Afrodite é a deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade. Loki é o deus nórdico da trapaça e da enganação. Um não poderia ser mais diferente do outro. Porém, quando Afrodite se descobre sem poderes e banida do Olimpo nos dias atuais, Loki vê nel...
Resmungos indistintos e risadinhas descontraídas. Conversas em voz baixa entre vozes conhecidas, cada vez mais próximas. Um doce aroma de néctar recém colhido. O burburinho aumentou gradativamente enquanto, pouco a pouco, os Deuses do Olimpo preenchiam seus lugares no salão.
Alguns cumprimentavam Perséfone quando chegavam, outros nem se davam ao trabalho. Pude ouvir quando um homem jogou-se no assento em que eu me escondia e resfolegou alto. Na pressa para me esconder, acabei esquecendo que aquele era o lugar de Hefesto, meu ex marido. Prendi a respiração e me apertei ainda mais contra as costas da cadeira, se é que era possível. De soslaio, conseguia ver Loki vagamente, também imóvel. Segurei o caule da papoula com firmeza, tentando fazê-la parar de tremer.
— Eu precisei resolver algumas... questões — Zeus respondeu da porta. Os passos firmes de Hera encaminhando-se em silêncio para seu lugar.
Alguns risinhos atrevidos soaram entre os presentes, mas pararam abruptamente. Interpretei que tinham sido repreendidos por um olhar severo de Zeus. Ou, mais provável, Hera.
— Bom — o deus pigarreou —, podemos começar? Estão todos aqui?
— Ainda falta Ares — ouvi Atena do outro lado do salão, a voz desdenhosa.
Como se estivesse apenas esperando a deixa, passos pesados soaram à porta. O barulho de metal reverberando contra o mármore. Ares com certeza estaria vestindo sua roupa de batalha, a impressionante armadura de latão, o peitoral musculoso à mostra. O elmo sem viseira ornamentado com uma crista vermelho sangue. O silêncio se espalhou pelo ambiente.
Meu coração, já disparado, martelava minhas costelas. Um calafrio de horror e ódio percorreu minha espinha. Olhei para o lado. Loki me encarava com um sorriso petulante. Lançou-me uma piscadela e eu revirei os olhos, sentindo meus ombros se descontrairem levemente.
— Agora podemos começar — indicou Ares, ignorando a tensão palpável na sala.
Ele não era invencível, nem muito estratégico, mas era instável e fervoroso, o que fazia dele perigoso quando se tratava de seu assunto preferido – guerra. Também o tornava um dos deuses menos bem quistos entre os olimpianos.
— Ótimo — Zeus quebrou o silêncio. — Reunimos este conselho hoje para discutirmos os preparativos oficiais para a guerra contra Asgard — ele disse, encaminhando-se para seu lugar. Ares permaneceu de pé.
— Achei que você ainda não tivesse tomado sua decisão — Dionísio, meu antigo companheiro de vinho, contestou em um dos assentos perto de mim.
— Tomei recentemente — ele respondeu categórico. — Não podemos deixar uma ofensa contra uma de nós sem retaliação — mentiu descaradamente. Eu sabia muito bem que não era por isso que ele estava aceitando a guerra.
— Nesse caso — Atena interveio —, nós não devíamos ouvir o testemunho de Afrodite a respeito dessa ofensa antes de iniciarmos de fato uma batalha?
Assim como Ares, ela era a deusa da guerra. Mas sua especialidade era a tática inteligente e sensata.
Não pude conter um sorriso quando murmúrios de concordância se propagaram entre os presentes. Zeus hesitou por um curto momento.
— O banimento não será revogado — falou na defensiva. — O crime contra ela não apaga o crime dela contra mim.
Conversas paralelas romperam aos poucos, algumas a favor, outras contra a decisão do rei dos deuses. A curiosidade me corroendo por dentro. Ares permanecia completamente calado, o que me preocupava ainda mais. Eu precisava que ele estivesse inflamado de raiva para interferir, pois seria seu momento mais vulnerável e suscetível à confissões.
Uma voz delicada limpou a garganta, chamando a atenção de todos. Meus olhos se arregalaram no mesmo instante. Perséfone, apesar de muito poderosa e rainha legítima do submundo, nunca se pronunciava nessas reuniões a menos que fosse algo referente ao seu próprio domínio.
— Acontece que não houve ofensa — ela falou com tranquilidade. Os deuses em silêncio, tão surpresos quanto eu. — Eu estive com Afrodite recentemente, e ela me garantiu que tudo não passou de um mal entendido. Asgard não ofendeu o Olimpo.
A conversa paralela ressurgiu mais alta dessa vez. Meu coração pareceu inchar de emoção e nervosismo. Perséfone estava quebrando seu protocolo e mentindo por mim, para defender minha decisão. Mas Zeus também sabia disso.
— Você está dizendo — ele rebateu ferozmente, em meio à falação — que desobedeceu uma ordem direta de seu rei e encontrou-se novamente com uma exilada?
A preocupação com minha melhor amiga foi como uma descarga elétrica. Eu precisava vê-la, ter certeza de que estava segura. Com muito cuidado, eu me virei e coloquei um olho para fora do encosto da cadeira.
Persie ostentava uma expressão de tamanha serenidade que fez meus olhos marejarem. Zeus a encarava com raiva. Os outros deuses debatiam sem parar entre si, completamente absortos em seus comentários. No centro do salão, Ares começou a rir e meu estômago se revirou.
— Não importa mais — a voz dele se sobressaiu às dos outros, que voltaram a prestar atenção. — Mal entendido ou não, a guerra não é mais uma questão de escolha.
Todos pareciam confusos e tensos. Perséfone empalideceu de uma vez, provavelmente um espelho da minha própria expressão. Ele continuou:
— Eu mantive Afrodite prisioneira pelos últimos dias para tentar impedir que isso viesse à tona, pois eu a amo. Mas fui visitá-la ontem e ela tinha fugido. A verdade é que ela se juntou aos asgardianos para declarar guerra contra nós. Afrodite é uma traidora.
Um instante de completo silêncio, e então, caos. Praticamente todos os deuses começaram a gritar. Eles se levantavam e brandiam suas mãos para Ares, alguns em apoio, outros em protesto. A discórdia se alastrou como erva daninha, e logo os olimpianos travavam discussões ferrenhas, cada um acreditando em um lado diferente. Eu estava paralisada, observando o sorriso vitorioso de Ares no meio da sala.
Tudo levou apenas uma fração de segundo. Bem à minha frente, brigando com alguém que eu não conseguia ver, Hefesto deixou seu martelo cair com um baque. Eu voltei ao meu esconderijo como um raio, mas não antes de ver o borrão vermelho do elmo de Ares virando-se em minha direção. Tive a impressão de vê-lo semicerrar os olhos.
Travei o maxilar, fechando os punhos com força e respirei fundo.
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