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Quem nunca passou pela fase "trouxiana" do amor, não sabe como dá raiva depois que passa.

Com todos os segredinhos, coisas mal explicadas e aquelas verdades de vida complicada (sei lá) do Leandro, eu tive a época de sonhar que ele esclareceria tudo e que por fim, o romance ficasse com sabor de chiclete de tutti-frutti, docinho, perfeito e cheiroso.  Sonhar, né. Porque agir, era outra história, por isso entrei de corpo inteiro nas areias movediças da fase deprê. 

Por dentro eu tava super na fossa, mas para quem perguntasse, eu respondia: "tô ótima, se melhorar, estraga".

(exceto o Gui que "lê" meus pensamentos)

Tá bem, eu sei que já passou e também tô revirando os olhos e pensando em mandar uma mensagem para o meu eu do passado: "Renan, larga de ser trouxa. Bicha, acorda, larga desse embuste", mas na época eu cheguei a sentir muita compaixão e também me identifiquei com seu drama que até hoje não sei se é real. 

Tenho muitos amigos com realidades bem similares, um já foi expulso de casa aos quinze anos, outro foi aceito pelo pai e não pela mãe, outro saiu de casa e só depois dos vinte e tantos anos que teve coragem de se relevar, um deles se suicidou, um veio de família crente que abomina, outro de família crente que o respeita, olha, são muitas realidades e quando  Leandro falou-me de seu drama por telefone, claro que me pesou muito. Queria sair de onde eu estava só para confortá-lo e pedir que tivesse paciência com eles. Ofereci apoio, carinho e disse que por esse motivo, mesmo que não desse certo, eu estaria sempre pronto para conversar.

O meu carinho pela pessoa era bem mais forte, de repente, do que o tesão que o tempo e o afastamento fazia amornar. Eu estava sofrendo como se meu corpo quisesse desapegar, mas o coração se mantivesse firme. Logo, suportei isso porque achava melhor do que a solidão ou sequer ser notado por alguns homens nos quais já coloquei meu par de olhos cor de miosótis lindos. (obrigado, são lindos mesmo).


— Oi Gui. Ai não veio me convidar pra sair né? Não é meu melhor dia... 

— Sério? Não, Renan... claro que vamos sair um pouco na sexta-feira? Tu tá confinado em casa há uns seis meses.

— Eu tô namorando aquele menino. 

— Beleza. Vamos comer um shawarma? Tu ama olhar vitrine e provar roupa sem comprar nada só pra olhar essa bunda master no espelho do provador — Gui me provoca muitos risos ao debochar do meu jeito convencido "sem querer" — Aham, tu ri, mas chama eu e o Cley só pra perguntar: "ai, atrás essa calça ficou esquisita?", pra nós desbundados ficarmos com inveja desse troço aí.

— Para seu tolo.

— É. Mas é isso, amor. Vamos sim... Se não quer ir pra balada eu respeito isso. Todo mundo tem saudade de quando tu usava muito sarcasmo e ficava se achando. Lembra que encarou aquele negão MARA e disse: "ele tá me desejando" e daqui a pouco chegou uma mulher e meteu um beijo no cara?

— Foi sujeira aquilo, claro que ele me queria — Gui ri alto de mim — Minha bunda era maior que a dela. 

— Tua bunda é maior que a do cavalo. — reviro os olhos pra ele rir mais ainda.

— Na verdade não tenho vontade de sair... 

— Guri... não começa com isso. Não vale a pena, ainda mais ele sendo primo da Jussara. A bicha é bem perigosa.

— Credo! Nada a ver. Não é porque são da mesma família... caráter é individual.

— Jura? Se esse namoro te fizesse bem, não tava amuado em casa. 

Sol e MarteOnde histórias criam vida. Descubra agora