Nunca pensei que orgulho machucasse tanto, mas nesse momento, sinto tanta dor como quando recebia as chicotadas do Superior.
Estou me dilacerando por dentro, mas não me deixo demonstrar nada. Não posso.
— Tudo certo? – James pergunta com sua voz habitualmente baixa ao meu lado enquanto colocamos nossas mochilas nas costas e terminamos de arrumas as coisas nos tanques.
— Ele não vem. – é tudo o que digo.
— O tanque já está arrumado. Consegui pegar o menor, sem problemas. Peguei também um pouco de comida e água. A viagem não vai ser tão longa, mas todo cuidado é pouco.
Assinto e não digo mais nada. Não consigo nem mesmo erguer os olhos do que faço. Não consigo olhar em volta. Não posso encontrá-lo. Não posso vê-lo.
Isso vai acabar me matando. Ou pior ainda: me desencorajando.
O sol já se pôs, e tudo o que nos resta agora são as últimas pequenas e fracas luzes do poente. Bem a tempo, conseguimos arrumar tudo e vamos partir. Há novos líderes para a caminhada por terra, e eles seguem na frente enquanto os outros tanques se preparam para seguir viagem. James toca meu braço, e sei que chegou nossa hora.
Não quero pensar muito, então só ligo meu piloto automático e sigo pé ante pé atrás dele, até que chegamos ao último tanque menor. Não há ninguém nele, e entramos sem sermos percebidos. Vejo a luz do painel se acender, e quase morremos quando vemos um movimento na parte de trás. Ambos viramos com armas em punhos, apontando para qualquer coisa que seja.
Mas então, eu o vejo: com o rosto fantasmagoricamente iluminado pelas luzes do painel, de braços cruzados e sem expressão nenhuma no rosto.
— Nos leve ao desgraçado. – é tudo o que Hunter diz, e por um segundo, sinto meu coração desfrouxar no peito.
James fica encarando-o por mais alguns segundos, até que guarda novamente sua arma, se vira para frente e prepara o tanque. Eu continuo olhando para ele. Quero que olhe para mim e veja o quão grata estou por ter decido ir. Quero que veja que estou realmente feliz. Quero me sentir segura. Mas Hunter não olha. Continua com seus olhos vidrados ao espaço a sua frente, e, novamente, sinto meu peito doer.
Orgulho machuca. Descubro isso. E quando não é o seu próprio orgulho, é o orgulho dos outros.
Viro para frente novamente e me abraço. De repente sinto frio. De repente entendo enfim o que estamos fazendo. De repente, tenho uma certeza sem tamanho de que vamos morrer.
Todos nós.
Queimados de uma só vez.
Seguimos os outros tanques por um longo tempo. No decorrer do caminho, James deixa um a um passar a sua frente, até que todos estão longe o suficiente, e estamos sozinhos na vastidão que é isso aqui. Não ousamos passar perto de nenhum aglomerado, de modo que seguimos por um deserto de terras não regulamentadas.
Estamos invisíveis.
Não sei quanto tempo essa viagem vai durar, mas o silêncio é esmagador. Sinto-o presente como uma quarta pessoa, bem grande e espaçoso e sufocante. Tenho dificuldades para respirar. Se James percebe meu desconforto, não diz nada. Se está desconfortável, não demonstra, pois ele sempre está assim: ereto e sério e perfeitamente estável.
Isso me assusta às vezes. Se não fosse suas raras expressões, James pareceria um robô.
Acho que caio no sono certa parte da viagem, pois em um segundo estou olhando a terra de nada a nossa frente, no outro, estou em outro lugar, e no segundo seguinte, estou sentindo alguém tocar o meu braço direito pelo lado da porta. Dou um pequeno pulo no banco e volto a realidade, assustada. Mas somente depois de alguns segundos, percebo que a mão é verdadeira e continua a tocar meu braço. Olho por sobre o ombro e vejo Hunter com seu corpo encostado na lateral do tanque, com sua cabeça apoiado na parede e com sua mão direita se esgueirando entre meu banco e a porta. Seus olhos encontram o meu.
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LIGHTS - Livro II
General Fiction"Fui torturada a vida inteira. Experimentei vários tipos de inferno. Mas nenhum se compara a esse." Depois da missão falha na Capital e descobrir que tem um irmão gêmeo, Lorely, Hunter e toda sua equipe da Resistência se encontra prisioneiros do Sup...
