Le Jeu

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Passado

A ressaca de Lauren não era apenas física, era existencial.

Desiré a observou por horas, sentada na poltrona como uma sentinela silenciosa, enquanto a mulher que amava dormia o sono pesado dos embriagados e dos corações partidos. Quando a respiração de Lauren mudou de ritmo, sinalizando um despertar iminente, Desiré moveu-se. A cozinha de Lauren, geralmente impecável e fria, ganhou vida. O cheiro de café forte invadiu o ambiente, misturando-se ao aroma de torradas e atum. Era uma tentativa culinária de cura.

Quando Lauren abriu os olhos, o mundo girou. A luz do abajur parecia um holofote de interrogatório. E lá estava ela. Desiré. Não uma alucinação, mas uma presença sólida e dolorosa.

— O que faz aqui, Desiré? — Lauren resmungou, a voz rouca, arrastada, cada sílaba enviando uma agulhada para suas têmporas. O cenho franzido denunciava a dor.

— Will me contou. — Desiré aproximou-se devagar, pisando em ovos. — Eu liguei dezenas de vezes. Você sumiu. Eu fiquei preocupada, Lauren.

— Não tem mais porquê se preocupar comigo. — Lauren tentou erguer a voz, mas uma pontada aguda na cabeça a fez recuar, pressionando as mãos contra o crânio. — Não precisava vir.

— Eu entendo a mágoa. Entendo o ódio. — Desiré sentou-se na beira da cama, invadindo o espaço pessoal que Lauren tentava proteger. — Mas eu também estou destroçada, Lauren. Se estou aqui, é porque te amo. Deixe esse orgulho maldito de lado. Você exagerou no álcool e não consegue nem ficar em pé sozinha.

— Eu não preciso da sua compaixão. — Lauren desviou o olhar para um ponto cego na parede, o rosto fechado em uma máscara de frieza. — Nem da sua pena.

— Não é pena. É cuidado. E sua birra infantil não vai curar sua ressaca. — Desiré suspirou, pegando o comprimido e a água deixados por Will. — Tome. Para a dor de cabeça.

Lauren semicerrou os olhos, desconfiada, mas a dor era maior que o orgulho. Engoliu o remédio com três goles grandes de água.

— E o outro? — Lauren apontou para o segundo comprimido.

— Para o enjoo. Mas não tome de estômago vazio. — Desiré puxou a bandeja com as torradas e a salada. — Coma.

— Não vou comer isso. — Lauren cruzou os braços, virando o rosto como uma criança teimosa.

— Vai comer sim, ou vai passar o resto do dia abraçada com a privada. Tome o café. Eu sei que você gosta.

Vencida pela exaustão, Lauren cedeu. O café amargo desceu queimando, mas acordando seu sistema. As torradas foram consumidas sob o olhar vigilante de Desiré. Quando o último pedaço sumiu, Desiré retirou a bandeja.

— Agora, o banho. Você precisa tirar esse cheiro de bar e desespero.

— Acho que você já pode ir embora, Desiré — Lauren tentou levantar-se com dignidade, mas o chão parecia feito de gelatina.

Ela cambaleou, e antes que atingisse o solo, os braços firmes de Desiré a seguraram pela cintura.

— Acho que não — Desiré sussurrou, o rosto perigosamente próximo. — Vamos. Eu ajudo você.

O banheiro tornou-se um santuário de tensão. Ajudar Lauren a se despir não foi um ato mecânico; foi uma tortura lenta e silenciosa. Cada peça de roupa retirada expunha a vulnerabilidade de Lauren e aumentava a eletricidade entre elas.

Desiré a guiou para o box e ligou o chuveiro. O jato de água fria foi um choque. Lauren arfou, o corpo instintivamente buscando calor, encolhendo-se contra Desiré, que entrou vestida, sem se importar com a seda cara de sua blusa.

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