Capítulo XII

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Afrodite

Loki estava pálido. Mais do que eu jamais o vira antes. A expressão dura como pedra. Seu peito subia e descia com a respiração regular, mas eu podia ver o líquido dentro da garrafa de whisky em sua mão oscilando discretamente. Ele estava tremendo.

Ele se levantou do sofá devagar, levando a mão livre à lateral do corpo num reflexo. Uma fina camada de suor brilhava em sua testa contra a luz do sol da tarde. Dei um passo automático em sua direção.

— Não — disse, a voz completamente desprovida de emoção.

Franzi o cenho. A frieza de seu tom me atingiu como uma ferroada, dolorida e incômoda, e eu parei onde estava.

Seus olhos encontraram os meus. Desde a saída repentina de Thor, minutos antes, era a primeira vez que Loki olhava diretamente para mim. E algo naquele olhar fez um calafrio percorrer minhas costas. Por baixo do semblante endurecido e das íris esverdeadas, pairava uma onda sombria, nebulosa e revolta.

— Você não devia ter interferido — falou resoluto, com os maxilares cerrados.

— Eu...

— Afrodite — ele fechou os olhos e suspirou pesadamente —, não.

Encarei-o por um segundo, sentindo um misto de ressentimento e confusão. Com a raiva eu saberia lidar. Mais do que isso, estava pronta para ela. Mas sua gélida resignação era inesperada, e me chocou a ponto de me deixar sem reação.

Sem mais nenhuma palavra, eu me virei e saí.

***

Fechei o livro em minhas mãos e deixei-o com um arranco sobre a mesinha de cabeceira. Era a terceira vez que eu lia a mesma página, mas não registrava uma frase sequer. Minha mente vagando traiçoeira por caminhos não autorizados.

Eu estava dividida. Não via Loki desde o dia anterior, após o intenso conflito com Thor e sua inesperada reação de descaso. Uma parte de mim estava furiosa. Passara a noite revirando nos lençóis, inconformada com sua frieza e ingratidão. O que eu poderia ter feito? Deixar que os dois trogloditas destruíssem a casa e, quem sabe, o resto da ilha de Creta? Se eles quisessem se matar, que fossem para o quintal de seu próprio país.

Por outro lado, mesmo sem querer, eu estava preocupada com Loki. O encontro com o irmão havia deixado-o claramente abalado, muito mais do que eu provavelmente percebi. As palavras de Thor foram cruéis, verdadeiras ou não. E Baldur era a única pessoa com quem eu tinha certeza que Loki se importava.

E, para completar, estava brava comigo mesma. Eu havia me permitido perder o foco, me deixei envolver por Loki, seus jogos e suas tramas, esquecendo o mais importante – recuperar minha imortalidade. A vontade era arrumar minhas coisas e ir embora dali imediatamente. Mas ele ainda era minha melhor chance nesse empreendimento e, afinal de contas, eu tinha prometido ajudá-lo a tomar o trono de Asgard.

Espreguicei-me e apertei as têmporas que latejavam num ritmo chato e constante. A humanidade era cansativa. O sol da manhã entrava pela enorme porta aberta da varanda do meu quarto junto com o aroma pungente da água salgada. O mar lá embaixo estava calmo, os recifes de corais tingindo a água de diferentes tons de azul. Meu coração apertou com saudade de casa.

Meus pés descalços me levaram para fora como que por vontade própria. Tomei a escada externa até o térreo, atravessei o curto gramado até a outra escada, de pedra. A sensação do material áspero sob minha pele era reconfortante. Desci mais alguns lances até um píer que se projetava um pouco além da margem íngreme. Perguntei-me por um segundo o porquê de nunca ter ido até ali antes.

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