Capítulo 21

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Quando você passou a maior parte da sua vida sendo um camaleão, mudando tudo em si mesma várias vezes, é sempre chocante ver o você original no espelho. Ao longo dos anos, usei todas as cores de cabelo, de branco a preto, incluindo azul, verde e roxo, e todos os comprimentos, desde curtinho até tão longo que passava da cintura. Eu já fui magra, gorduchinha, grande e grávida, faminta e esquelética. Já tinha tido a pele branca dos moradores do norte, onde passávamos meses sem ver o sol, e já tinha sido escura como uma noz, bronzeada pelo sol equatorial que penetrava minha pele e chegava aos meus ossos.

Agora eu parecia comigo quando deixei de ser criança. Era estranho, perturbador, e eu me sentia horrivelmente exposta e vulnerável. De manhã, coloquei várias camadas de suéteres, enrolei um cachecol macio ao redor do pescoço e amarrei um lenço no cabelo, o que, ironicamente, só me deixou ainda mais parecida com como eu era. Roupas de camponesa. Por fim, desci as escadas com relutância. Eu estava escalada para a tarefa de botar a mesa do café.

Na cozinha, murmurei um oi rápido para Daisuke e Charles, que estavam fazendo comida. Reparei que, como sempre, a cozinha estava limpa e arrumada, embora eles estivessem cozinhando para 13 pessoas. Eles eram pessoas pequenas e elegantes que sempre pare- ciam estar em uma sintonia profundamente calma. Brynne fazia grandes bagunças na cozinha, assim como Lorenz — ambos pessoas exuberantes e muito atraentes. Reyn era organizado. Nell era bagunceira. Jess e eu éramos ambos desorganizados, e tenho certeza de que isso era uma surpresa para todo mundo.

Peguei rapidamente a bandeja com os utensílios de mesa e escapei para a grande sala de jantar, que ainda estava imersa na escuridão anterior ao nascer do sol. Por dentro eu me sentia tensa, ansiosa, nervosa de uma maneira que não ficava... havia semanas. Assim que fosse para o trabalho naquela manhã, eu planejava desaparecer no banheiro dos funcionários com uma caixa de tintura de cabelo. Avermelhado dessa vez, pensei.

A porta da cozinha se abriu e Solis entrou, carregando uma braçada de galhos cortados. Fiz um gesto de cabeça para ele, sem olhá-lo nos olhos. Ele colocou um vaso alto no meio da mesa e arrumou os galhos longos lá dentro, fazendo um arranjo de uns 90 centímetros.

— Florescimento forçado — disse ele, acariciando o tronco dos galhos com dedos gentis. — Isso ocorre não por meio de magick, mas simplesmente por trazê-los para dentro. É errado forçar uma coisa a acontecer contra sua natureza?

Ele quase parecia estar falando sozinho, não estava nem olhando para mim, então eu esperava que não fosse realmente uma pergunta. Há um limite para a quantidade de filosofia existencial que consigo aguentar antes da minha primeira xícara de café.

Eu me movia em silêncio ao redor da mesa, arrumando a bela e pesada louça de River do começo do século XVIII no lugar certo.

— O que você acha, Nastasya? — perguntou ele, me imprensando como um colecionador de insetos imprensa uma mariposa a uma placa forrada de veludo. — Você acha que é errado forçar uma coisa a ir contra sua natureza? Será que às vezes não tem nada de mais, como no caso destes galhos? E falando nisso, que planta eles são?

Fiquei em silêncio e olhei para o arranjo. Uma coisa de cada vez, para eu ganhar algum tempo. Eles eram de uma cor clara, não parecendo muito cor de madeira. Pareciam mais um arbusto. Era alguma planta que florescia cedo, pois ainda não era inverno e ela já podia ser forçada.

Amada ImortalOnde histórias criam vida. Descubra agora