Após o almoço, Leo se despediu de mim com um breve beijo no topo da cabeça, encarou Samuel que se mostrava tenso e irritado. A calmaria do almoço se dissipou tão rápido que pensei ter imaginado os dois sentados na mesma mesa comendo juntos por alguns minutos. Talvez o meu plano fosse uma total perda de tempo e eu tive a certeza disso assim que Leo abriu a boca.
— Agradeço a tentativa Carolina, sei que fez tudo de bom coração. Eu prometi não o atacar e não o farei mais, porém eu não consigo fingir que está tudo bem — Leo virou as costas e saiu, sem que eu pudesse dizer algo.
Samuel manteve-se tenso com os olhos inflamados, respirou fundo e apoiou os cotovelos na mesa, recostando o queixo sobre suas mãos. Seus olhos marejaram e ele brigava contra as lágrimas. Estendi a mão até sua face e o afaguei.
— Vamos, eu te levo pra casa! — soltou de repente e eu não discuti, apenas concordei em silêncio.
Durante todo o caminho Samuel não disse uma palavra sequer. Alguma coisa o incomodava e eu não sabia o que era. Assim que chegamos, Samuel virou-se para mim e disse:
— Desculpe por hoje, mas o Leo tem razão. Nós nunca seremos uma família feliz de novo, não assim. Não há como fingir que não tem nada errado entre a gente.
Eu o ouvi calada, algo estava me incomodando na fala de ambos.
— Te vejo amanhã?— perguntou me encarando, sua face manteve-se inexpressiva.
— Claro, nos vemos de manhã.
Desci do carro e o observei ir embora, entrei e fui para o meu quarto.
Horas mais tarde antes de dormir, meu celular vibrou com uma mensagem de Leo. Notificação que eu não via há vários dias.
19:45 Desculpa por ter estragado seu plano...
19:46 Não entendo vocês, Leo. Hoje foi um dia tão bacana. Vocês estavam se dando tão bem, pareciam estar bem.
19:47 A ferida nem sempre é visível Car, eu sangrei em cada sorriso hoje. E por mais que pareça estar tudo bem, meu irmão continua o mesmo mentiroso de sempre. Eu queria, queria mesmo que tudo fosse como foi hoje, que nós pudéssemos estar bem como estivemos hoje, mas não dá.
19:48 Leo, que mentiras são essas?
19:49 Eu queria muito contar, mas eu não posso. Me desculpa.
19:50 Por que não?
19:51 Não estou me sentindo bem, Car. Boa noite
Pensei em diversas coisas antes de dormir, queria entender o que foi que eu havia deixado passar. Desde que me encontrei com Sam de manhã, ele me parecia bem, mais leve, ele havia mudado, eu não poderia estar enganada sobre isso. Mas então, o que estava errado?
No dia seguinte, assim que tia Anne saiu, corri para a cachoeira. Havia acordado decidida em descobrir exatamente o que tinha de errado na morte de Daniel. Passei a noite pensando em tudo e havia chegado a conclusão de que ambos escondiam algo nesse ponto. Quem estava escondendo e o que, eu iria descobrir hoje ou pelo menos tentar.
Deixei minha bicicleta na entrada da trilha e a desci, torcia internamente para que Samuel já estivesse ali, porém foi em vão, ele não estava na cachoeira. Fiquei sentada por alguns minutos, apenas observando o ambiente, porém minha cabeça fervilhava em interrogações. Resolvi ir até o roseiral e aproveitar a vista do meu presente, atravessei a margem jurando que em breve construiria uma jangada para não ter que entrar na água toda vez que quisesse ir ao campo de rosas. O frio era cortante.
Caminhei pela trilha e pela clareira com os pensamentos tão absortos que mal consegui aproveitar a caminhada, mas assim que avistei o balanço tudo se dissipou. Sam estava ali, tão distraído e tão imóvel que poderia dizer facilmente que se tratava de uma escultura.
— Não sabia que estava aqui — falei enquanto tocava levemente em seu ombro. Samuel me olhou assustado, tendo um pequeno tremor ao meu toque.
— Parece que tivemos a mesma ideia— continuei, notando que seus olhos estavam vermelhos.
— Veio espairecer também?—perguntou olhando as rosas e respirando fundo.
— Precisava liberar um pouco as interrogações que se acumularam. — disse assentindo, Sam limitou-se a sorrir, descendo o olhar para as mãos. Hoje ele usava novamente a pulseira de couro, porém não era a habitual Beta1803, mas sim a que havia deixado sobre o túmulo no outro dia e isso me deixou extremamente intrigada.
Sentei ao seu lado e ele pegou minha mão, acomodando-a entre as suas.
— Que tipo de interrogações te atormentam, Car? — perguntou enquanto cravava seu olhar triste sobre mim.
— Interrogações sobre você, sobre Leo, sobre isso — disse apontando o queixo e o olhar para a pulseira em seu pulso.
Sam ficou me encarando por alguns segundos, sua face era inexpressiva e seu olhar era melancólico, ele avaliava cada traço do meu rosto, como se quisesse decifrar o que se passava na minha cabeça e qual dúvida deveria sanar.
— Isso? É só uma pulseira Car, como eu já havia dito antes —respondeu olhando para o acessório.
— Você sabe que não é isso o que quero saber, Sam — retruquei.
— Eu sei — deu um meio sorriso triste.
— No dia que você desmaiou e ficou no quarto, eu sei que viu a foto sobre a mesa — começou contando, enquanto acariciava minha mão que ainda repousava entre as suas. — Você nunca me perguntou, mas sei que teve vontade e como você mesma viu, meu irmão e eu éramos gêmeos idênticos. Tão idênticos que as pessoas não muito próximas nos confundiam facilmente, na verdade até minha mãe nos confundia às vezes. Por isso quando éramos crianças, por volta dos nossos 7 anos minha mãe nos deu essas pulseiras, assim ficaria mais fácil de nos identificar, eu usava a minha no braço direito e meu irmão no esquerdo.
— E as inscrições?— perguntei após alguns segundos em silêncio.
— Quando fizemos 12 anos, resolvemos escrever algo nas placas, algo que fosse somente meu e dele. Entre nós, assim como acontece entre a maioria dos gêmeos, sempre houve um dominante e um passivo; ele era o dominante, ele sempre tomava a frente antes de mim, era como se ele abrisse o caminho para que eu pudesse passar. Por isso resolvemos colocar Alfa e Beta. Ele era o primeiro, o princípio e eu o que vinha depois — disse enquanto acarinhava minha mão com os polegares, sem tirar os olhos do adorno em seu braço.
— Agora entendo como significou para você levar ela ao túmulo — disse, mas olhando a pulseira perguntei — Mas por que ela está em seu braço agora?
— Leo jogou-a sobre mim essa manhã...
— Não acredito que ele fez isso!
— Ele teve razão, eu não deveria ter a deixado lá, não é o lugar dela — defendeu-o, o que me deixou um pouco cismada, Sam vinha dando muita razão a Leo ultimamente.
— Sam, falando sobre ele... Por que você e o Leo vivem brigando?— perguntei, tentando não transparecer minha cisma.
— Sobre isso, eu não posso te responder, mesmo que você insista. Eu gostaria muito de te contar ou de falar que é por uma bobagem de irmãos, mas não posso Car e isso me rasga por dentro, acredite. — respondeu com os olhos brilhando pelas lágrimas.
Fiquei paralisada, não era de perto a resposta que eu gostaria de ouvir, esperava que ele me dissesse alguma coisa. Mas assim como Leo, Sam era inflexível referente a esse assunto. O que cada vez mais, me fazia crer que a morte do Daniel poderia não ter sido simplesmente acidental e pensar nisso me deu uma vontade gigantesca de fugir, correr o mais longe que eu pudesse.
Mas eu não o fiz.
Samuel soltou minha mão, que segurava com tanta delicadeza e me abraçou:
— Um dia eu prometo te contar tudo, Car. Você será a primeira a saber, eu prometo.
Continuei em silêncio, afinal, o que eu poderia dizer?
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Agora eu quero partir
Romance"E foi com lágrimas nos olhos que eu os deixei partir..." Carolina, uma típica adolescente em seu último ano escolar e Samuel, um jovem misterioso que guarda um segredo muito doloroso sobre seu passado, capaz de fazê-lo tentar contra a própria vida...
