O salto agulha dos Louboutins de Lauren atingia o mármore do saguão como um disparo seco, ecoando pela recepção vazia do condomínio em Coral Gables. Eram três e meia da manhã, e o silêncio do prédio de luxo parecia julgar cada passo levemente descompassado que ela dava.
Ela vinha de mais uma after-party em Star Island. A memória da noite era um borrão de luzes estroboscópicas, perfumes caros misturados ao cheiro adocicado de vape e conversas vazias com a elite social de Miami. Lauren não estava lá pelas pessoas, estava lá pelo esquecimento que o excesso proporcionava.
O recepcionista noturno, vencido pelo turno ingrato, cochilava com a cabeça pendendo perigosamente para o lado. O clique rítmico dos sapatos de Lauren o despertou em um sobressalto, os olhos arregalados de quem teme uma demissão sumária.
— Boa noite, Srta. Jauregui... — ele gaguejou, a voz rouca, tentando recompor a postura profissional enquanto alisava o uniforme amassado.
Lauren parou. O mundo girou levemente para a esquerda, e ela precisou fixar o olhar em um ponto neutro na parede para recuperar o eixo. Ela não olhou para o homem, pois estava ocupada demais tentando pescar as chaves dentro de sua clutch de grife, que parecia ter se transformado em um labirinto sem fundo.
— Hm... Boa noite. — ela murmurou, a palavra saindo mais arrastada do que pretendia.
— Precisa de ajuda, senhorita? — O homem arriscou, notando a micro oscilação no equilíbrio dela.
Lauren parou de tatear a bolsa. Ela ergueu o rosto, oferecendo a ele um sorriso que não chegava aos olhos; um sorriso amarelo, treinado para desarmar preocupações e afastar intimidades.
— Eu cruzei oceanos de vodka hoje, Antônio. Acho que consigo atravessar o saguão. — A resposta foi seca, mas não cruel.
Apenas a defesa automática de quem detesta ser vista vulnerável.
Sem esperar resposta, ela seguiu para o elevador. O metal frio das portas se fechou, isolando-a em sua caixa de espelhos. O reflexo lhe devolveu uma imagem que ela preferia ignorar: o batom levemente borrado, o cabelo desalinhado pela brisa úmida da orla e os olhos verdes vidrados, perdidos em algum ponto entre a euforia e a exaustão.
Cobertura.
Ela tentou lembrar se havia se despedido de alguém na festa. Ou se tinha pago a conta do valet. A mente de Lauren, geralmente afiada como uma lâmina para os negócios, transformava-se em névoa sob o efeito do álcool. Ela desistiu de tentar lembrar. O esquecimento era, afinal, o objetivo.
Ao sair do elevador, a ponta do sapato prendeu no friso metálico do piso. O tropeço foi deselegante, arrancando um xingamento alto que reverberou pelo corredor silencioso e acarpetado.
— Merda... — ela sibilou, levando a mão à boca, lembrando-se tardiamente de que vizinhos normais dormiam àquela hora. — Shhh, Lauren. Comporte-se.
A porta de seu apartamento, uma fortaleza de madeira maciça, travou uma batalha breve contra sua coordenação motora. Após três tentativas falhas, a fechadura cedeu. Lauren entrou, chutando a porta para fechar atrás de si, ignorando as trancas de segurança. Ali dentro, cercada por sistemas de alarme de última geração, o único perigo real era ela mesma.
O cheiro de sua casa a abraçou — uma mistura sofisticada de madeira teca e velas de Jo Malone. Era seu santuário.
Imediatamente, os sapatos voaram para longe, e o contato dos pés descalços com o piso frio foi quase orgástico. Caminhou até o quarto, guiada pela luz da lua que entrava pelas portas de vidro da varanda, iluminando o oceano negro lá fora. Aquele apartamento, com sua vista panorâmica e silêncio absoluto, era a prova de seu sucesso e a cela de sua solidão.
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FRUTA PROIBIDA
Hayran KurguKarla Essel é filha de um indiano milionário, dono de uma multinacional com sua sede situada em Mumbai. Cresceu sob os holofotes e na mira da mídia, por se envolver profundamente com os negócios da família e por querer dar seguimento a carreira de s...
