Capítulo 35

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A vida realmente não está em nossas mãos, nós apenas podemos fazer o melhor com o tempo que temos

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A vida realmente não está em nossas mãos, nós apenas podemos fazer o melhor com o tempo que temos.

Para um atleta se lecionar durante um jogo é uma merda, mas isso acontecer fora de quadra é ainda pior. Sei que tive uma sorte absurda, e comecei a ter dimensão disso.

O sinal abriu e segui quando o outro carro não parou também seguindo, meu livramento foi ter percebido a tempo de virar o volante e a batida ser mais na parte traseira do carro em vez de direto na minha direção, se tivesse vindo qualquer outro veículo do outro lado a situação teria sido desastrosa e não faço ideia do que seria de mim nesse momento.

Meu lado esquerdo bateu forte contra a porta com o impacto que apesar de ser melhor do que o esperado ainda pegou na lateral, a cirurgia foi boa de acordo com os médicos mas sei que a recuperação vai ser longa, no momento os vários hematomas estão me incomodando muito mais pois em todo meu lado tem algum lugar arrocheado.

A preocupação quando cheguei ao hospital pelo que entendi era com a cabeça pois desmaiei no local com o impacto e ainda precisaria fazer mais exames para acompanhar e ter certeza que não tem nenhum machuco interno despercebido, não lembro certo dos momentos após o acidente.

Tive muitas visitas ao longo do dia e meus pais se revezaram para ficar comigo fora dos horários que as pessoas poderiam entrar.

Ana foi uma das primeiras pessoa que vi e fiquei aliviado mesmo um pouco zonzo por ela por ver que eu estava bem, em certo momento do dia sua mãe e Liam apareceram por alguns minutos o que me surpreendeu.

Consegui levantar com ajuda de um enfermeiro e tomar banho com outra pessoa ajudando ainda por cima sentado foi uma situação constrangedora até certo ponto, mas apenas passei por isso rápido sabendo que nos próximos dias as coisas serão assim.

O dia foi longo e meu pai dormiria no hospital essa noite para me acompanhar, ele me deixou a par das partes técnicas da situação, boletim policial, o que aconteceu com a pessoa do outro carro, em que estado as coisas ficaram e como foi a conversa com a equipe de médicos do time. Sem contar que tivemos uma conversa sobre algumas coisas que Ana contou para minha família sobre ela, de certa forma isso me impactou pois eu sei que pra ela ter contato mesmo que pontualmente significa que pretende estar aqui por um bom tempo.

Suspiro cansado e sinto que vou voltar a dormir a qualquer momento.

[...]

- Muitas pessoas querem notícias suas. - A escuto afirmar enquanto volta a sentar na cadeira próxima a minha cama.

Recebi algumas visitas novamente mas o dia foi mais calmo, cansativo mas ainda sim melhor, a sensação que o sedativo estava me dando ontem passou então fiquei mais tempo acordado e sinto menor dor.

Após o primeiro horário de visitas meu pai foi para o apartamento descansar e minha mãe trocou com ele passando o dia comigo, agora de noite após as visitas Ana trocou e veio passar a noite comigo e aparentemente eu não sou o único que se sente melhor hoje pois ela está bem menos abatida, mas sei que está fazendo o maior esforço para estar aqui nesse ambiente comigo.

- Soube que saiu uma reportagem do acidente. - Comento o que vi mais cedo.

- Eu vi, sabe que vão ser meses até aceitarem algum acordo com aquele homem. - Afirma o que já sabemos, ele atravessou o sinal pois estava no celular e teve a infelicidade de bater em mim.

- Não quero pensar nisso agora. - Realmente a última coisa que quero é remoer isso, se pudesse apenas esqueceria. - Você comeu?

- Sim, jantei com Stefano, sua irmã, minha mãe e Liam aqui perto, eles vão voltar amanhã, Christian ficou com a minha tia mas eles vieram no susto. - Eu fiquei surpresa mas feliz por não terem a deixado vindo sozinha sem saber ao menos como a situação estava.

- Vem aqui um pouco. - Peço por que a queria perto de mim, eu estou meio sentado e não podemos deitar juntos mas sentar na beirada da cama tem como sendo isso que ela faz. - Podemos conversar sobre o sonho agora?

Eu sei que ela tem fugido dessa conversa mas eu tenho certa necessidade de falar, acho que aconteceu principalmente por eu saber da sua história e por todos os sonhos inquietos que ela teve nos últimos meses.

- Tudo bem. - Responde olhando-me ao suspirar.

- Não consigo lembrar de tudo, acho que por conta da anestesia minha mente ficou um pouco confusa naquelas horas. - Penso bem como falar isso. - Lembro de estar numa casa que eu não conheço mas era grande, em certo momento um homem apareceu e falava muito sobre você, era como se nós estivéssemos arrumando essa casa e falando coisas sobre você, coisas que mudaram em você ou que gostávamos em você, a sensação era que o sonho era longo, pareciam horas apenas conversando.

- Que homem era esse? - Perguntou e podia escutar sua voz um pouco diferente.

- Você sabe. - Não queria admitir que passei muito tempo no seu apartamento e encontrei fotos dos dois. - Em dado momento ele se levantou, me abraçou, se despediu e disse que estava na hora dele ir e que tudo ficaria bem, não lembro muito como acabou depois disso.

Sentado de onde estava podia ver que seu olho estava umedecido e automaticamente peguei sua mão, não sabia se estava fazendo o certo mas não conseguiria guardar apenas pra mim.

- Foi muito difícil imaginar que algo assim estava acontecendo mais uma vez. - Ela murmurou de forma baixa com a cabeça um pouco inclinada. - Eu estava com medo, era um sentimento que fazia doer, parecia que meu corpo por dentro tremia sem controle.

- Está tudo bem amor. - A vi levantar o olhar e algumas lágrimas rolarem por sua pele. - Não vou te deixar, se depender de mim estarei aqui por muito tempo.

- Não depende de nós. - Afirmou mas se aproximou como conseguia para me abraçar, a apoiei e abracei da melhor forma que conseguia. - Mas eu também estou aqui, pelo tempo que me for permitido.

- Eu te amo querida, nós estamos bem, eu estou aqui!

Naquele momento acho que as lágrimas que ela segurou durante este tempo tiveram livre permissão para rolarem. Nos ultimos meses eu passei a entender as nuances dos sentimentos da Ana, as pequenas coisas que a deixam de certa forma nostálgicas, algumas com tristeza outras com alegria e outras com dor.

Estamos criando uma nova história, a nossa história, mas o seu passado nunca será apagado, não é algo falado a todo instante mas sei que em certas situações trás certos sentimentos a ela, não é algo possível de esquecer apenas de conviver da melhor forma que conseguirmos, conversar e tornar isso algo comum na nossa vida faz parte para deixarmos tudo que tem que ficar em seu devido lugar.

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