Não consigo encontrar palavras adequadas para descrever o quão destruída eu estava por dentro. A sensação era de que alguém havia explodido meus orgãos internos, deixando apenas um buraco grande e vazio no lugar.
Vazio talvez fosse a palavra e sensação que mais se aproximava do que eu estava sentindo.
Eu estive em uma montanha russa por meses e só agora podia me dar conta. Eu comecei a jornada apreensiva, curiosa, com muito medo. Fui os conhecendo e gostando aos poucos, até que cheguei ao ápice, no qual a euforia e alegria dominavam, no entanto a queda veio em seguida, rápida e desoladora. E eu me vi implorando por mais alguns momentos bons.
Eu não somente havia perdido um, mas sim dois grandes amores. Leo era meu melhor amigo, foi o pilar em qual me apoiei por tantas vezes. Foi quem cuidou de mim e de quem eu cuidei e acalentei, ao vê-lo entrar naquele carro e imaginar que talvez tenha sido a última vez que o via, ecoava o vazio em meu peito. Já o Sam, foi a bomba que deu início ao estrago, ele era meu príncipe, o dono do meu sorriso, minhas lágrimas mais sinceras, meu amor. Ele foi quem me ensinou a voar, mas ao partir atirou em minhas asas, me obrigando a caminhar por um solo inexistente. Eu estava me afogando, afogando no poço de lágrimas e dor que havia sido formado ao meu redor.
A dor de perder alguém que nunca mais irá voltar é diferente da dor de perder alguém que você não sabe se voltará. Pois o pior sentimento é o da incerteza, o talvez é o maior castigo de quem anseia por uma resposta. Nós aprendemos a lidar bem com o não ou com sim, mas o talvez está além de nossa aceitação. Nunca fomos ensinados a passar por ele.
Depois que Leo me deixou em casa, eu me arrastei ao meu quarto e simplesmente me afundei na cama. Eu me afundei desejando não mais levantar, queria apenas entrar e entrar, sem sair dali. Não queria encarar uma realidade em que os dois não pudessem compartilhar comigo.
Eu ainda mantinha o casaco do Leo em meus ombros e sentir o seu cheiro me fez chorar ainda mais. E só quando me encolhi em posição fetal, foi que percebi que ainda segurava a carta que Sam me deixou antes de ir. A carta em que havia respostas, a carta em que havia motivos, uma carta que talvez eu pudesse odiar.
Ao abrir o envelope, percebi que não havia só uma carta, mas junto da folha dobrada estava a pulseira de couro do Sam, Beta1803. Desdobrei o papel e tive que mais uma vez engolir o choro ao ver a caligrafia dele. A carta era enorme!
Li-a com muita dificuldade, pois estava perdida sobre o que pensar, não conseguia compreender direito o que cada palavra significava, além do mais, minha visão estava toda embaçada pelas lágrimas que não paravam de cair e descer pelo meu rosto.
Carolina,
Parece que se tornou comum eu te escrever em momentos em que estou indo embora. Me sinto horrível por isso, mas não sei se serei capaz de te dizer tudo o que desejo cara a cara. Não sei se conseguirei ir em frente se te ver chorar, acho que terei que ser muito forte para não desistir de fazer o que eu preciso.
Acho que para começar, eu deveria te dizer o porquê de eu ter tomado essa decisão. Uma das mais difícies que eu já tive que tomar. Quando tentei me suicidar, nas diversas vezes, eu não estava pensando, a maioria foi por impulso, foi em um momento de dor extrema em que eu só queria sufocar o sofrimento mais rapidamente. Mas a decisão de hoje, foi pensada, planejada e visualizada, milhares e milhares de vezes e em todas elas eu me senti péssimo e inútil por ter que me afastar de você intencionalmente.
Eu sempre te disse que eu me sentia perdido e nunca menti sobre isso. Eu me perdi, me perdi completamente, meu irmão partiu e levou com ele tudo o que eu tinha de bom. Ele se foi e eu fui junto dele, metade de mim está debaixo daquela lápide, eu perdi meu mundo todo com ele. Vivi 15 anos com alguém, 15 anos em que eu dividi tudo, desde o ventre da minha mãe às pequenas coisas da vida como um bolo de aniversário ou um café da manhã. E de repente, eu me vi sozinho, sem tê-lo ao meu lado pra dizer que estava tudo bem, sem ele para me dar a mão e realizar as coisas comigo. Eu tive que reaprender a caminhar e a viver, mas tudo sozinho e como você sabe, eu não me saí muito bem em minha jornada solitária.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Agora eu quero partir
Romance"E foi com lágrimas nos olhos que eu os deixei partir..." Carolina, uma típica adolescente em seu último ano escolar e Samuel, um jovem misterioso que guarda um segredo muito doloroso sobre seu passado, capaz de fazê-lo tentar contra a própria vida...
