Favela de Dharavi
O mau cheiro das águas agudamente poluídas do rio Mithi, localizado na ilha Salsette em Mumbai, se envolvia com a intensa fumaça produzida pela queima de plásticos e resíduos nas áreas de produção acentuada de Dharavi, e também às margens da seiva apodrecida que servia de sustento e fonte de renda para os moradores daquela localidade. Ataf, um homem de quarenta anos de idade, encontrava naquele universo pestilencial uma maneira de proporcionar de forma menos miserável possível, a alimentação e sustentação de sua família, que encontrava-se ali há alguns anos, desde que se mudaram para um barracão improvisado, constituído por madeira, lonas e algumas placas de metal fundido. A moradia desprovida de água encanada, energia elétrica e saneamento básico, era o único bem material com o quê eles poderiam contar.
Ele traçava sua rotina diária através dos primeiros raios de sol que surgiam, indo em busca de lixo e materiais despejados nos confins daquele percurso enojado. Recolhia a maior quantidade que pudesse conseguir e assim dava início a reciclagem, para vender por valores desproporcionais e injustos àqueles que exploravam os trabalhadores braçais da favela a troco de migalhas. Ataf também trabalhava como artesão em períodos opostos aos que ele utilizava para reciclar. Por vezes, produzia vasos e utensílios de barro que conseguia vender para turistas e visitantes, e até para comerciantes locais praticantes de exportação, e auxiliava seus irmãos durante os finais de semana no tratamento de pele e couro de animais, para a fabricação de bolsas e sapatos, e assim, ao final das semanas ou dos meses, acumulava valores oscilantes que serviam-lhes em suprimento de suas necessidades básicas.
A família do homem humilde, além de viver em condições mínimas de saúde e conforto, obtinha a necessidade de dividir um banheiro a céu aberto com mais mil trezentos e noventa e nove moradores, entre outros banheiros que também eram divididos com números assustadoramente absurdos de pessoas, pois os mesmos não possuíam condições de manter um banheiro em casa justamente pela falta de estrutura, e assim os banheiros públicos de Dharavi eram administrados a céu aberto, às margens de um rio que sustentara criminosamente diversas famílias através da pesca irregular, em decorrência do teor de poluição extrema e do garimpo de toneladas de lixo, oferecendo anualmente doenças, epidemias e pestes para a comunidade, que utilizava, sem ter o poder de escolha, uma água rica dos dejetos recebidos diariamente.
Mensalmente, a comunidade de Dharavi recebia a visita de uma das figuras mais queridas e importantes de Mumbai, Karla Essel, que fazia questão de estar pessoalmente entregue à dedicada escolha de ajudar aquelas famílias a terem algum tipo de esperança quando notavam ali a sua presença. Karla havia se tornado a responsável por fornecer gratuitamente materiais de reciclagem para que os moradores pudessem obter matéria prima com mais volume e facilidade, sem precisarem ter contato com o rio, pois tinha total acesso e controle da produção de embalagens da Essel Group, e por mais que ela não concordasse com aquilo que no final das contas sempre acabava sendo um grande amplificador da poluição, ela sabia que ainda assim ajudaria milhares de famílias a terem uma renda mínima no final do mês.
Além de doar os materiais para os moradores de Dharavi, ela também fornecia alimentos, água potável e remédios, pois ver a situação daquelas pessoas e em especial daquelas crianças, lhe deixava com o coração completamente despedaçado. Karla queria realizar uma mudança significativa no meio de vida de todos ali, mas sabia que sozinha seria apenas uma gota no meio do oceano. Apesar de sentir-se impotente e achar que a sua luta era em vão, não cogitava a hipótese de parar com as doações, pois tinha a plena certeza de que outras pessoas não fariam aquilo pelo seu povo. Naquela manhã de segunda-feira, após deixar a empresa com uma grande pressa, dirigiu-se até a comunidade acompanhada por alguns funcionários que lhe serviam naquela tarefa de todos os meses. Foi levada por seu motorista, Abhay, sendo este irmão mais novo de Ataf, que fora tirado dali a pedido do mesmo e contratado por Karla para que trabalhasse para ela. Logo atrás, caminhões de carga cheios de plástico e outros munidos de alimentos, seguiam o luxuoso veículo da jovem executiva, que era a visita mais aguardada pela família de Deva.
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FRUTA PROIBIDA
FanfictionKarla Essel é filha de um indiano milionário, dono de uma multinacional com sua sede situada em Mumbai. Cresceu sob os holofotes e na mira da mídia, por se envolver profundamente com os negócios da família e por querer dar seguimento a carreira de s...
