"Me encontra hoje no nosso lugar ás 19 horas".
Essa frase ficou pressionada na minha cabeça por horas. Até eu finalmente conseguir fazer minhas coisas, me arrumar e me encontrar com o Estevão no horário marcado.
Eu chego lá primeiro. Paro de frente para a vista da cidade. Minhas mãos soadas de ansiedade. Estevão é cheio de surpresas e já tem um tempo que não nos encontramos assim. Sendo sincero está difícil até de entender o que se passa na cabeça dele hoje em dia com tudo que vem acontecendo.
Logo ouço um barulho de passos atrás de mim. Noto o barulho se aproximando. Minha respiração vai ficando cada vez mais apertada, até que ouço sua voz.
- Pietro - o Estevão diz atrás de mim.
Então me viro e nossos olhares se encontram.
- Oi, Estevão - ele sorri.
- Confesso que me deu medo de tomar um bolo.
- Eu jamais faria isso.
Ele sorri, mas logo percebo que ele não está tão bem quanto parece.
- Podemos ir pro ponto principal? Confesso que lidar com a ansiedade não é muito legal - eu pergunto ansiosamente.
- Calma. Podemos sentar primeiro? - ele pergunta e eu faço que sim com a cabeça.
Então, nós dois sentamos na grama como sempre fazemos, um ao lado do outro. Nossos olhares param diante da bela vista da cidade. O clima está um pouco tenso, sinto que ele tem preparado cada palavra e estou com medo de atropelar o processo.
- Eu precisava de um momento com você - ele diz e respira fundo. - Esses dias estão sendo muito acelerados, não acha?
- Pois é, completamente. Imaginei que não estivesse pronto pra um momento a sós comigo, por isso não quis parecer insistente.
- Tudo bem. Eu só... sei lá. Queria um pouco de paz, sabe? Esquecer esse tanto de problema que vem aparecendo de uma vez. Às vezes parece que estou um pesadelo interminável, é bizarro.
- É, eu entendo. Acredito que tem sido momentos de muito entendimento pessoal, né?
Ele olha pra mim e eu retribuo o olhar. Ele me encara como se não entendesse o que eu quis dizer, então continuo:
- Entender o que você sente, sabe? O que te machuca, o que te faz se sentir preso, o que ainda faz sentido na sua vida, coisas desse tipo.
- Então está me indicando começar uma terapia? - nós dois rimos. Mas logo ele continua. - Eu entendi seu ponto de vista. E realmente eu preciso de um tempo pra mim. Mas...
Ele enrola um pouco para falar, como se quisesse dizer algo, mas não conseguisse. Eu então faço uma cara de espera, demonstrando que quero saber o que ele tem a me dizer.
- Não é bem da forma que os meus tios querem - ele conclui.
- Seus tios? O que eles querem?
- Pietro - ele se vira para mim, e eu já sinto meu coração bater mais forte. - Eu não sei como vai interpretar isso, mas de alguma forma, eu... meio que preciso deixar tudo.
Nesse momento meu coração acelera mais e eu fico confuso. Demoro alguns segundos para conseguir fazer as palavras saírem.
- O que você quer dizer com precisar deixar tudo? - minhas mãos ficam trêmulas.
- Eles querem que eu vá embora. Querem que eu deixe a cidade e vá morar com eles.
- Calma, o que?!
E quando ele diz isso, é como se um quebra-cabeça se desmontasse dentro de mim. E tudo que eu havia construído junto com ele, se desmoronasse de uma vez.
- Tentei convencê-los de que isso não é o melhor a se fazer. Mas analisando com mais calma, talvez seja a coisa certa, pelo menos nesse momento.
Meus olhos se enchem de lágrima. O impulso que percorre minhas veias faz eu levantar rapidamente.
- Sério mesmo que você acha uma boa decisão largar tudo e ir pra outra cidade? - meus olhos semicerrados o encaram e eu sinto meus olhos lacrimejarem ainda mais.
- Não tem muito que eu possa fazer agora. Eu sinto muito.
- Você sente?
- Não é culpa minha! - eu então desvio o olhar e o fixo para frente. - Eu tentei. Eu juro que tentei. Mas eles querem que eu vá e não está no meu alcance decidir ficar ou não.
- Só o que eu pedi foi te ter por perto, Estevão.
- Não consegue entender o meu lado? O que quer que eu faça? Fuja? Esqueça meus tios? Que por um acaso são os únicos da minha família que se importaram de verdade comigo e com meu pai? - ele diz completamente chateado com toda a situação.
Eu fico em completo silêncio. Meu estômago começa a embrulhar e doer, uma sensação horrível pelo meu corpo vai se expandindo. Então, ele continua:
- Desculpa te fazer passar por isso. Não foi uma decisão minha, eu só queria que entendesse isso.
Eu respiro fundo, me viro e fixo meu olhar nele novamente.
- Queria que pelo menos alguém que eu ame de verdade ficasse comigo.
Uma lágrima escorre pelo meu rosto e noto o olhar dele se enchendo de lágrimas também.
- Então você me ama? - ele pergunta.
Não imaginei que ouviria essa pergunta hoje. Pelo menos não dessa forma. A discussão acaba ganhando um genuíno silêncio por alguns segundos. Mas logo, eu respondo:
- Juro que achei que achei que dessa vez seria diferente.
Um pensamento rápido só me fez querer sair daqui rapidamente. Me viro e saio com uma dor em meu peito. Me sinto gritando por dentro e as lágrimas vão caindo.
Estevão não diz nada. Só noto que ele ficou parado lá atrás. Não queria sair de perto dele desse jeito. Eu só não consigo mais esconder meus sentimentos por ele e agora saber que posso perdê-lo assim, de repente, é doloroso demais.
Chego em casa com a maior confusão mental. Preso em uma divisão entre amar e deixar ir. Porque por vezes o amor é assim, precisamos aprender a deixar partir. Mas não quero perder alguém desta forma, não sem antes dar um único beijo.
Estevão é pra mim a pessoa que eu mais admiro atualmente. É ele quem me traz a paz. É ele quem me tira o conforto, mas que ao mesmo tempo acha a forma perfeita de me deixar ainda mais em aconchego. Ele me tira de órbita. Seu sorriso irradia até os lugares mais escuros da minha alma. Seu toque é o motivo para uma série de sentimentos desenfreados no meu corpo. Eu realmente não quero vê-lo partir, mas sei que é isso que deve ser feito. Estou cada dia mais perdido. Sem rumo. Sem chão. Apenas com amor dentro no meu peito que não merece ser parado.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Meu Pequeno Universo
RomanceA vida na pele de Pietro pode ser assustadora em alguns alguns momentos, pois nem todos sabem lidar com a intensidade pessoal. E depois de passar por diversos traumas amorosos, paixões, ilusões, confusões, ele resolve deixar de lado a vida amorosa p...
