Depois do péssimo encontro com Leo, Sam e eu não tivemos mais ânimo para ficar na cachoeira. Samuel saiu logo em seguida, estava angustiado e não parava de chorar, me afastou gentilmente e disse que precisava pensar um pouco sozinho. Não o impedi, apenas o deixei partir em silêncio, mas torci muito para que ele não fizesse nenhuma besteira.
Assim que Samuel se foi, me sentei no chão e fiquei observando a queda d'água, meu coração estava apertado e meus pensamentos fervilhavam. Não conseguia acreditar na maneira que Leo tratava a dor de Sam, ele era tão insensível, tão cruel, tão ridículo. Qual seria o sentido de chorar por um e aterrorizar o outro daquela forma? Eu simplesmente não conseguia entender. O cara gentil que me mostrou ser em nosso primeiro contato foi totalmente substituído pelo imbecil que vem demonstrando ser desde então. Todas suas lágrimas foram descredibilizadas em meu conceito, eu sei que não deveria subestimar sua dor, mas não poderia confiar nele. Fazia acusações sem sentidos, colocava a culpa de um acidente em alguém que tentou socorrer, apontava o dedo como um deus. Definitivamente, Leo não era alguém confiável.
Não sei por quanto tempo fiquei ali refletindo, mas meu estômago começou a roncar me lembrando que ainda não havia feito o desjejum. Peguei um fatia de bolo que havia na cesta e comi, assim terminei me levantei para ir embora, mas logo desisti da ideia e resolvi nadar, pra ser sincera eu esperava que talvez Samuel voltasse. Com a roupa do corpo mesmo, entrei na água e nadei até a cascata, a profundidade dali era maior do que a que eu estava habituada, além da força da correnteza, o que dificultava os movimentos. De repente tive a grande ideia de escalar as pedras ao redor da cascata e chegar ao topo da queda d'água, porém só me dei conta do quão infeliz era minha ideia no primeiro escorregão. Desabei violentamente na água e tive sorte de não bater em nenhuma pedra, depois que caí só me recordo de enroscar um dos meus pés em um tronco submerso e me debater em desespero enquanto me afogava. Meu peito queimava como brasa, meus membros doíam com o esforço em vão, até que por fim, minha vista escureceu e eu me entreguei a força da água.
— Carolina, acorda, reage...Carolina!
Não conseguia distinguir a voz, alguém me chamava, isso era fato, mas estava tão distante... meu peito doía, queimava, não sabia ao certo, não tinha controle nenhum sobre meus braços ou pernas, não conseguia abrir minhas pálpebras, pesavam uma tonelada. O que aconteceu comigo? Eu estava cansada, na verdade me sentia exausta, só precisava dormir um pouco...
— Carolina reage, por favor!
Novamente a voz me chamou, parecia desesperada, meu peito estava queimando ainda, dormir espantaria essa dor, por que não me deixava dormir?
Sinto uma pressão em meu peito, uma pressão ininterrupta, algo frio e macio toca meus lábios, forçando uma massa de ar contra minha garganta e mais uma vez a pressão sucessiva. De repente sinto uma vontade enorme de vomitar, o queimor sobe e se espalha. Toda a água que eu havia aspirado e ingerido retorna ao solo, minha consciência volta aos poucos, ouço um zumbido forte e uma tosse seguida de vômito me atinge; eu havia me afogado, agora me lembro, eu me afoguei próximo a cascata ao tentar subir.
— Você está bem? Graças à Deus você acordou!
A voz desesperada outra vez. Sinto seu toque firme em minhas costas, me apoiando e me incentivando a sentar. Meus olhos se abrem e finalmente encaro meu salvador, um rosto conhecido e olhos preocupados me fitavam. Ainda estava aérea e não o reconheci, meu corpo todo doía, meu tornozelo esquerdo latejava, minha garganta ardia e eu não tinha forças suficiente para articular algo. Eu só queria dormir e foi o que fiz, na verdade foi o que acho que fiz, porém provavelmente eu desmaei.
Acordei novamente e dessa vez com mais percepção do que ocorria a minha volta, eu estava... flutuando?
Não, não era isso, alguém me carregava. Abri os olhos e finalmente me dei conta de quem havia me tirado da água. Os olhos de antes eram claros e inquisitivos, nunca pensei que a pessoa que eu havia decidido em não confiar, tinha acabado de salvar a minha vida.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Agora eu quero partir
Romance"E foi com lágrimas nos olhos que eu os deixei partir..." Carolina, uma típica adolescente em seu último ano escolar e Samuel, um jovem misterioso que guarda um segredo muito doloroso sobre seu passado, capaz de fazê-lo tentar contra a própria vida...
