Doze

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Estou treinando sozinha numa cabine afastada. Comecei a pouco menos de meia hora, e ainda não tive coragem de dar o primeiro tiro.

Disse pra mim mesma que não vou fazer isso sem Hunter, e estou cumprindo minha promessa, parte por estar com medo, parte por querer ele por perto quando isso acontecer.

Ele ficou de aparecer uns vinte minutos atrás, mas ainda não chegou, o que é estranho, pois Hunter nunca se atrasa. Escolhemos esse horário – antes do jantar – por ser um horário melhor, onde os treinos estão acabando e todos se preparam para comer. Mas nós, não. Temos trabalho a fazer.

Estou treinando como destravar a arma com coisas úteis sem usar o braço, como no sinto, meu sapato, no canto da mesa, na quina da janela. Estou fazendo isso bem uns cinco minutos, quando a porta da cabine se abre e vejo ele colocar a cabeça para o lado de dentro.

— Ah, oi. – digo, tentando parecer que não estou chateada por ele ter demorado tanto. – Aconteceu alguma coisa?

— É, desculpe. – diz. – Trade me chamou depois do treino para avisar que vai ter reunião após o jantar e acabamos conversando sobre outras coisas.

Hunter termina de entrar e fecha a porta. Recolhe a arma da minha mão, a destrava e coloco-a em seu lugar. Fico observando enquanto faz isso com as outras duas, sem dizer nenhuma palavra.

Até que não aguento mais.

— Não vamos treinar hoje? – pergunto, sem entender nada.

— Não. – há quase um sorriso em seus lábios. – Fui chamado a atenção por uma pessoinha que não sei dizer "não".

Lucy?

— O que Lucy fez? – pergunto, mais confusa ainda.

— Ela veio se queixar por estar passando pouco tempo com você, e por eu ser o culpado disso. Não sei se ela tem razão, mas como essa menina tá sempre certa no que diz, levei fé. – quando Hunter enfim acaba de arrumar tudo, abre a porta e a deixa livre para que eu saia. – Passe esse tempo livre com ela, jantem juntas. Aproveitem esses momentos de vocês. Depois vou ao seu encontro para irmos à reunião.

Fico encarando-o por longos segundos até acreditar que ele não está de brincadeira, então ando lentamente, quase em choque, e passo pela porta.

Hunter cancelou um treino porque Lucy foi reclamar com ele que estava passando pouco tempo comigo. Hunter, de dois metros de altura, com Lucy que não têm nem 6 anos.

Em que mundo paralelo estamos?

***

Ela corre em minha direção quando passo pela porta da creche. Lucy abraça minhas pernas com tanta força, que nem parece que estive com ela no café da manhã. Talvez ela esteja certa sobre estarmos passando pouco tempo juntas, mas além de ter suas tarefas e frequentar a escola, eu ainda tenho algumas coisas para fazer, mesmo que limitadas por um braço enfaixado que está em processo de cura.

LIGHTS - Livro IIOnde histórias criam vida. Descubra agora