Capítulo 18

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Então, vejamos: minha vida anterior de roupas de grife; festas fabulosas; homens aos montes atrás de mim; amigos lindos, divertidos, animados; viajar quando me dava na telha; diversão diversão diversão — ou minha vida atual de jeans, camisas de flanela e botas grosseiras; meu emprego de subalterna em uma farmácia pequena e velha; acordar ao amanhecer; cair na cama por volta das nove. Não havia motivo para esta vida parecer melhor, não mesmo.

Ali, pela primeira vez em décadas, possivelmente séculos, meu estômago não doía. Sempre tive um ponto lá dentro que me dava a sensação de ter engolido uma estrela ninja ou fogos de artifício. Um lugar bem dentro da minha barriga que ardia, se retorcia, doía, era contraído, tenso. Às vezes, se eu bebesse muito ou coisa parecida, a sensação sumia um pouco, depois voltava com tudo para se vingar. Nem mesmo me incomodava — eu só sabia que estava lá. Eu convivia com a sensação. Às vezes ficava pior, mas a maior parte do tempo eu só reparava na sensação, no nó, na irritação e na ardência crua lá no fundo.

Naquela manhã, percebi que eu mal sentia aquilo. E não tinha me automedicado em semanas — desde que cheguei à Casa de Reabilitação de River. Foi chocante me dar conta de que eu estava em River's Edge havia cinco semanas. Ao mesmo tempo parecia tudo novo e que eu estava lá havia meses ou anos.

Tudo estava diferente.

Eu tinha mais aulas de verdade agora. Com Anne, às vezes com Asher, com Solis ou a própria River, eu estava aprendendo meditação, astronomia, botânica, geologia, tudo que se possa imaginar. Se fosse algo árido e incompreensível, eles estavam jogando em cima de mim. Estava aprendendo sobre plantas, e não só sobre as plantas da fazenda. Havia tantas plantas, ervas e flores com propriedades específicas, tanto físicas quanto mágickas, e elas podiam ser usadas em feitiços. Há diferentes formas de magick que usam plantas, ou metais, ou gemas e cristais, ou óleos, ou velas. Pessoas diferentes se adequavam melhor a diferentes tipos de magick; ou seja, certo tipo de magick fluía melhor com a personalidade delas, então os feitiços davam melhores resultados se elas usassem determinada planta ou cristal, por exemplo. Eu ainda não sabia o que funcionava melhor para mim. Estava aprendendo que basicamente tudo ao meu redor, tudo no mundo, estava conectado a magick de alguma forma. E, portanto, conectado a mim. Voltaram a tocar no conceito das oito casas, e tentei não demonstrar medo e nem desmaiar quando falavam da Islândia ou sobre a Casa de Úlfur.

Eu via mudanças. Mesmo aos meus olhos, eu parecia menos

doente. É claro que minha atração natural ficava completamente obscurecida pelos calos nas minhas mãos, poeira e palha nos meus cabelos, roupas masculinas e pelo perpétuo aroma de titica de galinha que me envolvia, mas minha pele e meus olhos pareciam mais saudáveis.

Eu estava dormindo. Em vez de quatro ou cinco horas de sono agitado, eu agora desmaiava cedo e dormia como uma pedra drogada até a hora de acordar. Eu estava mais forte fisicamente; conseguia levantar caixas de madeira e papelão na MacIntyre's, empurrar vacas até o local onde era tirado o leite e levantar as panelas maiores e mais pesadas da cozinha. Meus sonhos não eram ruins. Eu geralmente não conseguia me lembrar deles, mas não estava tendo pesadelos constantes e não estava acordando enjoada e exausta. 

Ao mesmo tempo, essa vida saudável estava começando a dar a sensação de que ia me matar. Ha ha ha. E embora eu estivesse vendo mudanças, o que eu estava vendo era diferença; não achava que estivesse vendo progresso.

Amada ImortalOnde histórias criam vida. Descubra agora