Capítulo IV

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Afrodite

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Afrodite

— Eu não posso fazer isso, Afrodite.

Perséfone segurava minhas mãos com firmeza, os dedos delicados manchados pela romã que acabávamos de dividir. Eu suspirei pesadamente e me desvencilhei de seu toque. Levantei-me da cama e me afastei de braços cruzados.

A manhã estava clara e fresca, como sempre ficava quando minha melhor amiga vinha visitar o reino mortal. A brisa salgada da maresia preenchia o apartamento recém-comprado no litoral de Atenas.

— É claro que pode, Persie! — insisti, mas já sabia que seria inútil. — Você está é com medo!

Nas longas semanas de pesquisa, leitura e suborno, fiz apenas uma descoberta relevante – uma possível forma de recuperar meus poderes era através de um sacríficio. Se eu abrisse mão da mortalidade, então, minha melhor amiga poderia devolver minha divindade. Afinal de contas, ela governava o reino dos mortos junto com Hades.

Perséfone me alcançou e olhou nos meus olhos com seriedade. Seus cabelos acobreados cascateavam sobre seus ombros e emolduravam seu rosto de coração. Em sua expressão, nada além de honesta vulnerabilidade. Naquele momento ela me lembrou a inocente deusa da primavera que fora há milênios, antes de se casar com Hades e tornar-se a rainha do submundo.

— O que você está propondo é loucura. Não é assim que os sacrifícios funcionam — ela segurou meu rosto com ternura. — Mas você sabe muito bem que, por você, eu faria, se fosse possível.

Baixei os olhos. Eu sabia.

— Eu não sei mais o que fazer... — sussurrei. Minha voz soou mais desesperada do que eu planejava deixar transparecer.

— Já pensou em conversar com Ares? Ele pode interceder com Zeus a seu favor.

— Você sabe que as coisas não andam boas entre nós há muitos séculos — dei de ombros. — Você devia ter visto a cara de ódio que ele fez logo antes da minha queda. E não era ódio de Zeus.

— Ares está sempre com cara de ódio, Afrodite, ele é o deus da guerra — revirou os olhos e, então, garantiu: — Está bem, vou continuar pesquisando. Te mando notícias assim que possível. Até lá, fique quieta.

Eu a abracei e agradeci. O mundo mortal não era ruim. Mas eu sentia falta de casa. E, mais ainda, dos meus poderes e privilégios. Além disso, ainda estava irada com Zeus pelo ultraje.

Algum tempo depois, ela disse que precisava ir. Desde seu casamento, Perséfone passava metade do ano no Olimpo, com sua mãe e os outros deuses, e a outra metade no submundo, com Hades. Depois de tantos milênios, ela transitava livremente entre os dois, mas não poderia desaparecer de ambos por muito tempo. Eu fiz uma careta e nós rimos juntas enquanto nos despedimos. Antes que ela se fosse, entretanto, tomei coragem e fiz uma pergunta que não fazia há muito tempo:

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