Pequenas mudanças
Levo as mãos para trás do pescoço, passando os dedos pelo colar. Encontro o feche e abro-o. Devida a tremedeira constante, levei um tempo para finalmente retirar.
Coloco-o sobre a palma da mão, passando a encará-lo. O desenho assimétrico do coração marcado por um vermelho intenso, desperta-me a vontade, da qual nunca poderei saciar. Conhecer a mulher que me deu ele.
Ponho-o na palma da mão esquerda, passando os dedos sobre as ondulações da junção das letras que forma o nome, "Eric", enquanto uma lágrima me escapa.
Dói. Dói muito ter que guardá-lo. Porém, machuca mais ainda, tê-lo perto. Não foi fácil me livrar de toda a raiva, da revolta por ser largado na porta de um orfanato e perdoá-la. Hoje não a culpo de nada.
No início, tinha esperanças de que alguém apareceria e me levaria embora. No entanto, conforme o tempo passava, percebi que ninguém viria. Tive de aceitar que fui descartado como lixo.
Daí em diante, passei a odiar a minha mãe. De quem quer que fosse que tivesse o sangue Evans nas veias.
Passei longos anos revoltado e com um buraco no peito. Mas nada disso adiantou, eu apenas me machucava com pensamentos de que fui um peso para ela e, por isso, me deixou aqui.
Conforme ia envelhecendo, a maturidade surgia aos pouquinhos e fui percebendo que ter raiva de Eleonor Evans, não faria a dor do abandono sumir.
Eu precisava encontrá-la e saber o porquê de ela não ter ficado comigo e somente assim, ficarei em paz. Preciso saber se foi minha culpa ou não. Se arruinei a sua vida. Se a atrasei em algo. Por que nunca me procurou? Por que fez isso....
Há grandes chances de eu nunca ter essas respostas, e terei de conviver com isso.
— Estou desistindo de você, mamãe. Era isso que a senhora queria. Que eu a esquecesse, assim como fez comigo.
Ponho o colar no pequeno estojo de veludo vermelho e fecho-o com certa força. O estalo das partes plásticas se chocando, ecoa.
— Adeus, mamãe! — Sussurro entre lágrimas
✯✯✯
Estirado sobre a cama, sinto algo vibrar no bolso. Pego o celular e leio a mensagem.
Ele: Estou imerso no mundo da solidão.
Sorrindo, nego com a cabeça. Se não soubesse do que Maizom está se referindo, certamente me preocuparia.
Eu: O que posso fazer para te tirar dele?
Ele: Estava pensando em ter companhia...
Mordo o lábio evitando o riso.
Eu: 15 min estou aí
Ele: Posso acelerar a sua vinda. Não quer que eu mande alguém te buscar?
Eu: O Sr. aguenta esses minutinhos de espera ;)
Pego uma blusa no guarda-roupa e disparo pela casa, chegando no portão em poucos minutos. Gosto quando o clima está meio gélido. Consigo traz uma brisa agradável que adoro sentir. Mesmo deixando as minhas bochechas e nariz, gelados.
Nunca me canso de admirar as construções de concreto à noite. Elas se tornam mais exuberantes e brilhantes devido à iluminação. Um verdadeiro atrativo para os olhos. Na cidade não chega a nevar, porém costuma atingir sensações térmicas baixíssimas.
A única coisa preocupante são os animais de rua e as pessoas sem moradias. Ambas não possuem meios para se protegerem do frio. O que acaba resultando em mortes. Muita gente costuma doar, inclusive eu, casacos e cobrir os animais. Grande maioria, encontrados encolhidos em cantos tentando reter calor.
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Te Guiando No Subúrbio
Romance🏆 Vencedor do THE WATTYS 2022 Abandonado recém-nascido em um orfanato, Eric Evans aventura-se por toda a cidade através de buscas incessantes e muitas vezes perigosas, tendo que lidar com a frustrante falta de pistas concretas que possam levá-lo a...
