Saudades

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É impossível ignorar a estranheza de habitar novamente uma realidade que já foi minha, ainda que essa realidade tenha se transmutado em algo novo, preservando apenas o essencial. O meu sentimento por Lauren permaneceu imutável; na verdade, a distância serviu apenas como um catalisador, aumentando a intensidade a cada dia torturante que vivi longe dela.

Qualquer um, olhando de fora, diria que fui egoísta. Voltei para o meu país em busca de estabilidade, de um nome, de dinheiro. Mas a nossa história possui camadas de complexidade que desafiam até a minha própria compreensão, e certamente a de quem dividiu comigo os dias mais luminosos da minha vida — aqui, sob o sol de Miami, ou nos fragmentos de mundo que exploramos juntas.

Lauren parece, finalmente, ter compreendido a gravidade daquele momento decisivo. Hoje, com a poeira assentada, é nítido para ambas: o cancelamento do casamento, por mais devastador que tenha sido, era reversível. A perda daquela oportunidade em Paris não seria. Eu jamais a teria novamente. Foi aquela escolha que redefiniu quem sou, moldando minha personalidade e minha carreira. A paz que sinto hoje é inabalável porque alcancei os patamares que sempre almejei; agora, estou livre para me dedicar à parte mais importante da minha história: nós.

Não sei se foi a decisão "correta", mas foi a única decisão segura naquele instante. Se Lauren me rejeitasse hoje, se o amor tivesse secado, eu aceitaria minha sentença, mesmo destruída. O que me conforta é saber que não fui uma âncora. Eu jamais me perdoaria se tivesse estagnado a vida dela. E veja só: Lauren hoje é uma executiva renomada, trilhando uma jornada solo brilhante, muito mais evoluída do que a mulher que deixei para trás.

Eu nunca a esqueci. Nem por um segundo. Ela foi o combustível, a musa silenciosa que me fazia lutar em Paris, carregando a dor da partida como um amuleto, alimentando a esperança de que nossos caminhos se cruzariam lá na frente. E o futuro chegou. É agora.

Sentir o mesmo amor vindo dela, intacto e feroz, foi o alívio que minha alma precisava depois da longa espera neste apartamento. Não quis ser invasiva, mas a nostalgia não me deu escolha. Foi aqui que a vi pela última vez. Neste quarto. Nesta cama. Saí por aquela porta com o coração em frangalhos, já calculando o retorno. Ter a certeza de que voltei para ficar, de que o tempo finalmente está a nosso favor, é como tocar o paraíso.

Recuperar o tempo perdido exigirá mais do que amor; exigirá estratégia e paciência. Eu sei que preciso reconquistá-la. Não nos grandes gestos, mas nas entrelinhas, no cotidiano, na reconstrução da confiança. Foram anos de silêncio. Agora, terei que provar, dia após dia, que nunca mais a abandonarei.
Enquanto esperava, imersa nesses pensamentos, meus olhos percorreram o quarto. Algumas coisas mudaram, outras permaneceram dolorosamente iguais. A curiosidade me guiou até o closet. Abri o compartimento onde costumava deixar minhas roupas e lá estavam elas. Dobradas. Preservadas como relíquias.

Uma peça em especial estava separada, dobrada com menos rigor, como se tivesse sido manuseada recentemente. Uma camisola. A que usei na nossa última noite. Levei o tecido ao rosto e inspirei. O meu perfume ainda estava lá, fraco, quase um fantasma olfativo.

No canto da prateleira, vi um frasco de vidro. Estendi a mão e o peguei: era o meu perfume. O mesmo que uso até hoje, pela metade. Lauren comprou o meu cheiro. Ela borrifou minha essência nas roupas durante todos esses anos para manter a lembrança viva. O impacto dessa constatação me fez tremer.

Ao puxar o frasco, um papel caiu de trás dele. Dobrado, amarelado pelo tempo, manchado por pequenas gotas secas que deformavam a tinta. Marcas de lágrimas.

Abri com cuidado, sentindo que invadia um santuário, mas incapaz de resistir. A primeira frase me atingiu como um soco.

"Te entendo por odiar as despedidas, porque eu também as odeio. Me corta o coração deixá-la..."

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