Capítulo 21

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Coragem insana

Fecho os olhos e abro os braços, permitindo o vento gélido passar por entre ambos.

— Essa roupa tá me deixando afeminado demais. — Balbucia David pela vigésima sexta vez.

— Efeito do álcool. — Torno a repetir. — E você não, é? — Resolvo provocar um pouquinho.

Seus olhos azuis fixam em mim, com as pupilas dilatando à medida que os segundos esvaem.

— Me respeite! Sou ativo.

Gargalho alto.

— Ok, ativo. — E ele volta a implicar com a roupa.

Milhares de luzinhas amareladas, brancas e azuis somem em meio ao breu da noite. Vista privilegiada para admirar, estando a mais de quinze metros do chão, com uma boa bebida cortando goela adentro.

No céu, há somente metade de um círculo, parecido com a letra C, marcado pela perda de luminosidade. É, dona Lua, mesmo com o brilho ofuscado, você ainda é graciosa.

— Oi. — Diz David ao atender o telefone, me trazendo de volta a realidade.

Sua voz soa diferente e isso atrai a minha atenção. Pronuncia poucas palavras que aparentam terem sido muito bem selecionadas.

— Hum... Tá, bom. Tchau!

Encerra a chamada com um risinho que conheço bem. Seus olhos cintilantes param em mim, que o encara.

— O quê? — Joga um dos braços na baixa grade que range alto, dando um gole na bebida.

— Nada. — Volto a contemplar a cidade abaixo.

Ficamos longos minutos imersos no profundo silêncio, apenas ouvindo o cantar dos grilos e alguns outros animais que não sei identificar.

— Acho que sua praga me pegou. — Ironiza.

— Qual delas? — Coloco a garrafa, no chão de ferro, com quase metade do líquido âmbar dentro.

Vez ou outra, o enorme reservatório que armazenava a água da cidade, solta alguns ruídos ásperos. Só espero que não vá cair, não com nós dois aqui em cima.

“Cuidado que um dia alguém rapta esse coração vagabundo”.

Encaro-o, tentando reprimir o riso. O efeito de embriaguez é notório em David. Caso estivesse sóbrio, ele jamais tocaria neste assunto comigo. E saber que ele irá se arrepender no dia seguinte, me dá uma vontade colossal de rir.

— Diz, aí, quem foi? — Transpareço não estar interessado em querer saber quem é a pessoa.

— Um certo advogado.

Meu corpo gela. Perplexo, fuzilo-o com o olhar. David me encara começando a rir desenfreado.

— Não tem graça. — Desfiro um soco proposital em seu ombro, com certa força.

— Tem sim. — Retruca entre risos, massageando de leve o lugar acertado.

— É um dos seguranças da patroa. — Confessa.

Te Guiando No SubúrbioOnde histórias criam vida. Descubra agora