Capítulo 19

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Mágoas


Dor? Necessito saber o porquê de gostar tanto da minha companhia? Pois, sempre volta. Não importa se o intervalo de tempo é curto ou grande. Você sempre retorna. E nunca da mesma forma. Geralmente mais forte, mais avassaladora, mais destruidora.

Questiono-me o que fiz de tão ruim para merecer o seu apreço. Imediatamente as memórias, as quais, tento esquecer, lembram-me da resposta. Ah! Vida... Se sabia que meus dias seriam assim, porque permitiu a minha vinda a este mundo? Porquê...

Fecho os olhos sendo tomado pelo profundo breu. O meu amigo de velhos tempos que nunca me abandonou. Talvez eu esteja mesmo condenado à amargura. Não entendo porque ainda não me acostumei a essa porcaria...

— Vamos, Eric! — A voz da Alícia soa do outro lado da porta.

Abro os olhos e forço-me a levantar da cama. Passo pela porta e saio pelo corredor, movimentado minutos atrás. Normalmente antes de sair, eu daria uma última espiadinha no espelho. Entretanto, como não estou a fim de ver o meu real estado, para o meu próprio bem, não olho.

✯✯✯

Homens e mulheres, grande maioria de classe alta, desfilam com seus ternos e vestidos chiques. Enquanto eu, apenas permaneço escorado na parede mais ao fundo, fingindo estar prestando atenção no que Camille conta empolgada para Alícia, tentando parecer tão normal quanto os outros.

Novamente, sem me dar conta, estou passando os olhos no emaranhado de pessoas à procura do rosto familiar que não vejo há quase três semanas. Encontro-me praticamente escondido, não querendo que ele me aviste. O que é quase impossível, já que a festa é de comemoração a mais um ano produtivo da empresa dele.

Quando a Alícia fez o convite, avisando querer todos presentes na festa de comemoração da empresa onde trabalha, imediatamente pensei em não vir. E essa vontade aumentou quando ela falou o nome do lugar. Advocacia Howard.

Porém, para agradá-la e não quebrar o seu momento de felicidade, disse que viria. E aqui estou. Sentindo-me pior do que antes. Volto os olhos para John que me observa preocupado. Lanço-lhe um sorriso, tentando não transparecer meu abatimento. Ele sorri de volta, ainda desconfiado.

Semanas atrás, Alícia descobriu quem era o culpado, ou melhor, a culpada pelo aumento repentino dos seus afazeres no trabalho. Uma das suas colegas, responsável por repassar as finanças importantes, estava dando a ela mais serviço que os demais.

Bastou a Alícia abrir os olhos, e descobriu toda a trama da moça para tomar o seu lugar na empresa. Ela relatou ao chefe, Maizom, e ele demitiu a funcionária de péssimo caráter.

Os murmúrios de vozes baixas sendo pronunciadas, se calam com o “boa noite” vindo do palco à frente. As atenções são voltadas para o baixo senhor de cabelos grisalhos, trajado com um terno cinza.

— A reunião desta noite, caros funcionários, clientes e amigos é para comemorar mais um ano de existência da empresa Howard. Apesar de algumas dificuldades, os lucros se sobressaíram. Tornando este ano, o mais produtivo de todos. Nos colocando entre as maiores empresas nacionais e estrangeiras...

E outra vez, me perco em pensamentos.

Sentado na frente do portão, com o rosto pressionado entre as grades, a pequena criança observa o fluxo de poucas pessoas e carros. Seus olhinhos, tão negros quanto a noite, tomados de esperança, vagam de mulher em mulher aguardando que uma delas se aproxime e o leve para casa.

Regresso à realidade pelo som de palmas.

— Obrigado a todos! Agora vamos ouvir algumas palavras do Sr. Howard.

Te Guiando No SubúrbioOnde histórias criam vida. Descubra agora