Na manhã seguinte, meus nervos ainda estavam à flor da pele, e eu estava inquieta. E, para piorar mais meu desequilíbrio mental, fui forçada a pegar uma carona para o trabalho com o terrível viking. Eu queria protestar e pegar meu próprio carro, mas alguma coisa na expressão de River me fez fechar a boca e entrar na picape. Lá dentro, sentei o mais perto da porta possível, segurando na maçaneta.
Enquanto saíamos da propriedade, vi Nell nos observando pela janela do salão da frente, e gemi em pensamento. Ótimo. Ela já achava que eu estava atrapalhando, e, francamente, começava a parecer meio lerda também. Agora eu ia ficar constrangida e paranoica por causa dela o dia todo.
E a parte triste? Apesar de tudo — da minha lembrança, do desdém de Reyn por mim, de nossa óbvia incompatibilidade, do interesse cada vez mais ameaçador de Nell — eu ainda o achava um gostoso, e realmente apreciava seu lado responsável. Naquele momento, eu não confiava em ninguém exceto em River e nos outros professores, mas vamos encarar a verdade: ninguém teria confiado a Boz ou Incy seu trator, sua picape ou sua... aluna. E sou alguém para quem responsabilidade nunca foi argumento convincente. Eu mesma nunca fui responsável e nem confiável em aspecto algum. Incy, antes de aparentemente enlouquecer, tinha sido divertido, animado, mas confiável? Não. Se algum dos meus amigos dissesse que ia me pegar às quatro, talvez pegasse e talvez não. E talvez eu estivesse lá quando ele chegasse. Talvez não. Tudo acontecia espontaneamente. Mas se Reyn dissesse que ia voltar para me pegar às quatro, por Deus, ele já estaria impaciente batendo o pé na calçada do lado de fora exata- mente às quatro. Estranhamente, naqueles dias eu achava aquilo atraente em vez de irritante. Achava atraente ele não estar gritando e grafitando vadia nas paredes. Meu mundo parecia tão de cabeça para baixo, minhas emoções tão intensificadas, que eu já estava quase a ponto de pensar, Invasor do norte que nada! Ele disse que só tem 267 anos! Que seja!
Mesmo assim fiquei segurando a maçaneta da porta durante todo o caminho até a cidade, pronta para saltar do carro em movimento se Reyn de repente puxasse uma espada ou alguma coisa assim. Quando chegamos em frente à MacIntyre's, rapidamente abri a porta e pulei para fora, apertando o cachecol em volta do pescoço.
— Obrigada pela carona — me forcei a dizer, sem olhar para ele.
— Volto às quatro — disse ele. — Sabe... — Ele parou, os lábios apertados.
Olhei para ele com cautela.
— O quê?
— Nada. — Ele balançou a cabeça, olhando para a frente. Eu me virei para ir embora e ele disse: — Seu cabelo. Está meio parecido com um gambá.
Ele nunca tinha feito qualquer comentário sobre minha aparência, e a impressão que eu tinha sempre fora que ele tentava olhar para mim o mínimo possível. Meus olhos faiscaram, e olhei no espelho retrovisor lateral da picape. Ah, nossa. Meu queixo caiu tamanho o choque. Dentre outros detalhes da minha aparência que deixei de lado, havia a cor do meu cabelo. Minha cor natural estava aparecendo nas raízes e eu não tinha retocado a tintura preta. Então sim, eu realmente tinha uma listra louro-esbranquiçada no meio da cabeça. Tão atraente.
Fechei meus olhos e balancei a cabeça, sem acreditar.
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Amada Imortal
Novela JuvenilQuando se vive por mais de quatrocentos anos , não é fácil se emocionar. Tudo é embotado, visto através de uma lente suja pelo tempo. Pelos erros. Pelas perdas... Nastasya passou as últimas décadas vivendo no limite. A próxima festa, o próximo gole...
