Capítulo 24

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Eu podia sentir a impaciência mal-velada de Solis.

E isso só piorava as coisas, é claro.

Tentei de novo. Soltei todo o ar. Tentei acalmar minha mente, esvaziá-la de pensamentos. Para atingir uma imobilidade perfeita e centrada — o que era absolutamente alheio para mim como desenvolver asas e voar. Quando me senti pronta, olhei de novo dentro da grande tigela de água. Inspire, expire.

— O que é a água? — A voz de Solis estava tão baixa que eu mal conseguia ouvi-la.

Eu me lembrei das palavras dele e murmurei:

— A água é a vida e a morte, luz e trevas, duro e mole. A água é o passado, o presente e o futuro. É líquido, sólido e gasoso. É gentil como a chuva e de uma força terrível. É puro conhecimento; ela guarda os mais profundos segredos. — Inspirei e expirei, tentando me mover o mínimo possível. — Água, revele minhas verdades para mim.

Esperei. Era a terceira tentativa. Ter visões pela água é suposta- mente mais fácil do que usando outros métodos, mas ainda assim é uma habilidade. E eu precisava aprendê-la. E sempre fazia tudo errado.

Esperei, observando a superfície parada da água. Até o momento, o que eu tinha visto era: água. Uma tigela molhada. Eu estava de joelhos e meus pés estavam congelando e ficando dormentes. Estava com fome. Percebi que meu cérebro não estava vazio e os pensamentos não estavam controlados. E, é claro, havia tantas coisas que eu não queria ver. Solis ia me matar.

De repente, pisquei. Imagens tremeluzentes estavam se formando na tigela, como se refletidas em um espelho.

— Tem uma imagem na água — sussurrei sem mover muito os lábios.

Solis não disse nada. Fiquei observando, agora concentrada naquele feitiço. A imagem tremeu e se definiu: era eu, parecendo feliz, segurando um bebê que eu não reconhecia. Eu parecia estranhamente normal, uma pessoa comum. A imagem se enevoou e desapareceu, depois mudou. Eu me afastei, a respiração acelerada: era um castelo em chamas. Então vi o flash de uma pessoa morta, uma garota, deitada em um chão frio de pedra, os olhos escuros abertos mas sem ver nada, o cabelo claro encharcado de sangue. Eu podia ver o grande espaço vazio entre a cabeça e o pescoço, a escura poça de sangue se espalhando ao redor dela.

Não, não, meu inconsciente gritou. O tempo voltou mais, e de repente eu estava de novo naquela noite, naquela noite de terror quando minha mãe nos acordou e nos reuniu no escritório do meu pai. Ouvimos os invasores tentando quebrar a porta com um aríete. Sentimos o cheiro de fumaça da parte de trás do castelo, onde tinham botado fogo nos lares dos empregados, nos estábulos. Os animais em pânico pareciam gritar; os homens também gritavam.

Minha mãe estava segurando seu amuleto e cantando. Eu nunca tinha ouvido aquela música. Eu sempre adorava quando ela cantava. Ela cantava no equinócio de primavera, para receber a fertilidade da terra nos meses posteriores. Ela cantava nos solstícios, louvando o equilíbrio da rotação do ano. Cantava para os moradores do nosso vilarejo se eles estivessem feridos ou tendo dificuldade para dar à luz. Mas aquela música era diferente — havia uma veia obscura nela, como um cordão umbilical pulsante, e essa veia engrossou e cresceu. 

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