Um presente

138 11 11
                                        

  A coletiva foi marcada para as quatro e quando o momento chegou não pude conter um pequeno nó no estômago.

Claro que já havia falado em público... Só que nunca sobre mim.

Me posicionei na frente de todas aquelas câmeras, gravadores, microfones e respirei fundo. Um sorriso fácil preso aos lábios.

  -Bom dia a todos aqui presentes. Venho a vocês hoje esclarecer os acontecimentos da noite passada. Os quais tem gerado bastante repercussão pelos meios de notícia.

  Até aí tudo bem.

  -Bom, como já devem saber, houve um pequeno incidente durante o baile. Um simples tombo na varanda. Acredito que muitas mulheres aqui presente entendam como é ter que passar horas com um salto alto, presa dentro de um vestido. Ainda mais quando se está enfurnada em um lugar fechado.

  Meu ar compreensivo foi retribuído pelas jornalistas presentes.

  Elas estavam caindo na minha.

  -E por inconveniência tropecei e cai, meu vestido rasgou e o Sr Harper, que tem sido chamado, por muitos, como "o mais novo candidato a príncipe Consorte", não fez nada mais que me ajudar a voltar para a festa em um ato de puro cavalheirismo. E por mais que deva agradecimentos a ele, sinto em desmentir os boatos sensacionalistas ao afirmar que eu e o Sr Harper não temos nenhuma relação amorosa. Além do quê, não nos conhecíamos até ontem à noite. -Limpei a garganta. -Agora vou abrir às perguntas. Sim, a senhorita de vestido vermelho.

A mulher apontou o gravador na minha direção.

  -Vossa alteza, sou Betâne Pensbury do tabloide Real Gossip e gostaria de lhe perguntar: se a senhorita e Jonathan Harper não se conheciam até o baile como explica o fato de que, por fontes confiáveis, foi confirmado que ele está se hospeda no palácio?

  Houve murmurinhos.

E as coisas começavam a tombar para o lado errado.

  Respirei fundo e ainda com um maldito sorriso, continuei:

  -Bom, isto é simples. O Sr. Harper, como deve saber pelas suas fontes confiáveis, é o mais novo membro do parlamento e conselheiro financeiro do rei.

  -Então a senhorita afirma ser apenas conhecidência o fato de que o homem que a tratou com tanta intimidade na noite passada agora é, pelo que sabemos, o novo consultor de seu pai?

Meu sangue ferveu, como ela se atrevia a insinuar uma coisa destas?

  -Não acho que seja meu direito questionar as escolhas de meu rei e responsável pai. Todos sabemos que vossa majestade tem seus motivos e objetivos em mente. Portanto, não serei eu a questiona-las delas.

  "E se está insinuando que Jonathan Harper sequer pensaria em contar vantagem e garantir uma cadeira no parlamento por meio de relações interpessoais, posso lhe afirmar, com toda a certeza, que está enganada. Posso não conhecê-lo muito bem, mas não duvido de sua integridade e ética."

  "Afinal de contas ele ajudou uma desconhecida. Alguém que ele não fazia ideia ter sangue real. E fez isto pelo simples fato de ser a coisa certa. Então, sim, foi uma mera conhecidência."

  Era um mistério, para mim, como eu ainda não tinha voado no pescoço daquela mulher.

Aqueles abutres... Tentando de qualquer jeito encontrar um furo. Ninguém sabe até onde estavam dispostos a ir para conseguir o que tanto buscam: um bom drama e uma manchete chamativa.

  Mas, para a minha satisfação, a mulher apenas agradeceu e se calou.

  Uma pequena vitória que, tinha que admitir, me trazia um gostinho muito agradável a boca.

Um estranho no palácioHistórias para pegar e não largar. Descubra agora