38. O Baile

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         É hoje! O grande baile de despedida começa em algumas horas.

         Acordei com uma eletricidade e animação que não sentia há algum tempo. Escovo meus dentes, tomo café da manhã, arrumo meu quarto, corto algumas pontas do meu cabelo, passo um creme extremamente cheiroso nele e separo a roupa que vou usar hoje a noite.

         Checo meu celular para ver se tem alguma mensagem, e até agora Estevão simplesmente sumiu das redes sociais. Eu respiro fundo e tento não deixar com que isso afete meu dia.

          Eu fiz tanta coisa que nem vi a hora passar. De repente já é a hora do almoço. Quando desço para comer, minha mãe está no fogão. E quando entro na cozinha e olho para o lado, meu pai, sentado na cadeira e apoiado na mesa.

- Boa tarde? - eu falo um pouco surpreso de ver meu pai ali.

- Oi filho. Boa tarde! - ele responde.

- Meu amor, sente-se. Vou preparar sua comida - minha mãe fala.

- Não se preocupa, eu mesmo coloco, mãe - ela olha pra mim e se vira para o fogão novamente. - Pai? Não esperava que viria pra cá hoje.

- É, eu resolvi fazer uma surpresa. E... - ela levanta os braços, pega uma caixa que estava ao lado dele e me dá. - Isso é seu.

- O que? - eu pego a caixa muito surpreso. - Meu? O que tem aqui?

- Abre e verá.

         Eu seguro firme aquela caixa azul escura. Tiro a fita que está enrolada nela, e em seguida abro.

- Meu Deus, pai!!

         É um relógio muito bonito. E aparentemente, caro.

- Gostou?! - ele pergunta com os olhos arregalados e um sorriso no rosto.

- Eu adorei! Obrigado - eu levanto e o abraço.

- Comprei porque pensei que combinaria com você hoje, nesse dia tão especial.

- Você acertou em cheio. Obrigado novamente.

         Coloco o relógio novamente na caixa e subo para guardá-lo.


         Mais algumas horas se passam, e eu vou direto ao banho. Saindo dele, vou ao meu quarto e começo a colocar minha roupa; calça jeans preta, camisa social branca, um pequeno colar prata e o relógio prata que ganhei do pai hoje cedo. Em seguida, seco meu cabelo com secador e por fim, passo muito perfume.

         Recebo uma mensagem da Naysha. Ela e Valter estão lá fora me esperando. Pego minhas coisas e desço. Vou direto à porta para sair e esqueço de falar com a minha mãe que está sentada no sofá da sala.

- Onde pensa que vai, mocinho? - ela fala.

- Ai, caramba - eu sussurro. - Perdão, mãe.

         Ela ri e se levanta do sofá, vindo em minha direção.

- Uau! Você está um gato! - ela fala enquanto arruma a minha camisa simetricamente.

- Obrigado, mãe - eu falo com vergonha.

- Aproveita a festa e cuidado, ok? E não chegue muito tarde.

- Ok, mãe - eu digo já entendiado com o discurso.

- E não invente de fazer coisa errada depois da festa!

- Tá, mãe. Eu já entendi. Posso ir agora?

         Ela me encara por alguns segundos e sorri.

- Eu te amo.

- Eu também te amo - respondo.

         Ela me dá um beijo na testa e eu saio. Avisto Naysha e Valter na calçada de casa. Já posso sentir a energia forte deles de longe.

- Quem é esse príncipe? - Naysha me elogia.

- Poupem os elogios, eu tenho vergonha.

         Nós rimos.

- Vamos?! - Valter diz.

- Vamos!! - eu e Naysha respondemos simultaneamente.


        Chegamos na escola e a música alta já dá para ser escutada. Entramos e de fato, a falta de ternos e vestidos deixou o ambiente muito mais agradável e divertido.

         Nós três sentamos em uma mesa no canto. E observamos as pessoas chegarem. Primeiramente, a turma de nerds da escola. Durante todos esses anos eles foram motivos de piada, mas estão saindo da escola com as melhores notas e recebendo as melhores propostas de vida. Enquanto os que os zoavam, não estão na festa, pois repetiram o último ano. Isso que eu chamo de carma gratuito.

         Em seguida, entra o casal mais fofo e genuíno dessa escola; Kemelly e Pedro. É inevitável observá-los. E assim que ela percebe que estou olhando para eles, ela me dá um sorriso, e eu retribuo.

         O barulho ensurdecedor do microfone é ativado, e logo depois o diretor sobe no pequeno palco para falar.

- Olá, meus queridos alunos! É um prazer estar aqui esta noite com vocês. Noite de um ciclo que é encerrado e um novo processo da vida de vocês é iniciado. Aproveitem tudo que essa festa vos tem a oferecer. E minha profunda gratidão e boa sorte á vocês para essa nova etapa que está por vir. E agora com vocês, para dar suas próprias palavras, Professora Jessy!

         Todos aplaudem e o Valter se aproxima de mim.

- Onde que está a comida? - ele fala no meu ouvido e eu dou risada.

- Olá, alunos! Fico feliz que todos tenham vindo. É uma honra estar aqui com vocês e ver tudo o que já passamos juntos. É triste que tenhamos que ir embora assim, depois de tanto tempo. Mas também é importante saber que ciclos precisam encerrar para que outros possam começar. Vivam intensamente cada momento da vida de vocês e não deixem de acreditar em vocês. A vida realmente é um sopro. Obrigada por tudo. Agora, curtam o baile!

         Todos gritam e aplaudem. E as músicas voltam a tocar. Quem está controlando o som é a Jojo (é assim que a chamam). Ela é bem conhecida na escola e tem um dom artístico para música como ninguém.

- Levantem, vamos dançar! - Naysha levanta e puxa eu e o Valter para pista.

         Nós então dançamos. Um sorrindo pro outro, todo mundo aproveitando aquele momento, e um filme passa pela minha cabeça. Ficamos ali por vários minutos.

         Até que por uma fração de segundos, uma garota esbarra em mim e derruba refrigerante na minha camisa. Que droga!

- Ai meu Deus, me desculpa! - ela diz muito desesperada.

- Tudo bem, não se preocupa - respondo.

          Vou até á mesa e pego um guardanapo para me limpar. Suspiro de raiva, e vou tentando manter a calma. Até que uma música mais calma começa a tocar. Casais vão sendo formados, e a minha vontade é de sair dali correndo, mas eu permaneço sentado. Em cada canto, um casal. E eu? Limpando o refrigerante que foi derramado em minha camisa.

         Um arrepio eu sinto de repente. Não sei se é pela música ou pela insatisfação que eu estou da festa depois do acontecimento com o refrigerante. E depois de esfregar o guardanapo várias vezes na minha camisa, levanto a cabeça e volto a observar as pessoas dançando. Até que olho para entrada. E um garoto um pouco alto, bonito e de cabelos um pouco longos, entra no baile. Me parece familiar. E então, ele se vira. Nossos olhares se cruzam. Meu peito aperta.

         É ele.

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