Odia seguinte era sábado. Eu tinha que cuidar de dois cavalos. Os animais designados para mim foram Sorrel e Titus. Sorrel era uma quarto de milha elegante e graciosa que era usada só como montaria; Titus era da raça Irish draught e de vez em quando era atrelado a carroças ou carruagens, sei lá. Os dois eram bons animais, no sentido de que eram pacientes e calmos, ao contrário, por exemplo, da galinha dos infernos.
Prendi Sorrel e comecei com a escova de borracha. Ela bufou no meu cabelo enquanto eu a escovava, soltando a sujeira e desembaraçando o pelo.
Cavalos. Nem quero falar sobre cavalos. É impossível expressar o quão crucial os cavalos sempre foram para as pessoas, até literal- mente os últimos cem anos. Por milhares de anos, os cavalos e as vacas foram o que mantiveram as pessoas vivas, permitiram que as pessoas viajassem, transportassem coisas pesadas, cultivassem terra o bastante para sustentar uma família. Sempre os tive por perto. Uma das vezes que morei na Inglaterra, no meio do século XIX, eu tinha sido louca por cavalos, quando cavalgava todo dia, tinha os meus animais, mandei fazer selas sob medida. Mas eles eram como todo o resto: acabavam morrendo.
Acabei superando essa paixão. Agora eu os evitava. Os olhos sábios, a natureza sensível... Eles conseguem ver a verdade no meio de baboseiras, como os cachorros, os gatos e as crianças pequenas. Eu tentava evitar todos esses. Além do mais, assim que eu sentia o cheiro de um cavalo, muitas lembranças voltavam, com muita força, do jeito que os cheiros conseguem fazer. Às vezes eu posso estar no mesmo prédio ou aeroporto ou ver exatamente a mesma vista de uma ponte e nem lembrar, embora saiba que já estive lá. Mas se aquela memória vem acompanhada de um cheiro, tudo volta com força e com detalhes excruciantes. O cheiro de amendoins assando em Manhattan. O cheiro do mar Mediterrâneo em Menton. Feno recém-cortado no Kansas. Neve na Islândia. Uvas esmagadas na Itália. Sonho sendo frito e café em Nova Orleans.
E cavalos.
Sorrel bateu a perna dianteira esquerda com delicadeza enquanto eu me esforçava para não pensar no palheiro a 3 metros e meio acima de mim. Por alguns minutos, eu tinha sido feliz lá em cima.
Primeiro a escova de borracha, depois a escova de nylon, depois a escova macia e finalmente a toalha. Sorrel parecia um cartão-postal quando terminei de limpar o pelo dela. Peguei o limpador de casco e limpei debaixo das ferraduras dela, e então acabei. Enquanto eu soltava as cordas, ela passou o focinho no meu cabelo, sua respiração quente e com cheiro de feno.
— Tudo bem, cavalinho — murmurei, e a coloquei de volta na baia.
Titus era maior e mais pesado, mas não tão grande como um percheron ou um Shire. Já vi cavalos Shire que eram realmente enormes. Prendi Titus e peguei a escova de borracha com um braço que já começava a doer.
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Cavalos de carga.
Meu pai tinha tido cavalos de guerra — não grandes e pesados, como na Europa, próprios para carregar homens e armaduras de 180 quilos. Mas, ainda assim, cavalos grandes e poderosos criados para a guerra. Cavalos perto dos quais as crianças não podiam chegar. Ele também tinha o que chamava de cavalos de damas — menores, mais leves, normalmente fêmeas, para minha mãe, meus irmãos e eu cavalgarmos. Montei em um quando tinha 3 anos. Quando cheguei aos 6, eu já tinha o meu próprio cavalo. Não sei mais o antigo nome em islandês, mas significava estrela-do-mar, por causa de uma mancha engraçada no pelo. Minhas irmãs e irmão mais velhos e eu andávamos nos cavalos tranquilamente, saindo dos territórios do castelo, e descíamos as trilhas até a praia cheia de pedras. Lá, nós treinávamos ficar de pé nas costas dos cavalos, segurando as rédeas com uma das mãos, a outra esticada dramaticamente acima da cabeça. Achávamos que éramos incrivelmente enérgicos e ousados.
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Amada Imortal
Novela JuvenilQuando se vive por mais de quatrocentos anos , não é fácil se emocionar. Tudo é embotado, visto através de uma lente suja pelo tempo. Pelos erros. Pelas perdas... Nastasya passou as últimas décadas vivendo no limite. A próxima festa, o próximo gole...
