alegria de antes que tinha pelo meu pai. Hoje ela só está com ele por preocupação, por todos esses problemas no corpo dele que o deixa fraco e como na última situação, até o faz desmaiar. Eu amo meus pais, amo tê-los por perto, mas ao mesmo tempo não quero que eles continuem juntos por dó ou qualquer coisa do tipo, e sim por livre e espontâneo amor. Eu sei muito bem como é amar e como é não sentir mais nada, e o amor não dói. Amor é amor.

Olho para o Estevão e aquele sorriso sincero dele e não consigo dizer mais nada. O brilho no olhar dele diz tudo por mim. Até que a professora chega no mesmo instante nos puxando pra dentro da biblioteca, cortando nossa conversa. 

Começamos a ajudá-la a preparar o local para o ensaio de hoje. Logo em seguida, foram chegando algumas pessoas, até que todos finalmente chegam e o ensaio começa.

- Oi meus queridos! Sejam bem-vindos de volta - diz a professora Jessy.

- Olá, professora! - todos respondem.

- Bom, hoje faremos uma dinâmica um pouco diferente para entrarmos em conexão uns com os outros. O teatro é assim, ele é vivido a base de conexões reais, toques, sensações. E basicamente nessa atividade vocês ficarão vendados, eu colocarei uma música e vocês terão que se distribuir pelo local. Quando eu mandar parar, vocês param, eu formarei duplas e vocês terão que se tocar delicadamente. Sentir a mão, o toque, o cabelo, a textura da pele, tudo isso. E depois irei ficar trocando as duplas. Quem está de boné, tire por favor.

Todos tiram o boné, incluindo o Estevão, que solta seu cabelo liso e brilhante.

- Vamos lá! Venda nos olhos - todos se preparam e a professora coloca na caixinha de som um instrumental leve e dançante para iniciar a atividade. - Sintam a música. Já podem se distribuir!

Todos começam a andar, dava para ouvir os passos. Até que a professora diz "para" e cada um fica perto de uma pessoa, assim formando uma respectiva dupla. Eu e minha primeira dupla começamos a nos tocar. Eu passo a mão pelo rosto, sinto a pele macia, um cabelo longo e cacheado, com um creme absurdamente cheiroso. Provavelmente é a Bárbara, acho que esse é o nome dela.

- Seu cabelo é muito cheiroso - eu comento e dou risada.

- Obrigada. Sua pele é tão macia, parece um bebê - e nós dois rimos.

- Sinal de que a skin care diária tem surgido algum efeito - respondo rindo.

- Pronto, troquem de dupla! - diz a professora após alguns segundos.

Dava pra sentir todos absolutamente perdidos, mas finalmente eu paro com alguém. Era uma menina novamente. Senti as tranças no cabelo. Chego a conclusão de que é a Letícia, uma colega minha que a gente só se fala em festas, eventos ou algo do tipo. Ela é muito engraçada.

- Não toca no meu cabelo, mané! - ela diz com um tom satírico.

- Eu queria muito que fosse uma pessoa que você não conhecesse, eu iria rir muito.

- Eu sabia que eu ia cair com você. O universo sempre atrai as piores pessoas para perto da gente, né?

- Otária! - nós rimos muito.

- Troquem as duplas! - repete a professora.

Eu, novamente perdido, tento me encaixar com alguém. Até que finalmente me encaixo. Sinto seu cheiro, toco sua pele, passo a mão pelo seu cabelo e já começo a notar algo em comum.

- Não bagunça meu cabelo - ele comenta ironicamente num tom de voz profundo.

Logo ele toca a minha mão, sinto ele passando seu dedo polegar nela mais uma vez e ali tive a certeza de que era ele.

- Não gosto de toque - respondo ironicamente.

- Faz parte da brincadeira, Pietro.

- Para de repetir meu nome em todo final de frase.

- Desculpa, Pietro. Ai, droga, eu vou parar.

Eu dou um sorriso bobo, ainda bem que ele não está vendo nada nesse momento.

- Você tem um cheiro bom, sabia? - comento.

- Que bom, um banho sempre faz bem - ele retruca e nós rimos.

- Você é de outro mundo, cara - eu continuo dando risada.

- Claro que sou. Você acha que venho da Terra? - ele ri. - Se quiser te levo pra conhecer meu planeta tão, tão distante.

Ai que droga! Pessoas simpáticas despertam meu ponto fraco. Alguém faz ele parar, por favor!

- Podem tirar as vendas! - a professora encerra a brincadeira.

E lentamente, tiramos nossas vendas e olhamos um pro outro. E ele sorri, com um sorriso lindo de canto e ajeitando o cabelo. Ele tem ideia do que está fazendo comigo? Porque eu acho que não.

- Para finalizar, quero que as duplas finais se abracem como um gesto concreto de encerramento.

Volto meu olhar à ele e então nos abraçamos. Eu sinto como se o mundo tivesse parado por alguns instantes. Sabe aquele abraço aconchegante, quente, confortável? Ele é poucos centímetros maior que eu e isso ironicamente parece ser o motivo certo para o encaixe do abraço ser tão perfeito. Vontade de morar nesse abraço, ficar aqui por um tempo pra esquecer tudo que eu sinto. Mas, a professora continua:

- Formem uma roda agora - todos saem do abraço e formam a devida roda. - Gostaram da brincadeira? É super incrível sentir a energia de alguém sem ao menos se olharem, né?

E eu penso: você não faz ideia, professora.


Encerrando o ensaio, todos vão embora e logo percebo que Pietro olha o horário no seu relógio de braço e sai com muita pressa. Eu não sei o que havia acontecido, mas aquilo me preocupou um pouco.

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