Só mais um pedacinho...
Dei outra mordida devagar, olhando para meu prato, mas concentrando toda minha atenção no pãozinho de Nell. Eu inspirava e expirava muito devagar, me esforçando em mover aquele pãozinho só um pouquinho, para fora do alcance dela, uma vez depois da outra.
Uma, duas, três vezes eu a vi ir pegar o pãozinho enquanto falava com um Reyn indiferente e um Lorenz mais animado, que jogava a cabeça para trás e ria. Cada vez a mão de Nell ia automaticamente para onde ela tinha deixado o pão, e cada vez os dedos dela se fechavam no ar. Franzindo a testa, ela o pegava, quebrava um pedaço e o colocava perto do prato.
Então eu o mudava de lugar, bem, bem devagar. Usando só o meu extraordinário cérebro imortal. Dava uma sensação incrível de triunfo.
Eu tinha chegado lá mais cedo e feito os feitiços de limitação para que os pãezinhos de todo mundo não se movessem, só o de Nell, e só o pão, não o garfo nem o copo. Eu tinha devorado livros de feitiços na biblioteca e praticado trechos do feitiço no meu quarto nos últimos dois dias. Eu estava fazendo magick branca: nada perto de mim estava morrendo, nada estava tendo a vida sugada. Aquela era eu agora, Tähti, usando minha herança de incrível poder mágicko. É claro que eu estava usando-o para fazer uma coisa meio má. Isso a tornava magick não branca? A intenção importava tanto quanto o método? Provavelmente haveria uma aula sobre isso no meu futuro.
Eu estava praticamente resplandecendo de excitação reprimida, e o esforço para conter as gargalhadas estava fazendo meu estômago doer. Mas eu estava conseguindo. E Nell estava ficando um pouco irritada, um pouco confusa. Era uma coisa tão pequena seu pão não estar onde você pensa que está, e ainda assim é uma coisa tão pequena que a incapacidade de pegá-lo se torna muito intrigante.
Tomei outra colherada de sopa, controlando minha respiração, mantendo o rosto tranquilo e neutro. Dois assentos depois do meu, os dedos com unhas bem-feitas de Nell bateram na mesa vazia, de novo. Dessa vez ela ficou olhando para o pãozinho e fez um sinal rápido para onde ele devia estar.
Quase saiu sopa pelo meu nariz. Senti que ela olhou para a frente e ao redor, pela mesa. Pelo que eu podia perceber, ninguém usava (ou fazia mau uso) de magick assim. Desde o incidente da pedra esmigalhada, Nell tinha feito questão de deixar claro, mas com sutileza, que estava me observando, que não sentava do meu lado, que me evitava. Ela queria ter certeza de que todo mundo sabia que a querida e doce Nell estava atenta e não confiava em mim. Afinal, ela estava lá havia anos. Eles a conheciam. Eu ainda era relativamente uma estranha.
— Ah, Nas, você tirou a cobertura das fileiras de cebola hoje de manhã, na horta? — perguntou Brynne.
Ela tinha outra faixa colorida enrolada na cabeça, em contraste com o suéter nórdico de lã. Ultimamente, parecia que os aquecedores não estavam dando conta da tarefa de manter os aposentos quentes. Já estava sendo um inverno mais frio do que o habitual, era o que as pessoas diziam.
— Sim — falei, e mergulhei meu pão na sopa.
— E você as cobriu antes de o sol se pôr? — perguntou Asher.
— Cobri — falei, e estiquei o braço para pegar mais verduras.
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Amada Imortal
Novela JuvenilQuando se vive por mais de quatrocentos anos , não é fácil se emocionar. Tudo é embotado, visto através de uma lente suja pelo tempo. Pelos erros. Pelas perdas... Nastasya passou as últimas décadas vivendo no limite. A próxima festa, o próximo gole...
