Ao se aproximar da cozinha, cada passo que tia Anne dava era como se fosse uma flecha sendo atirada em meu corpo. Eu estava em choque. O que faria agora? Seria esse o momento adequado para fingir um desmaio, uma queda de pressão? Ela iria me mandar para casa de vez, com certeza.
— Carolina agora que estamos a sós, gostaria que fosse sincera comigo —tia Anne me olhava com uma expressão chateada — Você poderia me contar tudo o que aconteceu entre vocês, até o acidente de hoje?—continuou, ela me olhava diretamente e eu não conseguia distinguir se estava muito brava comigo ou decepcionada.
Fiquei em silêncio por alguns instantes, não por opção, mas por não conseguir formular algo coerente. Tia Anne estava decepcionada comigo, não estava nervosa, apenas chateada, pude finalmente entender sua expressão que ficava cada vez mais nítida com minha hesitação.
— Eu já sei que você se encontra com o Samuel quase que diariamente e que não é no colégio, contudo, infelizmente não soube por você. Mas agora que sei, gostaria de ouvir a sua versão — disse ainda me encarando.
Eu não sabia o que dizer, não poderia graduar o quanto ela sabia e nem especular por quem ela soube. Mentir dessa vez não era uma opção, portanto dizer a verdade era o que me restava.
— Eu o conheci a um tempo atrás por pura coincidência — comecei dizendo, avaliando o que seria importante ou não dizer — Ele não estava bem, no primeiro encontro ele não me viu e eu fiquei apenas o observando, no segundo eu tentei me aproximar, ele precisava e precisa de muita ajuda, não pude ignorar e por isso continuei me encontrando com ele, nos tornamos amigos. Eu só quero ajudá-lo. A morte do irmão gêmeo o destruiu emocionalmente, eu como irmã não consigo imaginar a dor que ele sente — agora eu podia encará-la. Tia Anne apenas me observava em silêncio, mas seu olhar me demonstrava preocupação.
— Eu sei que esconder as coisas de você não foi legal e nem correto, me sinto culpada por isso e espero que perdoe. No entanto, se eu tivesse dito a verdade antes, você teria me proibido de sair e de vê-lo e eu não queria me afastar dele, na verdade eu ainda não quero, eu preciso ajudá-lo de alguma forma. Te imploro, por favor, não me proíba de me encontrar com ele ou me mande pra casa — estendi minha mão em direção a dela e a afaguei, ela não se afastou.
— Eu teria feito exatamente isso —retrucou ainda me encarando — Mas depois de hoje... — seus olhos se encheram de lágrimas de repente — Eu nunca imaginei que receberia uma ligação pessoal da Alice Mander.
— O que? A mãe do Samuel te ligou?— perguntei incrédula, sentindo minhas pernas tremerem.
— Sim, recebi uma ligação dela. Nunca fomos amigas, a conheci a primeira vez por intermédio de uma amiga em comum em um café. Isso foi há 3 anos. Ela falava dos filhos com orgulho, como eram talentosos e inteligentes, deu pra ver como era uma mãe amorosa. Passamos uma tarde agradável, mas depois disso nos vimos poucas vezes, nada além de cumprimentos, até o acidente quando ela e a família se tornaram reclusos. Então, quando recebi uma ligação dela hoje, querendo falar comigo, jamais pude imaginar que seria sobre você.
— Sobre mim? Ela queria falar sobre mim?— indaguei confusa.
— Alice primeiramente me contou sobre os filhos. Desde que um dos gêmeos se foi o outro nunca mais foi o mesmo. Ela me falou sobre Samuel, como tem sido difícil esses anos para ele e para todos, me falou sobre as tentativas de suicídios, os surtos, a reclusão. E quando ela falou sobre isso, eu me lembrei de mim e de sua mãe.
— Ahn? Eu não estou entendendo nada, tia..
— Carol, sua mãe e eu, somos trigêmeas na verdade. Quando éramos crianças, por volta de nossos 2 anos perdemos uma irmã em um acidente doméstico, não me lembro muito, apenas que ela caiu da escada e nunca mais voltou para casa — a expressão de tia Anne mudou instantaneamente, tornando-se triste e distante.
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Agora eu quero partir
Romansa"E foi com lágrimas nos olhos que eu os deixei partir..." Carolina, uma típica adolescente em seu último ano escolar e Samuel, um jovem misterioso que guarda um segredo muito doloroso sobre seu passado, capaz de fazê-lo tentar contra a própria vida...
