Capítulo 10

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- Oh, Nastasya, me ajude!

Dei meia-volta ao som da voz de River e a vi saindo de trás da velha picape vermelha. Era cedo e eu estava levando lenha para a casa, para as grandes lareiras do salão principal e da sala de jantar. Eu não sabia como isso salvaria minha alma, mas era melhor do que arrancar beterrabas da terra. Soltei o cabo do carrinho e fui em direção a ela. Ela estava inclinada, segurando um dos cachorros pela coleira.

— Nastasya, você tem que pegar Jasper — disse River. Seu cabelo grisalho fino estava fugindo da trança, emoldurando o rosto dela em mechas.

— Hã, tudo bem — falei, esticando as mãos em direção a ele. — Ah. Eca. Isso é cheiro de gambá?

— É. Sinto muito, mas tenho que levar esses repolhos para o mercado dos fazendeiros antes das oito. Jasper costuma ir comigo, mas ele obviamente teve um probleminha com a vida selvagem local. Será que você pode dar um banho nele?

Olhei para ela. Jasper ofegava com alegria aos meus pés, fedendo absurdamente.

— Com suco de tomate — disse River. — Coloque-o na pia grande do estábulo e jogue suco de tomate nele todo. Já pedi a Reyn para trazer o suco e ajudar você.

— Hã — falei.

River começou a achar graça por me passar esse trabalho atroz e tentou reprimir uma risadinha.

— Lamento, Nastasya. Você é minha última esperança. Um tanto de suco de tomate e depois um bom xampu e ele deve ficar bem. Certo, Jasper querido?

Jasper parecia alegre e satisfeito consigo mesmo.

— Desculpe, tenho que correr. Muito obrigada! — Ela deu um tapinha rápido no meu ombro e depois correu de volta para a picape. Observei enquanto ela dava ré e seguia pela via não pavimentada que levava à estrada principal.

Olhei para Jasper. Ele sorriu para mim. O cheiro era horrível. Se qualquer um dos meus amigos pudesse me ver agora... me achariam tão inexplicável e desprezível quanto eu os achava.

— Muito bem, vamos lá — falei, levando Jasper para o estábulo.

Havia o celeiro grande, onde as aulas eram dadas, e havia mais duas outras construções. River tinha seis cavalos, embora o estábulo comportasse dez. Em um canto ficava a sala de equipamentos e bem em frente ficava a pia grande. Reyn estava ao lado da pia, já fazendo buracos em várias latas enormes de suco de tomate. Ele olhou para mim sem entusiasmo algum.

— Temos que dar banho nele — falei desnecessariamente.

— Sim.

Reyn colocou a tampa no ralo, depois se inclinou e ergueu Jasper com facilidade para colocá-lo dentro da pia. Tentei não apreciar o quanto ele era forte, o quanto era capaz e tranquilo. Jasper se contorceu inseguro, depois ficou parado.

— Bom menino — falei, tentando não inspirar. — Ah, meu Deus. Espero que esse negócio de suco funcione.

— Segure-o — disse Reyn, e virou uma lata de suco de tomate nas costas de Jasper. Provavelmente estava frio, e Jasper parou de sorrir, parecendo ofendido.

— Pegue aquela caneca e jogue mais — disse Reyn.

Fiz o que ele mandou. Eu me dei conta de que Reyn e eu estávamos sozinhos naquele estábulo quente e com cheiro de feno. A manhã mal tinha começado; raios de sol entravam pelas poucas janelas. Ao nosso redor, cavalos bufavam baixinho, os focinhos aveludados tremendo ao capturar o cheiro de nosso Jasper.

Eu não estava à vontade. Odiava estábulos, odiava estar cercada de cavalos. Já tive cavalos que amei muito, e perdê-los tinha doído demais. Agora eu me esforçava para evitar ficar perto de outros cavalos.

Amada ImortalOnde histórias criam vida. Descubra agora