Uma grande confusão. Me sinto perdido e vazio. Confesso que não sei como não consegui expressar meus sentimentos depois da pergunta que o Pietro me fez. Passei dias pensando nisso, o que é estranho, pois desde a morte do meu pai a única coisa que eu consigo pensar é em como será meu futuro, o que eu posso fazer para alavancar minha vida ou então que atitudes são eficientes para manter minha sanidade mental intacta, ou pelo menos estável.
Depois de revelar para o Pietro que ainda não esqueci do meu amor por ele, uma luz acendeu na minha cabeça, eu consegui voltar a pensar no Pietro com mais clareza. Depois de todas essas turbulências na minha vida eu não consegui pensar em nós dois ou especificamente nele.
Eu percebi que realmente gosto dele de uma forma profunda. Percebi que é com ele que eu quero passar cada momento da minha vida, seja qual for. Mas existem algumas questões pendentes:
1- Ainda não demos nem o nosso primeiro beijo;
2- Eu não sei se consigo dizer a ele que o amo;
3- Não sei o que será daqui pra frente na minha vida.
Pela manhã, sento na mesa para tomar café com a minha tia e o meu tio. Eles estão dormindo na minha casa esses dias para organizar algumas coisas e não me deixar só. Todos os cafés da manhã são bem estranhos e um pouco vazios. Assim que meu tio sai da mesa, minha tia coloca seu copo com café na mesa e me encara por alguns segundos.
- Tá tudo bem, tia? - questiono, um pouco desconfortável com a situação.
- Sim, está sim - ela diz voltando ao normal e parando de me encarar. - Eu só... bom, conversei com o seu diretor esta manhã.
- Sobre o que?
Alguns segundos de silêncio tomam conta da conversa, mas ela responde:
- Você.
- Falaram sobre o que especificamente?
- Sua transferência, Estevão.
Eu tomo um susto quando ela diz isso e fico sem entender do que ela está se tratando. Ela quer me mudar de escola?
- Como assim "transferência"? - eu me inclino um pouco para frente e a encaro esperando uma boa resposta.
- Eu e seu tio achamos melhor te mudar de escola e nos mudarmos para nossa casa. Esse ambiente está pesado, ainda sinto a presença do seu pai de alguma forma. Se ficarmos em outro lugar talvez seja mais fácil de lidar com toda essa situação.
- Isso é algum tipo de piada?! - eu me levanto rindo debochadamente e aumento o tom de voz. - Não podem fazer isso comigo! Eu tenho amigos aqui. Amigos que me ajudam a ficar um pouco melhor todos os dias. Isso não significa nada pra vocês?
- Estevão, calma! - ela tenta fazer eu parar segurando minhas mãos.
- Não! - eu me afasto. - Eu sou feliz aqui independente de tudo que aconteceu. Me mudei para cá não tem nem um ano e já querem me tirar daqui?
- Senta, por favor! Eu posso falar um instante?
Eu respiro fundo, fico sem ter o que dizer. Então só vou me sentando aos poucos na cadeira novamente e a ouço falar.
- Eu e seu tio sabemos o que você está passando e sabemos que está sendo um processo muito difícil. Mas temos uma outra casa para cuidar, essa aqui é do seu pai, não podemos ficar aqui. Sei dos seus amigos, mas pode visitá-los sempre que puder.
- É meu último ano, tia. Eu preciso acabar com isso logo, quero acabar com meus amigos por perto. Não aguento mais ficar me mudando a cada seis meses e ter que me adaptar em uma nova escola, novos ciclos, isso é difícil para mim.
- Olha... - ela levanta a cadeira e se senta mais próxima a mim. - Sei que vai ser uma tarefa difícil, mas estamos pensando no melhor para você. Não está sendo difícil apenas para você. Por favor, tenta nos entender pelo menos um pouco.
Nessa hora sinto a dor dela só pelo seus olhos cheios de lágrima. Mas sei que sair daqui vai ser ainda mais doloroso.
- Tudo bem, tia.
- Só mais uma coisa, você sabe que agora somos responsáveis por você, né? Infelizmente você não poderá ter controle de nada até seus dezoito anos, por isso estamos fazendo isso.
Eu olho para ela com os olhos cheios de lágrimas, tiro minhas mãos da dela e apenas saio da cozinha e vou para meu quarto. Tudo anda tão complicado, não sei mais o que fazer.
A dor de perder alguém se torna ainda mais difícil com as pendências que a vida vai colocando aos poucos para resolvermos. O que dói não é só a ideia de perder alguém, mas lidar com a ausência diária da pessoa, do vazio dentro de casa, do cheiro que vai se perdendo, da voz que você vai esquecendo, das papeladas e processos que vem depois do óbito, dentro várias outras coisas.
Sinto vontade de correr, fugir para muito longe e recomeçar do zero, como se nada tivesse acontecido. O problema é que não posso e nem consigo pensar só em mim. Tudo ao meu redor precisa de mim por alguma razão, fugir de tudo seria um ato de covardia.
Chegando na escola, me encontro com o Pietro colocando suas coisas no armário. Ele olha para mim e logo solta um lindo sorriso.
- Oi! Como você está? - ele pergunta após fechar o armário.
- Eu estou bem, eu acho.
- Acha? Como assim?
- Problemas de família.
- Que droga. Eu sinto muito.
Pietro me encara por alguns segundos com um olhar triste, mas logo se vira. Eu pego na sua mão e ele se vira para mim novamente.
- Eu preciso muito te falar uma coisa. Você precisa me prometer que... - minha fala é interrompida pela Naysha que chega muito feliz.
- Oi, gente! - ela diz com muita empolgação.
- Oi. É... desculpa pessoal, eu preciso ir - saio sem muitas justificativas, não consigo mais encarar o Pietro, isso tudo está acabando comigo.
Eu sou o tipo de garoto que enrola muito para dizer algo, apesar de muitas vezes ter tudo na ponta da língua. O que acontece é que em algumas ocasiões importantes e intensas, algumas coisas acabam não saindo e eu busco sempre disfarçar preenchendo com algum outro comentário aleatório ou um sorriso que vale por várias palavras. E sei que falar para o Pietro que provavelmente eu precise ir embora e nunca mais voltarei será uma tarefa muito difícil para mim. E claro, para ele também.
No intervalo sentamos juntos como sempre. Ao longo da conversa eu parava para apreciar o Pietro. O jeito que ele falava, a forma como sorria, o jeito tímido e fofo, mas ao mesmo tempo um jeito completamente sincero, intenso e único. Não quero tirar aquele sorriso dali tão cedo.
Na saída da escola encontro com a Naysha, Valter e Pietro logo em frente a escola. Após uma conversa, Naysha e Valter vão embora, só o Pietro fica. Sinto por um milésimo de segundo que ali poderia ser a hora perfeita para falar a verdade, mas minha insegurança toma conta do meu corpo e eu tenho uma ideia totalmente oposta.
- Pietro - eu o olho no fundo dos seus olhos.
- Sim? - ele diz com um leve sorriso.
- Me encontra hoje no nosso lugar às 19 horas.
- 19 horas? Para que? - ele pergunta muito confuso sem entender o tom da conversa.
- Não pensa nisso agora. Só preciso que esteja lá.
Me aproximo dele e dou um beijo em sua testa. E após uma super troca de olhares, vou embora. Preciso de um momento especial com ele, talvez hoje possa ser um dia interessante para nós dois. Preciso tomar a coragem de contar tudo. Preciso fazer isso por nós.
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Meu Pequeno Universo
RomanceA vida na pele de Pietro pode ser assustadora em alguns alguns momentos, pois nem todos sabem lidar com a intensidade pessoal. E depois de passar por diversos traumas amorosos, paixões, ilusões, confusões, ele resolve deixar de lado a vida amorosa p...
