Samuel ficou um tempo fitando a água, seu semblante parecia um pouco menos rígido que antes, mas a dor ainda era visível. Meu coração estava muito apertado, precisava pensar urgente em alguma maneira de ajudá-lo. Ele apenas olhava para água. Mantemos esse silêncio por alguns minutos, de repente me dei conta da hora, meu estômago resolveu se manifestar, fazendo um barulho bem audível.
— Acho que já está na hora de você ir pra casa — Samuel disse isso muito calmamente e com um sorriso triste e forçado virou-se para mim.
— É, acho que sim — levantei-me e peguei minha mochila. — Ah, obrigada pelo casaco ontem, irei lavá-lo antes de te devolver. —lembrei-me de dizer, havia deixado no chão do banheiro na noite passada, precisava limpar aquela mancha de sangue antes que tinha Anne o encontrasse e me fizesse perguntas.
— Tudo bem, não se preocupe — apenas me respondeu, ainda sem se mover.
— Você vai ficar bem? — perguntei um pouco hesitante, a partir de agora eu me preocuparia com ele. Saber que inconscientemente pude salvá-lo me deixou pensativa. Eu queria muito ajudá-lo a superar essa dor e seguir em frente.
—Vou tentar! Obrigado Car, obrigado mesmo, por isso e por ontem.—dizendo isso, ele se levantou e me estendeu a mão — Te vejo amanhã?
Fitei-o por alguns segundos, sei que estava demonstrando minha confusão mas não pude conter. Apenas apertei sua mão e assenti.
— Claro! Te vejo amanhã — soltei-me e me virei para pegar a trilha.
Como sempre, minha bicicleta estava onde eu havia deixado, atrás da primeira árvore na entrada da trilha pra estrada. Peguei-a e segui meu caminho; durante todo o trajeto fiquei pensando em tudo que Samuel havia me contado, ele passou por coisas horríveis e sabe-se Deus quantas vezes ele já não tentou tirar a própria vida e quantas mais ele poderá tentar. Não posso deixar isso acontecer, considerava-o como um grande amigo já, mesmo tendo nos conhecido a pouco tempo, senti desde o início uma empatia muito grande por ele.
Nesse dia, como não fui pra escola, precisava pensar em algum modo de não deixar tia Anne saber que eu havia faltado. Entrei em meu quarto, peguei o casaco e fui lavá-lo. Tia Anne só chegaria mais tarde, portanto teria tempo para pensar em alguma coisa.
Ás 18 horas tia Anne chegou, eu estava escondida na varanda, pois como minha aula acabava ás 18 horas também, geralmente eu chegava ás 18:30. Tia Anne subiu para o banho, saí para rua e fingi que chegava naquela hora. Gritei-a ao abrir a porta e ela respondeu, portanto, problema resolvido por ora!
No jantar resolvi perguntar a tia Anne, se ela conhecia os moradores da área sul.
— Conheço alguns, algumas famílias são novas por aqui e outras já eram antigas quando me mudei, mas muitos são clientes fiés da floricultura — respondeu-me distraidamente enquanto cortava seus legumes no prato.
— Você conhece alguma família, que tenha três filhos, da minha idade aproximadamente?— por um instante percebi que não sabia o sobrenome de Samuel, o que me deixou levemente frustrada.
— Por que está me perguntando sobre isso Carolina?!— indagou com uma certa desconfiança, elevando sua sombrancelha esquerda — Só estou curiosa sobre um garoto da minha classe; Samuel. — torci para que tia Anne não notasse a mentira, pois nem sabia se Samuel frequentava o colégio.
— Entendo! Bom, você provavelmente está falando dos Mander's. Henrique Mander, sempre comprava flores pra sua esposa, Alice, mas agora já faz uns anos que não visita a loja. Eles tem três filhos, Samuel, Daniel e Leo. Os vi algumas vezes, mas também já não os vejo a muito tempo. Dizem que o mais velho se tornou um revoltado e vive drogado por aí, depois do acidente de um dos irmãos.
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Agora eu quero partir
Romance"E foi com lágrimas nos olhos que eu os deixei partir..." Carolina, uma típica adolescente em seu último ano escolar e Samuel, um jovem misterioso que guarda um segredo muito doloroso sobre seu passado, capaz de fazê-lo tentar contra a própria vida...
