O entardecer em Coral Gables não pedia licença, impunha-se. O sol, num último suspiro dramático, tingia as águas da baía de Biscayne com um dourado líquido, transformando as janelas dos arranha-céus em espelhos de fogo. Era um cenário de cartão-postal, como uma pintura de Van Gogh, perfeito em sua quietude, onde o cheiro de maresia e dinheiro antigo se misturavam na brisa morna.
Na recepção do Gables Condominium, a rotina seguia seu curso anestesiante. Gerald, o recepcionista diurno, contava os minutos para a troca de turno, lutando contra o tédio. A paz, no entanto, foi quebrada não por um estrondo, mas por uma visão.
Um carro imponente parou na entrada, e dele desceu uma mulher que parecia carregar sua própria gravidade. Ela não caminhava, deslizava. Era uma pluma. Vestia um conjunto de alfaiataria em tom terracota, corte assimétrico e moderno, que gritava alta-costura europeia. As joias em seu pescoço capturavam a luz do poente, mas era o perfume — uma mistura inebriante de sândalo e audácia — que anunciava sua chegada antes mesmo de seu sorriso.
Gerald endireitou a postura, os olhos arregalados. Ele a reconheceu, é claro. Ninguém esquecia Desiré Benoist.
— Mademoiselle...? — ele gaguejou, pego de surpresa.
— Surpreso em me ver, Gerald? — Desiré apoiou os cotovelos no balcão de mármore, invadindo o espaço pessoal dele com um charme predador.
— Eu... não posso negar a surpresa. Mas é uma satisfação, senhorita. Um prazer revê-la! — O rapaz corou, desarmado.
— O prazer é meu. Você continua sendo o funcionário mais eficiente deste lugar. — Ela sorriu, e Gerald sentiu-se o homem mais importante de Miami. — Mas preciso que você use essa eficiência agora. Esqueci minha chave com a Lauren. Preciso da reserva.
O sorriso de Gerald vacilou.
— Ah... veja bem, a Srta. Jauregui não deixou aviso. E... bem, eu não quero problemas. A senhorita sabe como ela é reservada.
Desiré soltou uma risada baixa, rouca. Ela inclinou-se mais, como se fosse contar um segredo de estado.
— Gerald, querido. Não se preocupe. Lauren e eu... — ela fez uma pausa teatral, girando o anel no dedo — ...digamos que o noivado saiu do hiato. Estamos juntas novamente. É uma surpresa de reconciliação. Se é que me entende.
Ela piscou. O cérebro de Gerald entrou em curto-circuito.
— Oh! Entendo! Meus parabéns! — Ele sorriu, aliviado e cúmplice. — Bom, sendo assim... abrirei uma exceção. Mas, por favor, não me deixe em maus lençóis. A Srta. Jauregui é a proprietária mais exigente do prédio.
— Já te coloquei em problemas antes? — Ela arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— Não... mas essas chaves são para emergências de força maior.
— Acredite, Gerald — Desiré pegou a chave da mão dele, os dedos roçando levemente a palma do rapaz — a saudade é uma força maior. E isso é uma emergência.
Ela caminhou para o elevador sem olhar para trás, deixando Gerald atordoado. Minutos depois, a troca de turno aconteceu. Antony assumiu o posto noturno, e Gerald partiu, levando consigo o segredo da "surpresa", enquanto o colega se preparava para a longa vigília da madrugada.
Quando o carro da empresa que transportava Lauren estacionou, a noite já havia caído. Dimitri abriu a porta, e Lauren desceu, o peso do dia curvando levemente seus ombros. Ela passou pela recepção como um fantasma, os olhos fixos no celular, respondendo e-mails que não podiam esperar.
— Boa noite, Srta. Jauregui! — A voz de Antony a fez dar um pequeno salto.
— Deus... Boa noite, Antônio. Desculpe, estou em outro planeta hoje. — Ela suspirou, guardando o celular. — Alguma entrega?
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FRUTA PROIBIDA
FanficKarla Essel é filha de um indiano milionário, dono de uma multinacional com sua sede situada em Mumbai. Cresceu sob os holofotes e na mira da mídia, por se envolver profundamente com os negócios da família e por querer dar seguimento a carreira de s...
