Eu tinha aterrissado em um plano diferente de existência: a dimensão River. Tive que reaprender muitos hábitos e padrões: a recolher minhas coisas porque não havia empregada, a limpar meu prato depois de uma refeição, a deixar meus sapatos na porta paranão levar lama ou coisa pior para dentro.
Minhas roupas novas sobreviviam à lavagem muito melhor do que meu macacão Jean Paul Gaultier ou meu suéter de cashmere, que eu tinha colocado na lavadora e na secadora. O suéter tinha saído pequeno o bastante para caber em Jasper, que agora o usava com orgulho, saltitando por aí de Chanel rosa-shocking. Eu esperava que ele não deixasse o suéter com cheiro de gambá.
Não havia TV a cabo, só algumas poucas estações locais com transmissão ruim. River tinha um computador no escritório, e era possível colocar o nome numa lista para usá-lo. Eu não precisava dele para nada. Recebíamos o jornal local todo dia, e, devido ao tédio extremo, me vi devorando os últimos relatos de colheita, lendo sobre a vaca de alguém que fugiu, o celeiro de quem foi atingido por um relâmpago e o professor da escola que ia concorrer à câmara municipal. O London Times estava sempre cheio de guerras, escândalos de governo, prisões de celebridades, casamentos entre pessoas da alta-sociedade e relatos de corridas. Tudo parecia pouco preciso — primeiros-ministros iam e vinham, as pessoas se agitavam para protestare depois se acalmavam. Lá, o menor blip inconsequente na tela era tratado como uma novidade incrível.
As pessoas estavam começando a me ensinar coisas que eu jamais tivera vontade de saber: os nomes das estrelas, padrões do movimento do sol, nomes de árvores e plantas e pássaros e animais. Como colher ervas e pendurá-las para desidratar. Como concentrar a atenção na chama de uma vela. Ioga. Meditação, que eu odiava. Mas toda vez que meu espírito interior se rebelava, coisa que acontecia umas oito vezes por dia, eu sempre era tomada pelo pensamento de que não podia suportar a ideia de fazer qualquer outra coisa, estar em qualquer outro lugar. Então engolia tudo e continuava a fazer o que precisava ser feito, até que pudesse encontrar uma razão para ir embora. Até não sentir medo de ir embora.
Uma certa manhã, meu trabalho era pegar ovos no galinheiro. River tinha umas trinta galinhas. Elas andavam soltas pelo jardim, bicando insetos e sendo irritantes. À noite elas se empoleiravam em seus ninhos, trancadas para ficarem protegidas das doninhas, raposas, falcões, cachorros de rua e outros predadores. Nossos cachorros as desprezavam, naturalmente, mas nunca as atacavam.
Pois então, toda manhã, algum pobre coitado (naquele dia, eu) tinha que se enfiar no galinheiro de teto baixo, sempre quente, sempre úmido e com cheiro de penas e palha, e cocô de galinha. Nem eu conseguia ficar de pé lá dentro, e depois que enfiei minha mão em todos os ninhos, às vezes por baixo de uma determinada galinha que não queria se mexer, minhas costas doíam.
— Xô, você! — falei para uma galinha marrom.
As galinhas eram grandes e gordas, com penas brilhantes e olhos cintilantes. Elas pareciam saudáveis e felizes, como os outros animais. Mas essa galinha era do tipo que bicava. Ela queria mesmo ficar sentada sobre os ovos para que não fossem roubados. Ela costumava atacar quem se aproximava e naquela manhã eu tinha esquecido minhas luvas de couro, como sempre. E era por isso que minhas mãos de unhas malcuidadas pareciam pertencer a Jess.
— Olha só, se dependesse de mim, você poderia ficar com seus ovos fedidos — falei para ela. — Mas na casa grande eles têm ideias diferentes. Todos ficam excitadíssimos pelos seus malditos ovos. Então saia do meu caminho.
Balancei os dedos para ela várias vezes, mas ela só cacarejou indignada e começou a ficar com um olhar selvagem de quem estava prestes a bicar.
— Maldição.
Olhei para minha cesta. Estava bastante cheia. Provavelmente ninguém perceberia se houvesse alguns ovos a menos. E então quem fosse pegar os ovos amanhã seria mais bem-sucedido e certamente pegaria os daquela galinha.
A galinha olhou para mim com um jeito de isso aí, fuja.
Talvez eu devesse tentar só mais uma vez, bem devagar e com calma...
— Olá?
Pulei vários centímetros ao ouvir a voz inesperada e bati com a cabeça em uma viga baixa. Meu movimento repentino fez a galinha marrom entrar em pânico, e então ela enfiou o bico duro e afiado nas costas da minha mão, me fazendo gritar e xingar, batendo um pé no chão enquanto eu passava a mão no galo que inchava rapidamente na minha cabeça.
— Maldição! — rugi novamente.
— Hã, me desculpe. Você está bem? — Uma cabeça marrom-acinzentada olhou para dentro do galinheiro e viu enquanto eu me debatia na penumbra.
— Maldita galinha!
— Me desculpe — disse a voz de novo. — River me mandou vir ao galinheiro. Costumo comprar meus ovos daqui. Normalmente pego na casa.
Parecia que eu estava atrasada.
Lancei o olhar mais terrível que pude para a galinha e então abaixei a cabeça para sair do galinheiro. Que os ovos fossem para o inferno.
Do lado de fora, Meriwether estava esperando, alta e magra, com uma caixa de ovo vazia em uma das mãos. Ela olhou para mim, provavelmente tentando lembrar por que eu parecia familiar.
— Ah — disse ela. — Você passou pela cidade outro dia, não foi?
— Foi. Comprei alguns mapas na sua loja. Quantos ovos você quer?
— Uma dúzia.
Ela escolheu uma dúzia de ovos ainda mornos da minha cesta e os colocou com cuidado na caixa. De repente senti como se estivesse duzentos anos atrás e essa fosse uma cena totalmente normal, rotineira. Não gostei disso.
Meriwether esticou a coluna, fechou a caixa e me entregou dois dólares. Suspirei profundamente e os enfiei no bolso do jeans. Não era exatamente uma grande negociação. Eu me lembrava do dia em que apostei o terço que tinha da Ferrovia Transiberiana para poder ficar em um jogo alto de pôquer. Agora eu estava usando um jeans manchado de lama, vendendo ovos por dois dólares.
— Obrigada — disse Meriwether.
Mais uma vez, ela pareceu sem cor, meio sem graça e sem vida. Diabos, quem podia culpá-la, com aquele pai idiota? Ela se virou para ir embora e falei:
— Como vai a loja?
Ela se virou, surpresa.
— Hum, está indo bem. Eu acho. As coisas andam mais difíceis na cidade desde que a fábrica de tecidos em Heatherton fechou.
— Ah.
— Eles faziam lençóis e fronhas — disse Meriwether, tirando uma mecha de cabelo dos olhos. — Éramos a única farmácia nas redondezas e vendíamos muito.
— É por isso que seu pai é tão babaca? — perguntei enquanto andávamos até o carro dela. — Porque os negócios vão mal?
Meriwether engoliu em seco, pouco à vontade, parecendo não estar disposta a admitir que o pai era um babaca.
— Hum, bem, ele não está feliz — murmurou ela, tirando a chave do bolso. — Minha mãe... morreu há quatro anos, e ele nunca... superou isso. — Ela se sentou no banco da frente e soltou o freio de mão.
— Ah.
Muitos imortais se apegam a humanos, inclusive eu, é claro. Se apaixonam ou fazem amizade com eles. Depois que meu Robert, o soldado, morreu na Índia, o inevitável final ruim impediu que eu me aproximasse de outra pessoa. E, entre meus amigos, nós costumávamos não ficar falando de problemas nem de sofrimentos, só fingíamos que eles não existiam e encontrávamos alguma coisa para nos distrair ou bloquear nossas percepções. Então eu não estava acostumada a que me contassem problemas pessoais dolorosos, e eu não tinha nada inteligente ou útil a dizer. Era uma pena, e mais nada. Mas achei que ela estava bem acostumada.
— Mais uma vez, obrigada — disse Meriwether, dando marcha ré.
— Tudo bem. Até a próxima.
— Nastasya? Venha comigo — disse Anne. — Aula de meditação. Sua primeira vez em grupo.
Fiquei de pé, minha coluna lentamente se esticando depois de horas inclinada. Ali estava eu, catando nozes do chão. Uma linha de umas dez nogueiras grandes contornava o jardim da frente, e colher as nozes era uma tarefa frequente no outono. Era um trabalho frio, tedioso, cruel com a coluna, e porque eu novamente havia esquecido minhas luvas, meus dedos agora estavam manchados de marrom por causa das cascas. Levaria semanas para a cor sumir. Meus joelhos estavam cheios de lama e molhados por eu ficar ajoelhada no chão úmido, meu nariz estava escorrendo e eu sentia frio no corpo todo.
— Vai ser difícil — reclamei, e Anne sorriu.
Até então, meditação não parecia passar de uma eternidade sentada imóvel, junto com a diversão de reviver horrores passados. Não, obrigada. Na semana anterior eu tinha feito aquilo sozinha, com alguém para me guiar apenas. Agora era hora de uma experiência completaem grupo. Que alegria.
— Venha — disse ela de novo, apontando para a casa. — Pelo menos você estará aquecida.
Olhei para meu saco de juta. Estava com cerca de três quartos do conteúdo cheio. Suspirando profundamente, me levantei e fui com Anne.
— Hoje vamos usar uma vela para nos ajudar na concentração — disse Anne de maneira tranquilizadora, dez minutos depois.
Eu me sentei de pernas cruzadas em um pequeno travesseiro duro recheado de trigo sarraceno. Havia cinco de nós, cada um sentado em uma ponta de um pentagrama desenhado no chão com giz. Estávamos no andar de cima da casa, e eu podia ver o céu que escurecia lentamente pela janela com vidro canelado. Pensei se não poderia fugir pelo corredor e ir para meu quarto, considerando que todo mundo estava meditando. Eu não queria fazer aquilo. Mas, principalmente, não queria fazer aquilo com Lorenz e Charles, embora eles fossem legais. E com o time dos sonhos, Nell e Reyn.
— Pessoal, vamos nos concentrar na respiração — pediu Anne, num tom baixo e melódico. Ela apertou o botão em um CD player e um tipo de música tilintante estilo Enya/canto de baleia começou a tocar baixinho. — Prestem atenção à respiração — prosseguiu ela por cima da música de fundo. — Sintam-na preencher seus pulmões, sintam-na sair dos seus corpos. Vocês estão inspirando energia, expirando o que não precisam mais.
Como dióxido de carbono, por exemplo.
— Se ajudar, vocês podem contar até quatro enquanto inspiram e expirar ao chegar ao quatro. Depois contem até seis na próxima inspiração, levando seis batimentos para encher os pulmões completamente. E expirem ao chegar ao seis. Vocês podem fechar os olhos se quiserem.
Fechei meus olhos imediatamente. Sem ver a expressão pedante de Nell e o rosto sério de Reyn, talvez eu conseguisse sonhar acordada por um tempo e acrescentar detalhes à minha mais recente fantasia romântica, aquela com Reyn, óleo de amêndoas e uma banheira quente.
— Agora, começando com os dedos dos pés, quero que relaxem cada músculo, um de cada vez. Sintam seus dedos, sintam-nos relaxar. Agora os tornozelos. E as canelas. Se há alguma tensão concentrada ali, libertem-na. — A voz de Anne parecia um sonho, flutuando na música que nos envolvia como fumaça.
Meu peito doía, meu estômago doía e meu nariz ainda estava escorrendo do ar frio lá fora. O dia de Ação de Graças seria em algumas semanas aqui nos Estados Unidos, e me perguntei se River sabia disso e se eu podia ter esperança de comer alguma sobremesa não saudável nesse dia. Lembrei-me da minha ida à cidade para as compras e de como eu tinha sido negligente em fazer estoque de doces e biscoitos contrabandeados. Ah, Deus, eu adoraria um muffin de chocolate.
A voz de Anne era constante e baixa no fundo da minha consciência. Eu me acomodei na almofada, senti parte da tensão deixar meus ombros. Nozes imbecis. Minhas mãos ficariam manchadas de marrom por semanas, aquilo não saía com água. Era por isso que as pessoas usavam-nas para tingir tecidos e lã...
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amada Imortal
Teen FictionQuando se vive por mais de quatrocentos anos , não é fácil se emocionar. Tudo é embotado, visto através de uma lente suja pelo tempo. Pelos erros. Pelas perdas... Nastasya passou as últimas décadas vivendo no limite. A próxima festa, o próximo gole...
