Naquela noite, os sonhos voltaram.
Fui embora do Clancy's logo depois do feitiço de Kim. Fui a única a se importar, a única cujas bebidas reviravam no estômago toda vez que pensava no terraço e seu chão de piche cheio de pequenos corpos coloridos cobertos de penas. Além do mais, com a dor de cabeça lancinante e a náusea habitual, pedi licença e deixei Beatrice, Kim e os outros olhando para mim com expressões confusas. Era por volta de meia-noite e voltei para o hotel, me sentindo imunda.
Eu estava com medo de não conseguir dormir, mas a exaustão e a preocupação me empurraram para um estado de inconsciência profunda que me engolfou, me levou ao horror negro da minha infância, de volta para a noite em que minha vida mudou pela primeira vez.
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Um grande tremor me acordou, e olhei para minha irmã mais velha, Eydís, dormindo na cama que compartilhávamos. Teria sido um trovão? Eu amava tempestades. Olhei para a janela estreita, coberta com pequenos e grossos pedaços de vidro. Uma luz brilhou lá fora. Um relâmpago? Ou fogo?
O som se repetiu, um estouro enorme e vazio que chegou a sacudir nossa cama. Vi Eydís piscar com olhos pesados e, no momento seguinte, a porta se abriu. Nossa mãe estava ali parada, os olhos arregalados, o longo cabelo dourado solto nas costas por baixo do pequeno gorro de linho que usava para dormir.
— Móðir? — falei.
— Rápido! — disse ela, jogando mantas na nossa direção. — Levantem! Calcem os sapatos! Rápido, vamos!
— O que está acontecendo, Móðir? — perguntou Eydís.
— Não temos tempo para perguntas! Apressem-se!
Senti o estrondo seguinte retumbar nos ouvidos quando estava enfiando os pés nos sapatos de inverno, feitos de couro de alce e forrados com pelo de coelho. Nosso quarto estava gelado; o fogo tinha se apagado e as paredes de pedra estavam cobertas de gelo esbranquiçado.
No corredor encontramos meu irmão mais velho, Sigmundur, que, aos 15 anos, era da altura de meu pai. Ele segurava a mão do meu irmãozinho, Háakon. Tinna, minha irmã mais velha, já estava enrolada em uma manta de lã pesada, as longas tranças amarelas caindo sobre os ombros.
— Vamos, crianças, rápido! — Minha mãe se virou e desceu correndo a larga escadaria principal com todos nós tão perto que o cabelo dela batia em nosso rosto.
Gritos e passos fortes nos receberam quando chegamos ao térreo, e lá vimos os homens de Faðir, armados com espadas e arcos, vestidos com pesadas armaduras de couro. Nos encostamos na parede de pedra quando eles passaram correndo, gritando ordens. Em fila única, eles correram pela estreita escada dos fundos, que se curvava em uma espiral no sentido contrário ao do relógio. Sigmundur tinha mostrado para mim e para Háakon a inteligência daquele projeto — se você estava descendo, defenderia o castelo com a espada em seu braço direito e haveria espaço suficiente para atacar os invasores. Se você era o invasor e estava subindo, o braço da espada não tinha espaço para se movimentar, e você era forçado a ficar em uma posição ruim para a luta.
E mais uma vez houve o estrondo, o tremor. Caiu poeira das pedras acima de nós, o que me fez espirrar.
— Móðir, o que está acontecendo? — Háakon, de 7 anos, estivera doente nas duas últimas semanas, com calafrios e febre. Ele estava magro e pálido, com círculos escuros em volta dos olhos.
— A muralha externa foi derrubada — disse minha mãe visivelmente tensa, nos levando para o escritório do meu pai. — Invasores do norte.
Eydís e eu nos entreolhamos, de olhos arregalados. O som trovejante chegou a nós de novo, e Tinna agarrou minha mão.
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Amada Imortal
Teen FictionQuando se vive por mais de quatrocentos anos , não é fácil se emocionar. Tudo é embotado, visto através de uma lente suja pelo tempo. Pelos erros. Pelas perdas... Nastasya passou as últimas décadas vivendo no limite. A próxima festa, o próximo gole...
