Capítulo 23

11K 843 36
                                        

Francis Gorky

Acordei sem sentir minha garota ao meu lado, mas estava abraçado ao seu travesseiro que emanava o cheiro do seu shampoo.

Logo me lembro do que eu fiz e me sento na cama para então coçar a cabeça, me xingando mentalmente por ter sido tão idiota e me permitir ter uma recaída maldita.

Após tomar um longo banho e me vestir com uma roupa qualquer, voltei a me sentar na cama e encostei as costas na cabeceira, deixando que a culpa me consuma aos poucos.

Ouço batidas na porta e apoio a testa na palma da mão, me sentindo envergonhado e fútil.

– Francis? Eu posso entrar? – ouço a voz abafada e suave da minha Angeline. Penso antes de lhe responder, já que eu fui grosseiro com ela. Logo permito sua entrada, vendo a garota entrar com dificuldade por estar carregando uma bandeja com várias coisas.

– Bom dia, Fran. – ela diz com um sorriso tímido nos seus lábios carnudos, ao chegar no pé da cama, ela deixa a bandeja encima da mesma e se aproxima de mim, sentando ao meu lado.

Involuntariamente me afasto do seu corpo, olhando para a parede à minha frente para evitar olhar nos seus olhos curiosos e, provavelmente, que expressam seu arrependimento por ter se envolvido comigo.

– Eu fiz seu café da manhã, mas já adianto que não sou a melhor cozinheira do mundo. – ela diz dando uma risada baixinha e virando completamente para mim, antes de continuar a falar. – Nikolai saiu para comprar algumas coisas.

– Tem certeza que vai ficar sozinha com um monstro? – pergunto ainda sem olhar para ela.

– Monstro? Aonde? – ela pergunta e se levanta, logo se abaixando para olhar embaixo da cama.

– Você estava bem ao lado dele. – digo e me sento direito na cama, para ver melhor o que ela fazia.

– Hum, ele devia ser pequeno já que eu não vi. – diz voltando a se sentar ao meu lado, agora colada ao meu corpo.

– Garanto que não. – digo olhando para ela e vendo a garota encarar meu rosto, parecia pensativa.

– Eu sei que você passou por coisas difíceis que abalam você até hoje, eu entendo você e não quero te forçar ou apressar a nada. – ela diz e segura a minha mão, fazendo um carinho delicado.

– Eu realmente não quero falar sobre isso agora, Angeline. Não gosto de relembrar um passado que me assombra, prefiro ser outra pessoa e agir diferente. – finalmente digo, embora já pudesse sentir o arrependimento.

– Eu não quero que você seja outra pessoa, muito menos comigo. Já passei por coisas difíceis, assim como você e eu entendo a sua dor. Você não precisa mudar para ser aceito, acredite em mim. Eu deixei que me mudassem, que me moldassem como queriam e por isso aconteceu coisas horríveis comigo. Claro que não sou culpada, mas ainda sinto a dor. – ela diz e dá uma breve pausa. – Não mude quem você é, Fran. Eu quero você como é, quero ouvir suas histórias de como você soltava pipa com seu irmão ou como você jogava bola com ele, quero saber se você teve alguma paixão quando criança, se você brincou na lama como se não houvesse o amanhã, eu quero saber se você tomou banho de chuva e mesmo pegando um resfriado depois, não se arrependeu por nada. Seja você mesmo comigo, Francis. Por favor, divida a sua dor comigo.

Olho para seu rosto enquanto a ouço falar e acabo me lembrando de coisas boas da minha infância, por mais que fossem borrões.

Me lembro de como eu cortava todas as pipas do Nikolai, de como ele fazia gols quando jogávamos futebol, como sempre ficávamos com os joelhos machucados ou de como nos divertiamos num dia de chuva. Talvez o passado não fosse só uma assombração que me perseguia.

Brothers Must Divide Onde histórias criam vida. Descubra agora